A Torre

Ao se chegar ao pé da imensa torre e olhar para cima, a visão que se tinha não eram menos que magnífica. Dezenas – não, centenas – de andares apontando ameaçadoramente para o céu, suspensos por círculos de colunas simétricas, e ligados por uma única escadaria do chão até o topo. E tão magnífica quanto a visão, talvez ainda mais, era o prêmio que esperava no topo – ou assim, ao menos, imaginava o viajante que chegava da sua longa jornada e observava a esplêndida construção. Tudo o que precisava fazer era subir até lá, e o prêmio seria seu; mas não faria isso hoje, cansado que estava da viagem. Armou uma pequena barraca ao lado da torre, e adormeceu.

Acordou na manhã seguinte, disposto a começar a subida. Comeu um razoável desjejum, realizou alguns exercícios de alongamento, e começou a se preparar para a empreitada, organizando e empacotando seus pertences. No entanto, ao chegar no começo da escadaria, parou mais uma vez para observar a beleza e simetria daquela magnífica construção. Reparou como o sol do meio-dia parecia coroar a torre, enchendo-a de realeza e, alguns até ousariam dizer, divindade; observou como os raios solares pareciam sair do seu topo para dirigir-se ao resto do mundo, como se aquele fosse o centro geográfico do universo; e como cada andar parecia exprimir uma luz própria ao refletir o sol em todas as direções, como se cada um tivesse também a sua miríade de raios luminosos para lançar ao mundo. Paralisado pelo magnetismo da imagem, deixou-se levar pelo tempo. Decidiu, então, armar novamente a barraca e esperar pelo dia seguinte.

Que não tardou a chegar, e ele novamente preparou-se para iniciar a jornada até o topo da torre e o seu prêmio maravilhoso. Desta vez, no entanto, não foi a luz que o impediu, mas a sombra: o sol, batendo na lateral de cada andar, iluminava uma a uma as colunas que o sustentavam, cada uma lançando sua sombra sobre as demais, formando um belo mosaico de claro e escuro com uma expressividade quase artística. Mais uma vez enfeitiçado pela visão, imaginou o que poderia haver lá no topo que superasse essa beleza mágica. Descobriria no dia seguinte, decidiu, após mais uma noite de descanso.

A cada dia que passava, no entanto, continuava a descobrir novos detalhes daquela construção inconcebível. Em um, reparou nos cipós e musgos que se formavam nas paredes, e pareciam seguir um padrão rigorosamente simétrico e cuidadosamente planejado. Em outro, observou os detalhes da escultura das colunas, com padrões ondulados que pareciam se completar na coluna adjacente. Em outro ainda, ao observar a torre à noite, pensou que a lua cheia parecia uma reluzente coroa de cristal no topo da construção, de onde se desprendiam vagalumes que eram as estrelas. E entre os dias, antes de dormir, tentava imaginar a magnitude do tesouro que poderia estar guardado em tão esplendorosa arca. Decidia, então, começar a subida no dia seguinte – apenas para parar novamente ante a beleza opressora que a torre irradiava.

Passaram semanas até que ele finalmente cansou de esperar e se decidiu em definitivo. Desarmou a barraca, guardou seus pertences, e olhou uma última vez para aquela torre magnífica. E então, virando-se para o lado de onde viera, foi embora dali.

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1 Response to “A Torre”


  1. 1 Givoleinesom 05/08/2009 às 18:58

    Não sei porque, mas sempre que penso em torre, imagino Orthanc. E muito antes do filme ser lançado já viajava pelos emaranhado liso e impenetrável da torre negra de Isengard. Acho que eram os desenhos de John Howe…
    Pensei em Orthanc novamente quando li seu texto. E além de Orthanc os campos infindáveis que reodeariam meu ser se eu estivesse em seu topo. Sempre imaginei construir uma torre aos moldes de Orthanc. Na chácara chácara de meu pai que fica num terreno alto, além de curitiba, rumando mais pra oeste… hehehe… Ver as montanhas e o os campos infindáveis ao norte e ao sul do primeiro planalto paranaense. Mas eu lá: ACIMA. NO TOPO…
    Nunca parei pra perceber ou pra admirar a beleza daquelas sombras ou da simple obra daquele terreninho montanhoso no meio do nada. Até que aquilo me causasse repulsa.
    Acho que preciso voltar lá qualquer dia.
    Me deu uma saudade…
    heheheh
    Ótimo texto. Parabéns.


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