Vinte Minutos

Vinte minutos: eis o tempo que tinha livre antes de sair. Não poderia sair mais cedo, ou seria cedo demais; também não poderia sair muito mais tarde, ou se atrasaria. Conferiu uma última vez se estava pronto: roupa, carteira, chaves da casa, passagens de ônibus. Tudo certo.

Sentou no sofá e ligou a TV. Passou por todos os 80 canais por assinatura, e nada. Passou mais uma vez. Nada, de novo. Desligou a TV. Olhou para o teto: branco. Lâmpadas fluorescentes, para economizar energia. Corrimões de madeira nas bordas das portas para a cozinha e os quartos. Também brancos. Folheou mais uma vez o jornal do dia; nenhuma notícia que já não tivesse lido pela manhã. Olhou o relógio: nem cinco minutos haviam passado.

Ligou o computador, conectou à internet e checou os e-mails. Nenhum novo. Passou por meia dúzia de sites de notícias, e nada. Desligou o computador e pegou o celular. Começou a jogar um dos jogos que havia nele; perdeu duas vezes e desistiu. Olhou mais uma vez o relógio: ainda faltavam quase quinze minutos. Tentou se lembrar se não estava esquecendo alguma coisa. Estava vestido, com a carteira, as passagens de ônibus, as chaves de casa… Nada mais lhe vinha à cabeça. Olhou o relógio outra vez: nem um minuto a mais havia passado.

Levantou e foi até a cozinha. Abriu a geladeira, serviu um copo de refrigerante. Tomou devagar, apoiando as costas na pia. Olhou para as paredes: eram de azulejo, diferente das do resto da casa, exceto as do banheiro. Havia meia dúzia de armários de madeira, onde eram guardados pratos, talheres, biscoitos e afins. Virou para o chão, também de azulejo, e pensou em tudo que poderia estar fazendo de útil naquele momento: escrevendo um conto, lendo um livro, vendo um filme. Tudo levaria mais do que os pouco mais de dez minutos que ainda havia antes de sair. Deixou o copo vazio na pia e voltou para a sala.

Sentou outra vez no sofá, o tronco projetado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Olhou o relógio do vídeo: mais de dez minutos, ainda. Virou para a janela: o fiapo de céu atrás dos edifícios estava azul, quase não se via nuvens. Pensou como seria bom se caísse um meteoro gigante e acabasse com tudo de uma vez. Mas não aconteceu; olhou o relógio de novo: ainda teimava em não chegar na marca dos dez minutos.

Pegou o violão e dedilhou alguns acordes. Não havia inspiração para tocar. Levantou e caminhou até um ponto qualquer da sala; caminhou de volta e sentou mais uma vez no sofá. Ligou a TV, e passou outra vez pelos 80 canais por assinatura: outra vez nada. Não passou por eles de novo; desligou a TV e olhou mais uma vez o relógio: agora faltavam menos de dez minutos.

Desistiu de esperar mais, e saiu de casa.

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