A Vida de Billy

Billy trabalhava no grande prédio do relógio no centro da cidade. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, era sua função fazê-lo funcionar, girando com os dentes sorridentes entrelaçados aos dos colegas, num ritmo constante que mantinha os habitantes locais seguros em relação à hora certa. Sim, Billy era uma engrenagem muito eficiente e feliz, e assim o foi por muito tempo desde que fora encaixado na grande máquina.

Tudo mudou, no entanto, quando, certo dia, em uma de suas voltas incessantes, ao virar para cima, Billy reparou no grande cuco de madeira recém instalado no relógio. Foi quando pela primeira vez a viu: Clarabela, uma das novas engrenagens, girando ao meio-dia para avisar a chegada do horário de almoço aos moradores da cidade. E como era bela, a Clarabela! Os parafusos de Billy brilhavam a cada volta que dava, tão límpida e graciosa ao girar como um anjo bailarino no alto da torre, enquanto ele permanecia lá embaixo, preso ao seu velho mecanismo sujo e gasto.

Os dias seguintes passaram num misto de êxtase e antecipação. Aguardava ansioso por cada oportunidade que tinha de ver Clarabela; cronometrava as voltas que realizava, contando os segundos para saber quando a encontraria, movendo o cuco no alto da torre. As outras engrenagens riam e debochavam da sua paixão distante, mas Billy pouco se importava – apenas vê-la e imaginá-la e sonhar com ela já bastava ao seu humilde coração em rotação.

Mas os giros de Billy não eram sincrônicos aos de Clarabela, e logo veio o dia em que não podia mais vê-la. Sempre que ela se movia para fazer funcionar o cuco, ele estava virado para outro lado, ou com uma engrenagem em um nível superior bloqueando a visão. Seguiram-se, assim, dias tortuosos: há muito já se acostumara a esperar apenas algumas horas pelo raio de luz que fazia a vida valer a pena; agora, seriam semanas até que suas voltas sincronizassem novamente. Começou a acelerar os movimentos, girando mais rápido que os colegas, apressando também o seu próximo encontro; o seu esforço logo adiantou o relógio da torre em quase uma hora, chamando a atenção dos funcionários da prefeitura.

“Viu o que você fez?”, disseram os colegas após a primeira inspeção dos técnicos, “agora eles irão trocar a todos nós!” Billy entrou em desespero ao perceber o fato – não poderiam levá-lo para longe de Clarabela; não se deixaria levar. Naquela mesma noite, se soltou do parafuso que o mantinha preso ao mecanismo do relógio, e iniciou a grande escalada em direção ao Éden angelical onde vivia sua musa.

Subiu sobre uma engrenagem, e duas, e três, em cada uma ouvindo reclamações sobre aquela jornada insana tão claramente fadada ao fracasso. Mas que importava para ele? Apenas se agarrava com todas as forças à esperança tremulante de estar junto de Clarabela, fosse pela eternidade com que sonhava, ou pelo mísero segundo que já valeria todo o esforço empreendido.

Subiu mais uma, duas, três engrenagens. Apenas mais algumas e atingiria seu objetivo; quase podia sentir um coração mecânico batendo dentro de si a cada volta que dava. Mas não contava com o mau-humor – ou a inveja? – de uma engrenagem dos níveis superiores, que, ao senti-lo passar, se deixou girar e o fez perder o equilíbrio, atirando-o ao chão.

Billy caiu ao nível mais baixo da torre, estático e arrasado. No dia seguinte, os funcionários do relógio o encontraram e o jogaram no entulho nos fundos do prédio, junto com as outras peças velhas que trocaram.

Anúncios

0 Responses to “A Vida de Billy”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 197,163 visitas

%d blogueiros gostam disto: