Se um viajante numa noite de inverno

77083Você, feliz proprietário ou locatário de um computador ou outro aparelho qualquer com acesso à internet, sentado à frente da máquina em sua casa, local de trabalho, sala de informática do colégio/faculdade/etc, ou mesmo de uma lan-house, resolve, por algum motivo que só um ser superior e transcendental há de entender, visitar o blog Rodapé do Horizonte, de um certo Bruno Schlatter, que talvez você conheça pela alcunha de BURP – um gaúcho metido, arrogante e egocêntrico que freqüentemente escreve pseudo-contos pretensiosos, poesias idiotas, resenhas mau-humoradas, artigos de RPG e outros textos descartáveis e imbecis. Desta vez, você encontra na página inicial, como última postagem, a resenha de um livro chamado Se um viajante numa noite de inverno, do consagrado autor italiano Italo Calvino, conhecido por sua prosa virtuosa e experimental, freqüentemente buscando formas inovadoras de narrativa, como romances de cavalaria sobre heróis que não existem ou contos de fantasia retirados de enunciados científicos.

Logo de cara, você é surpreendido pela forma como a resenha é apresentada: ao invés de uma simples descrição do livro, destacando enredo, personagens e afins, o texto é escrito como a narração de você fazendo a sua leitura. Já no segundo parágrafo, no entanto, é esclarecida a razão de tal fato; trata-se de uma tentativa, obviamente frustrada, de emular uma das características mais marcantes da obra resenhada, o fato de ela toda ser escrita em segunda pessoa. Sim, isso mesmo: o protagonista da trama estruturada por Calvino é você, o Leitor Comum, que comprou o livro e apenas quer se entreter com ele, acompanhando a sua história até o final, mas, por uma série de circunstâncias diversas, nunca consegue avançar a leitura além do primeiro capítulo de uma trama antes de ser obrigado a começar uma nova, em que, novamente, terá frustrada a sua tentativa de chegar a um cada vez mais mítico e apoteótico Fim da História.

Segundo segue a resenha, é fundamentalmente nesse labirinto de primeiros capítulos, uma dezena de exercícios de estilo e virtuosismo, que consiste a natureza do livro. Cada novo romance inacabado tem uma estética, um tema e um princípio de enredo próprios, desenvolvido apenas até certo ponto e deixando um desfecho incerto para os personagens e situações que habilmente constrói; de certa forma, é como uma tese prática sobre a literatura em tempos de modernidade líquida, de interesses e conteúdos constantemente voláteis e fluidos, ao ponto em que, em algumas edições, chega a fazer parte do livro um pequeno comentário crítico falando dos significados e temas que permeiam a obra e passam facilmente batido ao leitor comum.

E então você, Leitor Comum com orgulho de sê-lo, se pergunta o que pode possivelmente interessá-lo na leitura de um livro que, por tudo isso, parece mais adequado para críticos literários e aquele tipo mais chato e pedante de pseudo-intelectual, como o próprio autor do blog onde a resenha foi publicada. Muito, na verdade; pois, entre cada um dos primeiros capítulos, você se vê às voltas de uma envolvente trama de intriga, paixão, ciúmes e mais, que em nada deve a qualquer bom romance policial. E a frustração sentida a cada novo romance que não tem fim não o deixa se enganar: é você, e não qualquer outro, o protagonista central da trama, que segue atrás de leitoras cativantes, editores enganados, tradutores trambiqueiros e autores reclusos, sempre buscando o tão sonhado Fim da História.

E finalmente, então, depois de passar por todo esse texto pretensioso e pedante, chega o ponto que, se tanto, o fez ler toda essa bobagem, o veredicto final: Se um viajante numa noite de inverno, por seu enredo surreal e narrativa experimental, é uma experiência única e envolvente, praticamente sem paralelo na literatura de ficção. Merece ser experimentado por qualquer um que goste de boa literatura.

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5 Responses to “Se um viajante numa noite de inverno”


  1. 1 Willy Barp 19/08/2009 às 00:29

    ê vc e seus “ítalos”
    kkkk
    Piá, essa semana eu compro ou esse ou o das cosmicômicas!
    vou encomendar pela internet mesmo.
    =D
    Seguinte bruno. To pirando no meu blog tb.
    Se tiver tempo (e vontade) da uma olhada nesse projeto
    http://penanegra.wordpress.com/projeto-poesia-do-imediato/
    Se te agradar a idéia, faz a experiência e manda pra mim…
    sai cada coisa…. aheuihea
    abraço!

  2. 2 Laos Loks 23/08/2009 às 16:44

    Fêladaputacornoviadodesgraçadodanado.

    Fez uma resenha de Calvino e nem me aviso? -.-””’
    grrrrr…grrrrr

    Cara. Muito criativo teu texto. Queria eu ter podido fazer algo assim quando escrevi minha critica sobre ele. Mas é claro que é diferente você fazer algo pra postar no seu site e postar na comunidade acadêmica. Num se pode ter e usar todos recursos estilísticos e criativos tornando o seu texto inteligente, noutro se deve copiar todos os preconceitos estúpidos a fim de tornar o seu texto o mais burro possível.

    E é bem diferente ser o Laos e ser o BURP.

    Parabéns meu amigo. Ótimo texto. Captou perfeitamente o espírito do romance. :)

    Até mais o/


  1. 1 Resenha – Baudolino – Inominattus Trackback em 01/09/2009 às 10:07
  2. 2 Resenha – My Name is Red – Inominattus Trackback em 01/09/2009 às 10:18
  3. 3 As Ciddades Invisíveis « Asas do Corvo Trackback em 29/12/2009 às 13:06

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