!Tchau Radar!

edh_tradarEu sei que vou cair no conceito de um punhado de gente ao admitir isso (também não é como se eu me importasse tanto assim), mas eu sou fã de Engenheiros do Hawaii. Tá certo que a banda já passou por um punhado de fases diferentes, com músicas por vezes tão distintas que é difícil de acreditar serem o mesmo grupo, mas, pelo menos na formação clássica – Gessinger, Licks e Maltz -, eu realmente acho ela uma das mais interessantes e originais – eu chegaria até a dizer a mais interessante e original – bandas de rock brasileiras, pra não dizer uma das poucas com músicas boas o suficiente para sobreviverem aos 20 anos e ainda serem ouvidas sem aquele pensamento chato de “só naquela época eu ouviria algo assim mesmo”. Mas vá lá, talvez seja mesmo algo que escape à compreensão de quem ouve NXZero ou, hum, Detonautas Roque Clube, ou que leve a sério demais as opiniões musicais de gente como Penélope Nova ou quem quer que seja o VJ do momento na MTV.

Além dessa fase mais reverenciada, ainda, há uma outra que eu considero muito acima da média, e que em geral parece ser negligenciada até por alguns fãs: a que se seguiu ao desmanche do grupo com a saída do baterista original Carlos Maltz, formada pelo Humberto Gessinger no baixo e vocais, Luciano Granja nas guitarras, Adal Fonseca na bateria, e Lúcio Dorfman nos teclados. O primeiro disco dessa formação, que saiu sob o nome de Gessinger Trio, na época ainda sem o tecladista, é bem bacana, um rock setentista direto e sem firulas, calcado nos riffs de guitarra e linhas de baixo; e Minuano, o trabalho seguinte, tem uma levada mais pop, com arranjos mais radiofônicos, mas ainda com alguns momentos interessantes. A pérola desse período, no entanto, acredito que seja o terceiro disco, !Tchau Radar!.

Em certo sentido, pode-se dizer que ele seja um disco conceitual, ou algo próximo disso, uma vez que quase todas as músicas possuem temas comuns, como a viagem e a separação. Dentro destes temas, no entanto, são músicas muito bem compostas e arranjadas, longe do experimentalismo de estúdio que marcou o power trio GLM, mas tendendo muitas vezes à MPB (o que quer que ela seja) e ao erudito. É um disco de sonoridade ímpar dentro da carreira do Engenheiros; talvez o mais próximo dele seja o Filmes de Guerra, Canções de Amor, o sublime disco semi-acústico ao vivo de 1993, muito antes da modinha da MTV e com os melhores arranjos que muitas músicas da banda jamais tiveram.

Ele contou com apenas dois hits, Eu Que Não Amo Você e Negro Amor, que são provavelmente os principais sucessos dessa formação. A primeira é uma balada de rock com guitarras distorcidas, pegada pesada e refrão grudento, enquanto a segunda é um cover de It’s All Over Baby Blue, do Bob Dylan, em versão do Caetano Veloso; possuem seus méritos, claro, mas as verdadeiras pérolas do disco estão escondidas entre as músicas que nunca chegaram ao grande público. Concreto e Asfalto, por exemplo, tem uma levada muito gostosa de ouvir, com um ritmo leve sem chegar a ser uma balada. Seguir Viagem é outra pérola sobre a viagem e a solidão, com um arranjo de violões feito sob medida pra se tocar sozinho, pensando na vida e na estrada correndo até a praia; e 3×4 é talvez a grande injustiçada, com uma letra mais intimista e cheia de imagens poéticas, além de um belo arranjo de gaita e violão que foi bastante prejudicado na versão do Acústico MTV – não consigo deixar de pensar que, fosse cantada por um dos medalhões da MPB, como uma Marisa Monte ou Maria Rita da vida, seria sucesso instantâneo, e talvez até tema de novela (bom, não que isso seja um mérito, claro). E encerrando o disco, ainda, temos a inesperada Cruzada, versão de uma música de Tavinho Moura e Márcio Borges, do Clube da Esquina, levada toda por um arranjo de violinos, parecendo quase uma ópera (muito embora as versões de outros artistas em geral ainda sejam bem superiores, na minha opinião).

Enfim, !Tchau Radar! é um trabalho bastante subestimado de uma banda que geralmente também é bem subestimada. Passando por todo preconceito que normalmente se tem contra o grupo e, mesmo entre os fãs dele, contra o disco, é possível encontrar aqui muitas ótimas canções, com algumas das composições mais bonitas que o Humberto Gessinger já escreveu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

  • @NinaHobbit @alvarofritas ...espero que seja nojo no bom sentido (se é que tem um) :P 6 hours ago
  • @anacarolinars Sinta-se velho, veja como estão os irmãos Gallagher hoje em dia... 6 hours ago
  • Fazendo vacinação natural contra gripe (vulgo, peguei). 1 day ago
  • "Governo quer aprovar bolsa prostituição nesta madrugada!!! Repasse para dez pessoas para que os deputados votem NÃO!!!" em uns dez anos. 1 day ago
  • Engraçado a evolução das conrrentes de internet, que foram de "repasse para dez pessoas ou o seu pinto cairá" para 1 day ago

Estatísticas

  • 196,729 visitas

%d blogueiros gostam disto: