Outra História de Amor

Foram anos até que Rômulo e Júlia, afinal, se encontrassem naquela situação. Conheciam-se desde o colégio, quando foram colegas de classe – ele se apaixonou à primeira vista logo que a viu entrando na sala de aula, a pele morena emoldurando como um quadro os olhos verdes de esmeraldas; ela, ao contrário, sequer notava sua existência, preocupada com sua própria bolha de relacionamentos, dentro da qual ele não estava. Anos de platonismos e embaraços se seguiram, deixando para trás poemas rasgados, constrangimentos, sonhos diurnos e desencantos. Separaram-se, enfim, sem nunca estarem realmente juntos; seguiram cada um o seu rumo após a formatura, em direção à faculdade e à vida adulta.

Mas se encontraram de novo, casualmente, de vez em quando, aqui e ali – um cumprimento rápido na fila do cinema, um abraço e um beijo na festa do fim de semana, uma curta troca de olhares na reunião da velha turma. Ela mal se lembrava daquele garoto estranho que a observava em cada gesto durante as aulas; ele buscava esquecê-la, mas algumas vezes, entre namoros acabados e madrugadas solitárias, ainda a via em devaneios e pensamentos.

Até que se encontraram em definitivo, e juntaram de fato suas vidas: eram agora vizinhos, e logo amigos e companheiros. Se encontravam e conversavam, dividiam baladas e problemas. Para ela, era ótimo conviver com alguém de um passado tão distante, mas ao mesmo tempo em uma amizade tão nova; para ele, era interessante tê-la novamente por perto, ao mesmo tempo em que afinal a superava. De amigos logo viraram melhores amigos; e de melhores amigos, parceiros e irmãos.

Estavam agora mais próximos do que jamais estiveram, e, de alguma forma, ainda tão distantes. Mas não poderia ser assim para sempre; a cada fim de semana que dividiam, a cada filme que assistiam a sós, a cada ressaca que superavam, entravam mais na vida um do outro, e construíam suas memórias em conjunto. Adiante estava apenas um passo, que não tardaria a ser dado.

Aconteceu naquela noite fria, em que Júlia brigara com o namorado e Rômulo, como era comum, a consolava. Foi quando, entre lágrimas e taças de vinho, sentados no sofá da sala, trocaram o olhar derradeiro: ela em um único instante lembrou de todos aqueles olhares na sua direção desde os tempos de colégio, e finalmente, após tanto tempo, pareceu entendê-los; ele no mesmo instante viu renascer, em uma explosão espontânea e violenta, todo o sentimento que julgava ter superado, mas agora descobria estar apenas adormecido. Os olhos se fixaram, e os rostos se moveram sozinhos, pegos subitamente em um campo magnético irresistível, se aproximando vagarosamente até os primeiros átomos dos seus lábios começarem a trocar elétrons…

E então, quilômetros distante, em um laboratório subterrâneo na fronteira entre França e Suíça, o maior acelerador de partículas do mundo foi posto para funcionar pela primeira vez, fazendo se chocarem a velocidades impensáveis partículas subatômicas que, como resultado, em uma série de reações quânticas imprevisíveis, originaram um pequeno buraco negro, que aumentou rapidamente com a absorção de partículas próximas até se tornar grande o bastante para engolir todo o laboratório, e então a região, o país, o continente e o planeta, levando juntos para o vazio Rômulo, Júlia e o beijo que nunca chegariam a completar.

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