Reino dos Malditos

236894_999A história não é nem um pouco original: a criança solitária, sem amigos e/ou reprimida pela família, escapa de uma realidade que não lhe é agradável fugindo para um mundo de imaginação e fantasia, onde encontra seres maravilhosos e vive aventuras fabulosas. Sim, sim; você já viu isso em A História Sem Fim, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia, O Labirinto do Fauno (ainda que neste o tom seja um tanto mais sombrio e pesado), e outros tantos clássicos da Sessão da Tarde. O fato de ser uma história tão contada e recontada, no entanto, não é necessariamente um demérito – é, antes disso, um indicativo de que ela tem alguma coisa de verdadeira e significativa para dizer, a alguém mais do que apenas umas poucas pessoas. E Reino dos Malditos, apesar de partir de uma premissa semelhante, tem ainda uma diferença fundamental: é um adulto, e não uma criança, quem escapa para o tal mundo de imaginação e fantasia.

Conheça, então, Chris Grahame, autor de histórias infantis e novo fenômeno do mundo editoral, apontado como o sucessor de J. K. Rowling e disputado a tapas pelos grandes estúdios de cinema e animação. No meio de todo esse sucesso, no entanto, alguma coisa está errada, e Grahame começa a sofrer de constantes dores de cabeça e desmaios. Frutos do estresse, segundo seu médico; a realidade, porém, é um pouco mais sinistra, e começa a se revelar quando Chris, em meio a um desses desmaios, volta a visitar o mundo fantástico de Castroalva, que criou em histórias que escrevia quando ainda era aquela criança solitária de imaginação fértil. Algo aconteceu por lá enquanto ele crescia, e o que era antes um mundo alegre e colorido deu lugar a um sangrento e sombrio campo de batalha, dominado por um ditador cruel e autoritário.

Se a idéia parece genial, não se pode dizer a mesma coisa sobre a execução. A arte é estranha, com um traço feio e inconstante, de faces angulosas e olhos que parecem estar sempre fechados; salva-se o trabalho de colorização, que mostra o mundo imaginado por Chris bastante vívido e colorido no passado, e sombrio e cinzento no presente. O ritmo da história também deixa um pouco a desejar – algumas cenas, como a fuga do mugwomp canibal, parecem ter sido pensadas como se a obra fosse um filme, e realmente ficariam ótimas em um; no entanto, na narrativa em quadrinhos, elas simplesmente não conseguem criar a mesma tensão e suspense que claramente tentam evocar. Com isso, muito da óbvia metáfora que a história propõe acaba se perdendo e não sendo tão bem aproveitada como poderia.

Apesar de um tanto falha, no entanto, a execução também não chega a ser tão ruim a ponto de estragar a história que conta, que é bem interessante – uma fábula adulta com moral que não soa enfadonha ou absurda, e alguma base na psicanálise moderna. Apenas o final sai um pouco do tom, caindo em uma ficção científica bizarra que tenta justificar fisicamente o que até então era apresentado como psicológico, mas também não chega a estragar tudo o que foi construído até ali. Foi, enfim, uma leitura que apreciei, e acredito que valha a pena ser feita por qualquer fã de fantasia, contos de fadas ou histórias criativas, apesar dos poréns apontados.

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4 Responses to “Reino dos Malditos”


  1. 1 Fred 27/09/2009 às 20:11

    De fato, parece com enredos de A História Sem Fim, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia, O Labirinto do Fauno, e outros tantos clássicos da Sessão da Tarde… Mas bem melhor!

    Se por um lado revisitamos o lugar comum, logo se desponta para um caminho que nunca vi explorado em outras obras de ficção. Sem querer desmerecer as outras fantasias aqui citadas, mas o Reino dos Malditos passa bem longe e com brilhantismo às demais. A sombra é tão grandes quanto aquelas debaixo da coxa de retalho do próprio livro…

    O drama está lá a todo momento. E realmente não é uma criança imatura que sofre por não se encontrar no nosso mundo, mas sim o protagonista. Um adulto, escritor de livros de fantasias, o que me faz mesmo pensar se aquilo não se aproxima até demais da realidade. Quando temos por fim a desmistificação dos sonhos é que, com uma ligeira fuga do esperado, somos levados a imaginar qual realidade que não está distorcida e precisa de melhoras?

    A arte, o recurso mais lúdico para se contar uma hq acompanha com exatidão os momentos em que de nada adianta esperar por ursinhos fofinhos do outro mundo, ou generais-cachorros tomando chá às cinco, como se eles correspondesse ao de nossos sonhos e não do Chris.

    Um livro recomendado não por expor aos mais sedentos por outras obras onde você possa passar os olhos bem atentos e “pegar” as idéias, mas sim por propor uma certa mudança em nossos ideias.


  1. 1 The Magicians: A Novel « Rodapé do Horizonte Trackback em 22/11/2009 às 21:58
  2. 2 literatura em foco » Blog Archive » The Magicians: A Novel Trackback em 16/12/2009 às 02:18
  3. 3 O Inescrito « Rodapé do Horizonte Trackback em 22/12/2012 às 22:36

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