Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

cover-145350-600Os Homens Que Não Amavam As Mulheres é um livro maldito. Literalmente – é um livro demoníaco, fruto do coisa-ruim mesmo. A própria história da sua publicação tem detalhes macabros: Stieg Larsson, o autor, era um influente jornalista político sueco que o escreveu e às suas duas continuações nas horas vagas, como um hobby, e morreu em um infarto fulminante antes de vê-los publicados, quando se transformaram rapidamente em um sucesso estrondoso de público e crítica. Não é de surpreender, portanto, que, uma vez que se comece a lê-lo, ele rapidamente devore a sua alma, e você se veja subitamente colocando-o cada vez mais alto na sua lista de prioridades, empurrando para trás outros assuntos mais urgentes como, por exemplo, o sono.

Trata-se de um suspense policial incrivelmente envolvente, daqueles que te deixam coçando o dedo para virar a página e continuar a leitura a cada fim de capítulo. Pode-se imaginá-lo, em um certo sentido, como uma versão século XXI de Agatha Christie; há todas as convenções do gênero, do crime insolúvel à lista de suspeitos, e o próprio protagonista brinca com a idéia constantemente, dizendo estar envolvido em uma variação do “crime do quarto fechado”. Antes de ser uma falta de originalidade, no entanto, isso é feito com bastante técnica e precisão – o mistério principal do livro é mesmo intrigante, e, por mais que o seu elemento central seja facilmente deduzível ainda nos primeiros capítulos, possui desdobramentos e reviravoltas suficientes para mantê-lo curioso até o fim.

O livro cativa e envolve também por se tratar de uma obra bastante contemporânea, que atualiza o gênero de forma muito eficiente para o século XXI. Os personagens não são caricaturas anacrônicas – pelo contrário, você consegue mesmo imaginá-los hoje em dia, e até comparar alguns dos elementos da sua personalidade e história pessoais com o de figuras reais. O cenário principal é a Suécia, com uma parte da história acontecendo em Estocolmo, mas, em realidade, poderia ser qualquer país capitalista ocidental. E a investigação que guia a narrativa faz uso constante de computadores e toda a tecnologia da informação, colaborando bastante com o ar de contemporaneidade da ambientação.

Para além de ser um bom entretenimento, a série toda também conta com um pano de fundo crítico bastante marcante, como seria de esperar de uma figura influente e controversa como era o autor antes de morrer. Os protagonistas são dotados de um forte espírito crítico, e, em alguns momentos, especialmente nos desdobramentos finais do enredo, têm-se a nítida impressão de que é o próprio Larsson que está falando a partir deles, emitindo seus julgamentos e opiniões pessoais. Entre outras coisas, o livro versa sobre a ética jornalística (e é difícil não lembrar aí do meu ranço com o jornalismo contemporâneo) e a política e economia capitalistas; o seu tema principal, no entanto, é a violência contra as mulheres, como se nota já título do livro, bem como nos dados estatísticos sobre o assunto que abrem cada grupo de capítulos. Constantemente as mulheres da história são vítimas de algum tipo de violência, seja sexual ou mesmo social e política, na forma de preconceito e discriminação, algumas vezes até parecendo um pouco de exagero – por outro lado, é só lembrar alguns casos recentes que foram notícia no mundo todo para perceber que, como diria Mark Twain, por vezes é a própria realidade que é mais inverossímil que a ficção.

Cabe fazer também um pequeno puxão de orelha à edição nacional do livro, bem como às edições que tradicionalmente são publicadas por aqui. Comprei ele na época do lançamento do segundo volume da série, quando este estava em promoção pela metade do preço, numa tentativa óbvia de fisgar leitores também para o segundo livro; se fosse pelo preço normal, provavelmente jamais o teria comprado, ou então o leria em alguma edição pocket importada, que custa aproximadamente o mesmo que eu paguei, mesmo nos períodos de dólar alto. Me interessei pela série e pretendo ler os volumes seguintes, mas não sei bem se estou disposto a pagar o preço completo de cada livro – se não houver uma promoção semelhante quando o terceiro for lançado, provavelmente acabarei lendo as edições importadas mesmo.

De qualquer forma, se você tem qualquer apreço pelo seu tempo livre, seus compromissos e a sua alma de maneira geral, fique longe de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, bem como da série Millenium como um todo. Se, por outro lado, não os está usando para muita coisa mesmo, e gosta de um bom livro de mistério e suspense, é uma forte recomendação.

Anúncios

5 Responses to “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”


  1. 1 georgia aegerter 08/08/2009 às 08:30

    Estou comecando a ler este livro. Este “Os homens que nao amvam as mulheres” é o primeiro entao.

    Como se chamam os outros 2 da série? Você poderia me informar?

    Meu esposo já leu toda a trilogia mas em alemao; ler algo desse gênero que nao seja na minha líbgua nao quis me desafiar, rs.

    Mas meu esposo amou toda a série e nao parava de lê-lo.

    Se você puder me dizer como se chamam os 2 outros da série eu agradeceria.

    Um abraco

    • 2 Atti 25/08/2009 às 12:10

      Adorei os 3 livros do Stieg Larsson, li os tres ainda em inlges, pois nao aguentei esperar que fossen tradusidos para o alemao. Pena que o autor morreu tao cedo, mas foi nossa sorte que ele conseguiu terminar a triologia. Existem outros autores que escrevem neste genero. Os autores escandinavos tem um estilo bem proprio. Ultimamente estou na fase vampiresca. Comecei com Biss e agora estou lendo Os livros 1-12 dos black dagger da J.R. Ward. Neste interim li um monte bons e ruins. Comecei a ler o livro 1808, de quando a corte portuguesa veio morar no rio de janeiro. E muito legal e tenho que rir muitas vezes.

    • 3 raranha 24/12/2009 às 05:07

      A Trilogia Millennium vai ser lançada pela Imagem Filmes aqui no Brasil.

      A distribuidora já marcou a data de estréia do primeiro filme: Os Homens que não Amavam as Mulheres para Março de 2010!!

  2. 4 Bruno 08/08/2009 às 12:37

    Se não me engano, o segundo se chama “A Menina Que Brincava Com Fogo”. O terceiro ainda não foi lançado por aqui, acho que deve sair até o fim do ano…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 196,753 visitas

%d blogueiros gostam disto: