Arquivo de agosto \30\UTC 2009

My Name Is Red

n121080My Name Is Red (ou Meu Nome É Vermelho, na edição nacional da Cia. das Letras) é um livro do escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 2006. É, em um primeiro momento, um misto de romance histórico e mistério policial, sendo ambientado na Istambul no fim do século XVI, onde um miniaturista produzindo um livro secreto para o sultão é assassinado e um certo personagem é chamado para resolver o caso. Como freqüentemente ocorre nos grandes romances, no entanto, seria injusto reduzi-lo a isto; o mistério, no fim, é apenas o pano de fundo para que o autor desenvolva uma obra bastante particular, com um virtuosismo narrativo único e um interessante trabalho de reconstrução histórica e imaginação.

O primeiro ponto a se destacar é, certamente, o excelente trabalho feito na narração da história. Todos os capítulos são escritos em primeira pessoa, com os personagens falando diretamente ao leitor, em um tom quase casual, como uma conversa; e cada capítulo é narrado ainda por um personagem diferente. Isso o mantém sempre alerta e desconfiado sobre aquilo que lê – cada narrador, é claro, tenta se colocar em uma luz benéfica e destacar a sua importância e caráter, e freqüentemente o que era dado como certo por um é desmentido logo no capítulo seguinte por outro; muitas vezes, ainda, os próprios personagens admitem que estão mentindo, ou que preferem não revelar tudo o que sabem. Mesmo o assassino tem os seus momentos no centro da ação, tentando se explicar e justificar o que fez, sem revelar abertamente a identidade até os capítulos finais.

Essa narração em primeira pessoa também faz com que muitas vezes algum elemento fantástico esteja presente, de algumas formas bastante inusitadas. O primeiro capítulo, por exemplo, é narrado pelo corpo do miniaturista assassinado, atirado no fundo de um poço e clamando por justiça contra o crime que sofreu; e mais adiante, quando outro personagem é morto, ele próprio retorna para narrar o seu funeral e a subida ao paraíso. Outros capítulos são narrados ainda por desenhos, a partir de um contador de histórias que assume o papel de um cachorro, um cavalo, uma árvore, uma moeda, e até a cor vermelha, para assim revelar os seus pontos de vista e contar algumas fábulas sobre a pintura no mundo árabe.

E é justamente a pintura o tema central do livro, que de alguma forma se faz presente durante toda a trama. Não só a primeira vítima é um miniaturista trabalhando em um livro secreto, como os principais suspeitos do crime são os outros três artistas que trabalhavam nele; a solução do crime, assim, passa pela análise da obra de cada um, bem como a visão que possuem sobre a pintura e o mundo da arte. Isso serve de pretexto para que Pamuk discorra em longos devaneios sobre a natureza da arte árabe medieval, recorrendo a fábulas curiosas sobre estilo, assinatura e até a cegueira dos artistas. Outro elemento importante nessa discussão é a comparação entre a arte árabe e a ocidental, que vivia naquele período um dos seus principais momentos, já na fase mais tardia do Renascimento, e que serve de pretexto para que sejam feitas algumas reflexões sobre as relações históricas entre o oriente e o ocidente.

Tudo se completa, é claro, com o cenário rico e exuberante que é a Istambul do século XVI, vividamente descrita em suas ruas, habitantes e personagens. Ao menos para um leitor ocidental, ela parece distante e exótica o suficiente para manter um certo ar de magia e fantasia mesmo nos seus momentos mais mundanos, em pouco ou nada devendo às cidades fictícias de um China Miéville ou Neil Gaiman.

My Name Is Red, enfim, é um livro único, que, pela sua narrativa inusitada e tom próximo ao fantástico, oferece uma experiência de leitura envolvente e cativante. Nesse sentido, acho que a única obra que eu consigo pensar para compará-lo seja Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino, apesar dos seus temas centrais serem bastante diferentes; e talvez também, pela maior proximidade na ambientação, Baudolino, do Umberto Eco. Recomendo enormemente.

Baudolino

8577990028_TaEu sempre me surpreendo em reparar como livros importados, em geral, conseguem ser mais baratos que as edições nacionais. Por vezes a diferença é mesmo gritante, ficando na metade ou em até um terço do preço; em especial as edições em inglês e francês tendem a chegar nesse nível. O que acontece é que há uma vasta tradição lá fora de lançamentos em formatos mais baratos, com papéis menos luxuosos e tamanho de bolso (os famosos pocket books, para quem for dado a estrangeirismos), o que não é exatamente o padrão por aqui; em geral, até pouco tempo atrás, apenas clássicos saíam nesse formato, como nas séries editadas pela L&PM e Martin Claret. Só mais recentemente, e felizmente, há uma adesão maior à idéia, com alguns livros mais interessantes saindo em edições baratas. Um ótimo exemplo é a coleção BestBolso, da editora Best Seller (afiliada ao grupo Record), que consegue ter um acabamento muito bem cuidado sem por isso sair de um preço convidativo; pertencem à ela, por exemplo, o já resenhado por aqui O Jogo das Contas de Vidro, de Herman Hesse, e também este Baudolino.

O livro, do mesmo Umberto Eco que escreveu o clássico O Nome da Rosa, conta a história de Baudolino, filho adotivo do imperador Frederico Barba-Ruiva, que, preso na Constantinopla tomada pelos cruzados, encontra o historiador Nicetas Coniates. Enquanto o ajuda a fugir da cidade, Baudolino relata a história de como ele, nascido pobre em um pequeno vilarejo italiano, foi adotado pelo grande soberano do Sacro-Império, e, após a sua morte, empreendeu uma jornada fantástica para o oriente em busca do reino mítico de Preste João nas Índias, passando entre ambos os eventos por um curioso envolvimento na construção e difusão de diversos ícones do imaginário medieval. O bizantino, é claro, não acredita em tudo o que lhe é contado, e se cria assim uma narrativa em dois tempos em que o próprio texto por vezes critica e reflete sobre a história que conta, lembrando um pouco o que acontece em O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino.

É um livro difícil de classificar exatamente; mistura o romance histórico, embaralhando personagens fictícios em eventos históricos conhecidos, com o romance de aventuras e o conto fantástico, com viagens até terras longínquas habitadas por seres maravilhosos, e há até mesmo um flerte com a história de mistério, com direito à clássica cena de enumeração de suspeitos para desevendar um crime insolúvel. Em todos os gêneros pela qual passa, no entanto, Baudolino continua uma obra cativante e tocante; talvez Eco não tenha toda a virtuose narrativa de um Calvino ou a prosa fabulosa de um Jorge Luís Borges, mas é ainda assim um autor muito eficiente em contar suas histórias e com uma imaginação bastante fértil, capaz de criar algumas passagens memoráveis em tom de fábula e fantasia. Certamente recomendado para qualquer um que goste de épicos de aventura e fantasia, especialmente aqueles de temática medievais, ou apenas de uma boa leitura repleta de momentos marcantes.

Coração Vazio

Uma dúzia de notas permeavam o ar, emparedando sensações e sentimentos. Um acorde acendia os futuros pretéritos que o atormentavam, atacando-o como se fossem a última esperança de tudo o que fazia.

When i feel so empty, all alone…

Por um momento, pôde ver de relance uma razão – tudo fazia sentido, afinal. O universo se conjugava com perfeição para que as coisas fossem como fossem; elas simplesmente eram, verbo intransitivo. E ele podia relaxar, magicamente vivo como estava.

Mas então a perdeu de vista. Procurou apressado, levando-se pelo desespero, vagando pelos mais profundos recantos de si mesmo; mas, no fim, desistiu, e apenas seguiu adiante, para onde quer que adiante fosse, levando consigo aquela nostalgia do que nunca tivera. Atrás de si deixava uma melodia, preenchendo com ela a estrada vazia.

To something that’s just what i want…

Starman

starmanvol1Em geral, quando se fala super-herói, todo mundo já sabe mais ou menos o que esperar: ideais de justiça, poderes temáticos, roupas coloridas, cuecas por cima das calças… Há algumas pequenas variações aqui ou ali, claro; o Homem-Aranha é um adolescente em crise, o Batman tem aquela atitude sombria e misteriosa, o Justiceiro tem uma moral mais cinzenta e questionável. Mesmo assim, há todo um imaginário pronto, que talvez já nem se possa considerar tanto como clichê – eu diria que está no nível de um paradigma mesmo. E é sempre digno de nota quando se consegue quebrar paradigmas com eficiência, e trazer algo que soe novo sem por isso deixar de ser reconhecível como um produto de gênero. O Starman de James Robinson e Tony Harris é um ótimo exemplo disso.

Em um primeiro momento, ele parece muito com aquela tendência mais recente (muito embora as suas histórias tenham já quinze anos) da Era do Saudosismo, por assim dizer. Pode-se notar um certo tom de homenagem, visto que o Starman original pertenceu à Era de Ouro, e o seu legado é um tema importante nas primeiras histórias do volume, quando o protagonista Jack Knight, filho do herói, recebe involuntariamente o seu manto após a morte do irmão. E é a relutância dele em aceitar esse legado que o torna um personagem tão interessante e cativante – Jack é uma pessoa comum, com interesses comuns; é apenas um nerd e colecionador compulsivo com uma loja de antigüidades, que por acaso tem um pai um tanto mais famoso. Entre outras coisas, ele próprio reconhece o ridículo que é vestir uma roupa colorida com cueca por cima da calça, tanto que o seu uniforme, por assim dizer, passa a ser apenas uma jaqueta de couro e uma estrela de xerife, com um par de óculos de soldador para proteger os olhos do brilho do bastão cósmico; se a idéia do herói relutante não parece assim tão original (ok, o Peter Parker tinha exatamente o mesmo problema), apenas o fato dele ter essa visão mais mundana de si próprio já dá uma dinâmica diferente para as histórias, e ajuda a criar uma identificação com um público específico que, muito provavelmente, é aquele mesmo que se interessará por elas em primeiro lugar.

Aos poucos, é claro, Jack reconhece e aceita o papel de herói, à medida em que, mesmo querendo retornar à sua vida cotidiana e pacata, não consegue evitar os seres estranhos que habitam Opal City e arredores, em especial os outros Starmen do passado. Aí, talvez, a leitura possa ficar um pouco decepcionante – mas não por uma falta de qualidade da história, e sim pelo fato de que apenas o primeiro volume da série foi lançado pela editora Panini, e, considerando que há pouco tempo ele estava à venda por R$19,90 no Submarino (ocasião em que eu aproveitei para comprá-lo, visto que originalmente a edição custa mais de 60 reais), não me parece que tenha feito sucesso o bastante para justificar o lançamento dos demais. O que é realmente uma pena; há tanto que este volume insinua e promete, de visitas ao passado a personagens e situações insólitas, que é difícil não terminar ele querendo mais.

A arte de Tony Harris também não faz muito feio. É uma arte em geral mais realista, seguindo a tendência da época de lançamento da série, mas bem executada; algumas expressões e movimentos incomodam um pouco no início, mas ela melhora bastante no decorrer dos capítulos, com o ponto alto sendo a história em que Jack é visitado pelo fantasma do irmão. Os cenários também chamam a atenção, em especial as tomadas panorâmicas de Opal City, que lembram às vezes uma Gotham com alguns tons mais coloridos.

Starman, enfim, é uma série muito interessante, que consegue abordar o tema do super-herói de uma maneira original e criativa, além de bastante contemporânea. Gostaria muito de ter acesso ao restante da saga, e é certamente uma recomendação.

Epifania (2)

A luz que vinha de fora iluminava os vitrais coloridos, tornando ainda mais belas as figuras retratadas. Ao fundo, alguns raios de sol iluminavam o mar de velas ante à réplica da cruz. O silêncio se espalhava como o vento por todos os cantos do aposento; um ar místico quase pagão pairava sobre a igreja naquele momento.

E ele estava lá, sentado, olhando para os vitrais, exatamente como fazia todos os dias naquele horário. Naquele dia em especial, no entanto, um padre sentou ao seu lado.

– São bonitos, não? – perguntou, tentando adivinhar para qual o homem olhava.

– Sem dúvida.

– Reconhece as passagens que eles retratam?

– Não. Não sou religoso. Na verdade, me considero um ateu.

O padre virou o rosto para ele, os olhos abertos em espanto.

– E o que um faz ateu visitar todo dia a casa do Senhor? – o tom da pergunta era de curiosidade mais do que inquisição.

– Posso não acreditar no que o teu Senhor diz, mas sei reconhecer um lugar sagrado quando vejo um. – e olhou o relógio, se despediu do padre, e saiu.

Lá fora, o barulho ensurdecedor dos carros se confundia com a poeira por eles levantada. Pessoas andavam em todas as direções, com passos apressados e o desespero refletido nos olhos. Ele, no entanto, caminhava devagar, com a expressão serena de quem teve uma revelação divina.

Contratação

– Muito bem, fale das suas qualificações. – o homem me olhava friamente enquanto falava, sentado atrás de uma mesa com as mãos juntas descansando sobre ela.

– Bom. – comecei. – Sou formado em história, filosofia e ciências sociais. Especialista em história contemporânea, possuo mestrados em história e ciência política, além de um doutorado recém terminado na Sorbonne, em Paris. Falo fluentemente inglês, espanhol e francês, e em bom nível alemão e italiano. Também leio textos em latim, russo e grego clássico.

Ele tentava parecer impassível enquanto me avaliava, mas, quando terminei de relatar o currículo, já era capaz de discernir alguns sinais discretos de aprovação. Foi nesse dia que me tornei atendente de pizzaria.

Live at Montreux

517GCX5DQWLBueno, como começar a falar de Rory Gallagher? Poderia dizer que tempos atrás eu costumava dizer por aí que acreditava em deus, e o nome dele era Stevie Ray Vaughan; e, bem, o velho Rory me fez rever minha fé. Ou que, segundo reza a lenda, perguntaram certa vez a Jimi Hendrix como ele se sentia sendo o melhor guitarrista do mundo, ao qual ele prontamente respondeu “não sei, você devia perguntar a Rory Gallagher”. Ou então que o som dele não pode ser adequadamente descrito, mas precisa ser ouvido. Ou ainda dezenas de outras frases feitas que, no fim, só servem para mascarar a verdade fundamental: simplesmente não há adjetivo que descreva adequadamente o som que ele fazia, que vai além da simples fruição mundana e adentra fundo nas raízes do espírito roqueiro que existe dentro de qualquer um que já tenha encostado em uma guitarra.

Rory Gallagher, para quem não souber, é um guitarrista irlandês de blues e rock dos anos 70 – pois é, existe música na Irlanda antes do U2, e não estou falando de Van Morrison. E acho que só mesmo essa origem na periferia do rock mundial para explicar porque ele é menos conhecido do que um Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page ou, bem, quem quer que seja; é mais desculpável do que o caso do Wishbone Ash, pelo menos. E mais do que um estilo de guitarra exuberante e absurdo – além de irritante também, vamos admitir, quando paramos para pensar que nunca conseguiremos tocar um centésimo do que ele toca com tamanha naturalidade -, Rory também tinha uma presença de palco impressionante, com aquele magnetismo natural dos grandes artistas e a atitude provocante esperada de qualquer um que honre o rótulo que leva.

E tudo isso é o que se vê nesse DVD duplo com apresentações dele no festival de jazz Montreal desde 1975 até a última antes da sua morte, em 94: um Robert Plant de guitarra, Jimi Hendrix irlandês, Chuck Berry dos anos 70, andando de um lado para o outro com a guitarra na mão, tirando riffs magnéticos e solos absurdos, de Secret Agent a Do You Read Me a Moonchild a todo o resto, acompanhado ainda por uma banda que também esbanja competência e virtuosismo, quase tanto quando ele próprio. Talvez possa se encontrar algum defeito na qualidade da imagem, que realmente não é das melhores nas gravações mais antigas; não só a luz atrapalha como a própria câmera às vezes se perde nos ângulos, ou então foca um dos músicos quando outro está solando em primeiro plano. Mas não é nada que estrague as exuberantes apresentaçãos de Rory, um músico brilhante e roqueiro quintessencial em todos os sentidos.

Enfim, acho que a última coisa que posso dizer sobre Rory Gallagher, e talvez a única que realmente faz jus a tudo o que ele tocava, é: ouça.


Sob um céu de blues...

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