O Crânio e O Corvo

lit-ceoc_gO Crânio e O Corvo é o segundo romance ambientado no cenário de Tormenta – mas quem realmente se interessar pelo livro provavelmente já sabia disso, não? É uma continuação mais do que apenas espiritual de O Inimigo do Mundo, o romance anterior, dando continuidade aos eventos nele relatados, com a tempestade profana que dá nome ao cenário se espalhando, corrompendo e contaminando todo o mundo conhecido, além de trazer de volta muitos dos personagens que tomaram parte neles então, ainda que os principais protagonistas sejam, aqui, novos (ou quase novos, mas não vou estragar a surpresa final sobre um dos personagens que dá título ao livro).

Bueno, o livro faz o possível para poder ser lido sem a necessidade do anterior, ou mesmo de qualquer conhecimento sobre Tormenta ou cenários fantásticos de RPG em geral – tudo o que há de importante para entendê-lo é cuidadosamente explicado, sempre que necessário, durante a própria narrativa -, mas é impossível pra mim fazer uma análise dele sem me desvincular do fato de que eu conheço o cenário desde algum tempo já, vi muito da evolução pela qual ele passou desde que foi oficialmente concebido, e de que li o livro anterior; é difícil não comparar os dois, de uma forma ou de outra. Então nem vou tentar fugir disso, e já vou começar dizendo: O Crânio e O Corvo é muito melhor que O Inimigo do Mundo. Muito mesmo. Não que o outro fosse ruim, claro, bem pelo contrário; mas O Crânio e o Corvo consegue pegar boa parte daquilo que ele tinha de bom, superar alguns dos defeitos, e ainda trazer coisas novas que adicionam muito ao resultado final.

Primeiro, ele é muito mais drástico na relação dos acontecimentos narrados com o cenário. Não há tanto aquele medo de mudar e avançar as situações dos lugares e personagens principais de Tormenta, que havia em O Inimigo do Mundo por questões editoriais e por se passar no que seria o “passado” em relação à situação corrente do cenário. O Crânio e O Corvo é uma história do presente, e as coisas que acontecem nele alteram radicalmente muito do que já havia sido estabelecido anteriormente – e não pouca coisa também, mas alterando seriamente o status quo de reinos e organizações de relativo destaque. Mas, claro, isso é algo que já era um pouco previsível, e até anunciado em certo nível.

Vamos falar de algumas coisas novas, então, como alguns dos vícios do livro anterior da qual este se livrou. Há menos comentários em parênteses, por exemplo, apesar de ainda aparecerem vez por outra. Os capítulos são menores, o que torna a leitura mais fácil, e o livro é consideravelmente maior. E também não há tanto no enredo aquela síndrome de Final Fantasy – qual seja, a velha história de juntar um grupo de heróis aleatórios e se limitar a jogar eles de canto a canto do mundo por conta de uma missão esdrúxula qualquer, tentando fingir deslumbramento a cada nova localidade fantástica encontrada (e não que isso seja exclusivo ou mesmo originário de Final Fantasy, claro, antes que alguém faça questão de mencionar). A trama aqui é mais ampla e complexa: há vários focos de personagens que se encontram e se relacionam em diversos pontos, formando o enredo maior da história; e a ação tende a se focar em alguns aspectos, em especial a movimentação do exército de simbiontes da Tormenta e os dramas de um certo cavaleiro e seu círculo de relações, ainda que também haja, para alguns mais do que outros, um tanto de viagens episódicas e tentativas de deslumbramento com a descrição de locais fantásticos. Só na parte final que ela perde um pouco o ritmo, e se extende demais em alguns enredos secundários justamente quando se está mais curioso com o desenrolar da trama principal (ou, pelo menos, é o que aconteceu comigo); mas, uma vez que retoma o foco, haja fôlego para acompanhar! O desfecho, mesmo deixando muito em aberto para a inevitável continuação (todos sabem que romances de fantasia baseados em jogos de RPG vêm em trilogias), é dramático e épico, e não poucas vezes bastante inesperado para quem conhece algo mais do cenário.

Outra diferença marcante – e positiva – está na concepção dos personagens. O Inimigo do Mundo apresentava um grupo um tanto mais tradicional de heróis de fantasia – havia, claro, um minotauro, um samurai, um paladino que sempre voltava da morte, e mesmo os demais passavam longe do estereótipo e do clichê; mas todos ainda estavam dentro de alguns conceitos típicos: o guerreiro corajoso, o mago frágil, o ladrão esperto, etc. O Crânio e O Corvo aposta em personagens mais exóticos, com características menos genéricas e mais ligadas aos diferenciais de Tormenta enquanto cenário de RPG – coisas como um anão pistoleiro ou um médico ateu (que, aliás, formam a melhor dupla de personagens do livro, ou pelo menos a mais divertida), ou ainda um druida centauro alcoólatra, que bem podia ser um personagem de campanha meu (e quem já jogou mais do que algumas sessões comigo certamente vai saber dizer o porquê); há até um personagem nativo de Moreania, o cenário afiliado descrito nos primeiros números da revista DragonSlayer. E sempre, é claro, com aquele que já era um dos pontos positivos do livro anterior – personagens vívidos e bem construídos, com motivações, virtudes e defeitos próprios, que sustentam e levam adiante a história contada através das suas relações e envolvimentos, sem precisar de alguma força invisível ao leitor guiando seus passos (ainda que os próprios personagens, por vezes, acreditem nisso).

Outro aspecto interessante da história que não nos deixa enganar sobre estarmos em Arton é a presença maciça de simbiontes, especialmente bioarmaduras, os mais conhecidos do cenário; há um exército inteiro deles. E, especialmente no início, cada vez que um era descrito, com suas carapaças insteóides, antenas e redomas oculares multi-focais, eu não conseguia pensar em outra imagem que não a de um Kamen Rider, mesmo me esforçando para imaginar alguma coisa mais grotesca, talvez algo parecido com o filme A Mosca, sei lá. Não que eu queira criticar o fato, muito pelo contrário – eles estão muito bem caracterizados dentro da sua proposta, e têm um papel central e bem encaixado no enredo do livro. Apenas acho um dado interessante a destacar, especialmente para aqueles que insistem em denfender uma classificação genérica de anime/mangá que vá além de um apelo visual específico de algumas imagens. Pois, vejam só, basta trocar estas imagens por narrativa em prosa de tendências sádicas/escatológicas, colocar uma capa do Evandro Gregório (ou Greg Tochini, tanto faz), e até Kamen Rider parece ser outra coisa, ou pelo menos não faltam, certamente, os que defendem essa tese, como já acontece desde O Inimigo do Mundo. E, por favor, vômito e tripas à mostra também têm aos montes em Evangelion!

Mas enfim. Dentre as características que se mantiveram, temos essa tendência ao sadismo e à escatologia, que o próprio Leonel Caldela admite ser uma das marcas do seu estilo. Vômito, tripas à mostra, urina, pilhas de excremento, palavrões nem um pouco contidos ditos com mais do que alguma freqüência – a fantasia de O Crânio e o Corvo é suja e enojante, como já era a d’O Inimigo do Mundo, e nem um pouco inocente ou juvenil, como a de Holy Avenger. Antes de ser um demérito, no entanto, essa é uma característica que se presta muito bem para tratar de um tema como a Tormenta, que dá nome ao cenário e é um dos elementos principais do livro, dando um vigor descritivo ao horror que ela causa que seria difícil de conseguir de outra forma.

No mais, pode-se esperar tudo o que se esperaria de uma grande história épica de fantasia. Há aquela moralidade preto no branco típica, com alguma constância de tons de cinza, apesar de os verdadeiros vilões serem de uma cor totalmente diferente, provavelmente vermelho (e eu sempre disse que vermelho era coisa ruim). Há ação, muita ação, como um grande blockbuster cinematográfico de aventura cheio de efeitos especiais – algumas cenas de ação quase parecem saídas de um videogame, é possível até se imaginar apertando os botões, e é claro que eu digo isso de forma positiva, como gamemaníaco assumido que sou. Há magia também, embora ela não seja tão freqüente, mas contando com algumas ótimas descrições, como a sufocante sensação de ser pego em um feitiço de paralisia. Há combates épicos de grandes proporções, com generais exaltados discursando para suas tropas sobre defender valores maiores que a vida. E há também um punhado de referências diversas aqui e ali que vão causar alguns sorrisos simpáticos durante a leitura, sem dúvida (Um Certo General Orion? Hum, sei… Mas quem tem faca na bota mesmo é o povo de Namalkah, aparentemente). Uma vez que se comece a ler, é difícil parar e largar o livro para fazer outra coisa; ele realmente prende a atenção. Não vejo como alguém que goste de Tormenta ficaria menos do que embasbacado com O Crânio e o Corvo, e possivelmente ele vai ser capaz de agradar a muitos que não gostem também; acho que até alguns daqueles que se esforçam em odiar o cenário (por mais cansativo e trabalhoso que seja odiar qualquer coisa), mas ainda assim gostam de épicos de aventura e fantasia, podem achar coisas legais, nem que apenas pontualmente. E quem não gosta de nada disso, bem, que vá ler sobre pipas no Afeganistão então.

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