My Name Is Red

n121080My Name Is Red (ou Meu Nome É Vermelho, na edição nacional da Cia. das Letras) é um livro do escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 2006. É, em um primeiro momento, um misto de romance histórico e mistério policial, sendo ambientado na Istambul no fim do século XVI, onde um miniaturista produzindo um livro secreto para o sultão é assassinado e um certo personagem é chamado para resolver o caso. Como freqüentemente ocorre nos grandes romances, no entanto, seria injusto reduzi-lo a isto; o mistério, no fim, é apenas o pano de fundo para que o autor desenvolva uma obra bastante particular, com um virtuosismo narrativo único e um interessante trabalho de reconstrução histórica e imaginação.

O primeiro ponto a se destacar é, certamente, o excelente trabalho feito na narração da história. Todos os capítulos são escritos em primeira pessoa, com os personagens falando diretamente ao leitor, em um tom quase casual, como uma conversa; e cada capítulo é narrado ainda por um personagem diferente. Isso o mantém sempre alerta e desconfiado sobre aquilo que lê – cada narrador, é claro, tenta se colocar em uma luz benéfica e destacar a sua importância e caráter, e freqüentemente o que era dado como certo por um é desmentido logo no capítulo seguinte por outro; muitas vezes, ainda, os próprios personagens admitem que estão mentindo, ou que preferem não revelar tudo o que sabem. Mesmo o assassino tem os seus momentos no centro da ação, tentando se explicar e justificar o que fez, sem revelar abertamente a identidade até os capítulos finais.

Essa narração em primeira pessoa também faz com que muitas vezes algum elemento fantástico esteja presente, de algumas formas bastante inusitadas. O primeiro capítulo, por exemplo, é narrado pelo corpo do miniaturista assassinado, atirado no fundo de um poço e clamando por justiça contra o crime que sofreu; e mais adiante, quando outro personagem é morto, ele próprio retorna para narrar o seu funeral e a subida ao paraíso. Outros capítulos são narrados ainda por desenhos, a partir de um contador de histórias que assume o papel de um cachorro, um cavalo, uma árvore, uma moeda, e até a cor vermelha, para assim revelar os seus pontos de vista e contar algumas fábulas sobre a pintura no mundo árabe.

E é justamente a pintura o tema central do livro, que de alguma forma se faz presente durante toda a trama. Não só a primeira vítima é um miniaturista trabalhando em um livro secreto, como os principais suspeitos do crime são os outros três artistas que trabalhavam nele; a solução do crime, assim, passa pela análise da obra de cada um, bem como a visão que possuem sobre a pintura e o mundo da arte. Isso serve de pretexto para que Pamuk discorra em longos devaneios sobre a natureza da arte árabe medieval, recorrendo a fábulas curiosas sobre estilo, assinatura e até a cegueira dos artistas. Outro elemento importante nessa discussão é a comparação entre a arte árabe e a ocidental, que vivia naquele período um dos seus principais momentos, já na fase mais tardia do Renascimento, e que serve de pretexto para que sejam feitas algumas reflexões sobre as relações históricas entre o oriente e o ocidente.

Tudo se completa, é claro, com o cenário rico e exuberante que é a Istambul do século XVI, vividamente descrita em suas ruas, habitantes e personagens. Ao menos para um leitor ocidental, ela parece distante e exótica o suficiente para manter um certo ar de magia e fantasia mesmo nos seus momentos mais mundanos, em pouco ou nada devendo às cidades fictícias de um China Miéville ou Neil Gaiman.

My Name Is Red, enfim, é um livro único, que, pela sua narrativa inusitada e tom próximo ao fantástico, oferece uma experiência de leitura envolvente e cativante. Nesse sentido, acho que a única obra que eu consigo pensar para compará-lo seja Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino, apesar dos seus temas centrais serem bastante diferentes; e talvez também, pela maior proximidade na ambientação, Baudolino, do Umberto Eco. Recomendo enormemente.

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3 Responses to “My Name Is Red”


  1. 2 Willy Barp 30/08/2009 às 20:18

    Tá anotado esse também!
    VISH! minha lista de livros só aumeeeeeenta!
    aheuieahiea
    Abraço.


  1. 1 Wizard of the Crow | Rodapé do Horizonte Trackback em 25/10/2015 às 19:29

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