Busca Vida

Em algum lugar longe de tudo, muito além da última galáxia, distante mesmo do último grão de poeira dos limites do cosmos conhecido, existe aquela estrela além de todas as outras – a mais brilhante, a mais perfeita, a mais inalcançável; aquela cujo brilho, à parte de ser o maior de todos, nunca chegou a ser visto no universo, tão distante que os fótons se apagam muito antes de se aproximarem. À luz dessa estrela tudo parece mágico e encantador; mesmo a mais opaca das estruturas se converte em um espelho de cristal puro, e até as sombras que ela projeta parecem mais claras, como se brilhassem mais intensamente do que alguns dos sóis mais brilhantes conhecidos.

E, como tantos outros antes, era essa estrela que ele procurava. Não por idealismo, não por necessidade, nem ao menos por tédio, mas, pura e simplesmente, porque era o que sabia fazer: era um caçador de estrelas; sua vida era vagar solitário de mundo em mundo, investigando astros e abatendo supernovas, explorando florestas de nebulosas e enfrentando galáxias dracônicas. E aquela seria a sua última caçada, a viagem derradeira que daria fim à busca incessante que chamava de vida.

O caminho até a mais brilhante das estrelas, no entanto, era só escuridão – um vasto infinito de treva, um deserto tão negro que mesmo a mais escura de todas as noites cósmicas pareceria um dia ensolarado de verão. Um espaço impossível de atravessar, diziam todos; a matéria não resistia à falta de luz, e se desfazia em um nada logo absorvido pela escuridão em volta. Já havia visto acontecer com seu velho cometa galopante, companheiro de tantas viagens e caçadas, o primeiro a desaparecer vítima daquele infinito escurecido.

Mas ele resistia e seguia adiante, se não por coragem apenas porque retornar, agora, significava atravessar uma imensidão igualmente infinita de treva e vazio. Não havia norte que o guiasse: apenas ia para frente, onde quer que a frente fosse, sonhando em ver um único fóton da estrela que chegasse até ele. Até que aconteceu, com um pouco mais de intensidade.

Havia fechado os olhos, pronto para abandonar tudo e se deixar consumir também pela escuridão. Foi quando afinal a viu: a luz maior do que todas as outras, que se expandia pela treva e extinguia as sombras em uma explosão reconfortante de brilho cristalino. E então, se a mínima silhueta de qualquer coisa pudesse ser vista naquele deserto de treva infinita, certamente seria a de um sorriso, que logo se desfez na escuridão.

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