A Caixa

Guardou aquilo na caixa e começou a cavar o terreno deserto onde a enterraria para todo e sempre. Cada fincada da pá na terra infértil era uma dor não nos braços, mas na alma, lembrando cada instante do sofrimento por que passou devido ao conteúdo daquela caixa maldita.

Não possuía mais emprego, perdido à simples visão daquilo por seus empregadores. Demissão por justa causa, sem idenizações, sem cartas de recomendação: apenas a vergonha humilhante que o impedia de reunir forças e buscar uma nova ocupação, por mais distante em espaço, tempo ou objetivo que fosse.

Não possuía mais amigos, um a um perdidos ante a visão aterrorizante que aquilo proporcionava. Não havia companherismo que compreendesse, aceitasse ou mesmo ignorasse a aberração que ele, tremulante e receoso, seguia a enterrar.

Também já não possuía inimigos, amedrontados e acuados por aquela presença aterradora. Fugiam, morriam, esvaneciam-se ante à posse maldita da qual tentava se desfazer.

Não possuía mais família, perdida também ao conteúdo daquela caixa maldita que enterrava com os últimos resquícios de força e determinação de que dispunha. Esposa, filhos, mãe, pai, irmãos: todos o renegaram e recusaram frente à visão perturbadora que ele proporcionava.

Não possuía mais vida, gota a gota drenada do seu corpo por aquilo que agora estava preso na caixa. Restava-lhe pouco mais do que a pele grudada como uma camisa molhada aos seus ossos angulosos e retorcidos.

Não possuía mais sentimentos, um a um expulsos da sua alma pela solidão devastadora causada pela posse daquele conteúdo aberrante. Até a insanidade, o último baluarte a resistir bravamente junto a ele, acabou por deixá-lo por completo, espantada por aquilo que agora era guardado pela pequena caixa de papelão. E pensar que todos falam tanto da esperança, justamente a primeira a abandoná-lo!

Terminou enfim de enterrá-la, suado e tremulante. Fincou a pá na terra e começou a gargalhar enlouquecido, caindo no chão pela força do riso, se contraindo e chorando sem controle. Lágrimas caíam incessantemente sobre o chão, logo absorvidas pela terra morta da paisagem cinzenta.

Alguns dias depois, uma pequena muda verde começou a brotar no local da cova maldita.

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2 Responses to “A Caixa”


  1. 1 Rafaela 12/08/2009 às 11:38

    Que conteúdo do inimigo essa caixa possuía?

  2. 2 Bruno 12/08/2009 às 12:00

    Nem queira saber =P


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