Arquivo para outubro \31\UTC 2009

Gostosuras ou Travessuras?

– Travessuras! – disse o velho em tom de bravata, o mau-humor quase brilhante emanando dos olhos.

Os dois garotos e a menina fantasiados sorriram maliciosamente, trocando olhares entre si. A partir daí, foram duas horas até a chegada dos bombeiros.

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O Show

O público vai à loucura quando ele sobe ao palco – vibra, grita, chora, desmaia! Ele gosta; reprime a própria vaidade, mas não consegue deixar de se orgulhar. Começa a primeira música: todos cantam juntos, os braços levantados batendo palmas no ritmo dos instrumentos. Emenda outras duas canções em seguida; o público grita ainda mais alto quando percebe os acordes que iniciam cada uma. Então ele pára, e começa a conversar: “como estão vocês?”, pergunta; a resposta é outro berro alucinado. “Espero que gostem da próxima música”, completa, e segue a apresentação, levando os fãs vão ao delírio, e novamente nas músicas seguintes. Há um set acústico: quase todo o público acende celulares e isqueiros, criando um mar de vagalumes dançantes na escuridão. Voltam os arranjos elétricos, para novo deleite generalizado. Mais algumas músicas, e o show termina: o público pede bis, e é atendido; e ainda uma segunda e uma terceira vez. E apenas então, finalmente, é hora de encerrar a noite – ele larga o violão ao lado da cama, se vira, e dorme.

Haicai Urbano (2)

De trás das grades da janela,
Eu olho as belas flores
Que crescem no asfalto.

Uma História de Deus

21312747_4É sempre polêmico falar de religião e religiosidade, ainda mais em tempos de avanços científicos e questionamentos éticos e morais que parecem colocá-los sempre em embate com a ciência e o espírito modernos – é muito fácil cair em algum tipo de extremismo, seja o fundamentalismo religioso, que nega qualquer tipo de teoria ou prova científica, ou então um certo tipo de fundamentalismo ateu, que não só nega a religião como ainda tenta desconsiderá-la e desmerecê-la por completo, ignorando que a sua função nunca foi a de apenas explicar o mundo. Por outro lado, é difícil achar algum tipo de meio-termo, não necessariamente de conteúdo, mas principalmente de abordagem; não falo de conciliar os dois lados do embate, mas simplesmente de entendê-los e respeitá-los simultaneamente. Pra mim, o caso mais emblemático que consegue esse feito é o de Joseph Campbell, que estudou a história das mitologias e da religião de um ponto de vista assumidamente ateu, mas nem por isso desprovido de espiritualidade; alguns mais religiosos que lêem sua obra chegam mesmo a dizer que ela foi capaz de reforçar e desenvolver sua fé ao invés de negá-la, como relatou Bill Moyers na famosa entrevista que deu origem ao livro e à série O Poder do Mito.

Karen Armostrong é outra estudiosa que segue pelo mesmo caminho, em grande medida influenciada pelo trabalho de Campbell. Essa abordagem é bem visível em Uma História de Deus, trabalho de pesquisa histórica em que ela analisa o desenvolvimento da idéia e do conceito de Deus nas três grandes religiões monoteístas, a partir de um estudo crítico e detalhado não só da Bíblia e do Corão, mas também das idéias e trabalhos dos grandes pensadores e teólogos judeus, cristãos e muçulmanos de diversas épocas. Desde o Deus-Céu dos povos primitivos até a anunciada morte de Deus no século XIX e ainda hoje, ela evidencia e avalia as diversas modificações e metamorfoses por que o conceito e a visão de Deus passou, constantemente se reinventando e adaptando a necessidades históricas bem mais mundanas do que alguns esperariam; como ela própria diz freqüentemente, uma idéia religiosa, para ter sucesso, precisa, antes de mais nada, funcionar para seus devotos em um determinado momento. E ainda que a sua própria visão da religiosidade fique bastante clara já na introdução da obra, em que relata as razões e o desencanto que a levaram a abandonar o convento onde estudava para se tornar freira, ela em momento algum chega a desprezar a visão religiosa – ao contrário, entendendo e tentando deixar claro que não se trata tanto de um capricho, mas sim de uma necessidade básica do homem, respeita esse culto ao espírito presente nas religiões corretamente concebidas, ainda que não deixe de criticá-las quando lhe parecem não cumprir adequadamente estas necessidades.

Enfim, a obra de Armstrong (e não só este livro), como a de Campbell, é fundamental para qualquer um que queira entender a lógica e o funcionamento do pensamento religioso, sem necessariamente desmerecê-lo. No fim, o grande questionamento que fica não é tanto se há um papel para a religião e a religiosidade no mundo moderno, mas sim que formas ela pode assumir para cumprir o seu papel social e, principalmente, psicológico no homem moderno, sem entrar em conflito com um pensamento científico que, por mais lógico, racional e irrefutável que pareça a muita gente, não consegue satisfazer plenamente a estas necessidades.

Seis da Manhã

Não existe horário mais ilustrativo da condição humana do que as seis da manhã. É tarde demais para continuar a noite, mas também cedo demais para começar o dia; fica precisamente nesse vácuo cotidiano, aquele período entre os dias, nem mais ontem, nem ainda hoje. É aquele momento onírico, quase mágico, em que toda a humanidade compartilha a mesma condição de existência, a mesma sonolência e inércia que os move tediosamente até a hora seguinte.

Pois ninguém que está acordado e ativo às seis da manhã deseja estar. É o ponto de encontro dos boêmios e dos trabalhadores, seja em casa ou na rua; o fim das noitadas épicas, o início das jornadas diárias para ganhar o pão. Todos reunidos na mesma vontade: a ânsia de estar em outro lugar, viajando em mundos de imaginação e fantasia criados pelo sono, longe da dura realidade cotidiana. E é isso que os une, que os transforma nessa comunidade livre de preconceito e discriminação. Todos são irmãos às seis da manhã, e trocam seus olhares silenciosos de reconhecimento à desgraça que compartilham.

Mas, àqueles que perdem suas seis da manhã nas horas de sono e sonhos que os demais gostariam de ter, sinto pena de vocês! Podem se imaginar satisfeitos e abençoados, mas no fim, felizes que acreditem estar, perdem a experiência desse algo maior, dessa epifania. Não me surpreenderia em descobrir que os maiores avanços da humanidade tivessem saído de pensamentos perdidos nesse horário, enquanto se espera o ônibus para a escola passar; e realmente duvido que qualquer tipo de mal verdadeiro e intencional possa ser praticado antes das sete.

Seis da manhã é, enfim, um horário mágico, único na grade de horas que constróem o dia. Outros horários podem ser mais felizes, mais trágicos, mais produtivos; mas nenhum deles chega sequer perto de compartilhar do mesmo simbolismo e poesia que as seis da manhã possui.

O Risco

Havia um risco na parede. Uma linha reta, horizontal, de poucos centímetros, cerca de dois metros acima do chão; nunca havia reparado. Quem teria feito? Teria sido ele? Ou já estava lá antes, mas apenas não o havia visto?

Virou para o lado, fechou os olhos. Abriu: o risco continuava lá. Mesma altura, mesmo tamanho, mesmo formato. O que achou que ia acontecer? Que ele ia desaparecer? Virou para o outro lado.

Virou de volta, rapidamente, como para pegar alguém de surpresa: o risco continuava lá. Agora já estava sendo ridículo; era melhor deitar e dormir de uma vez. Se acomodou, virou de lado outra vez, começou a fechar os olhos vagarosamente.

Se mexeu! O risco se mexeu! Andou um pouco para o lado, uma distância de milímetros, imperceptível. Ou teria sido a imaginação? Uma ilusão de ótica, as luzes da rua penetrando pelas frestas da janela; deve ter sido isso. Ele continuava lá, no mesmo lugar, e qualquer medição minuciosa com uma régua revelaria exatamente isso.

Medir o risco na parede com uma régua? No que estava pensando? Estava sendo ridículo de novo. Piscou os olhos algumas vezes, balançou a cabeça, soltou um suspiro.

O risco mexeu de novo! Ou não? Olhando com toda atenção que podia daquela distância, ainda parecia estar no mesmo lugar. Estaria ficando louco?

Não, não estava; era o sono, apenas isso. O sono enganando os olhos, pregando peças no cérebro. Mesmo que o risco se movesse, qual era o problema? Talvez fosse só uma fileira de formigas pequenas confabulando antes de retornar ao formigueiro, ou alguma larva inofensiva de outro tipo qualquer de inseto. Que mal poderia causar, um risco de poucos centímetros na parede?

Virou para o lado outra vez, se parabenizando por tanta imaginação, fechou os olhos, e dormiu.

Nunca mais acordou.

Wizardry & Wild Romance

610F7VFXXXL._SS500_Existe uma praga na literatura fantástica, que atende pelo nome de John Ronald Reuel Tolkien. Não falo nem dos seus próprios méritos literários, com a sua über-saga que todo mundo deve saber qual é, mas principalmente do seu legado para a posteridade – os elfos, anões, dragões e batalhas ancestrais do Bem contra o Mal que permeiam e, a bem da verdade, infestam as obras daqueles que o seguiram. Muitos chegam a confundi-lo com o próprio gênero, especialmente aqui no Brasil, onde não há obras muito diversificadas disponíveis; já vi muitas afirmações mesmo de que ele o teria inventado, o que é, na melhor das hipóteses, um erro – só pra citar um exemplo que todos devem conhecer, os contos do Conan de Robert E. Howard já eram publicados uns bons quatro ou cinco anos antes do lançamento de O Hobbit e pelo menos vinte anos antes de A Sociedade do Anel, e já tinha entre os seus elementos as batalhas épicas, o mundo alternativo, os heróis arquetípicos e tudo aquilo que normalmente se associa a ele. E isso sem entrar ainda em todas as outras obras que influenciaram a própria criação do Tolkien e acabaram esquecidas na sua sombra, mas que seguiram inspirando autores posteriores que tentaram fugir da sua influência.

O resgate de algumas destas obras é em grande parte o que vale a leitura de Wizardry & Wild Romance, um pequeno conjunto de ensaios escritos por Michael Moorcock, ele próprio um severo crítico de Tolkien e seu legado, a respeito da fantasia épica na literatura. O livro busca as origens do gênero desde o romance de cavalaria decadente do século XVI, passando pelo romance gótico do século XVIII até os pulps do começo do XX, delineando seus elementos fundamentais e oferecendo uma vasta gama de exemplos e trechos comentados, o tempo todo apresentando e nos deixando mesmo um pouco envergonhados com toda a gama de obras e autores aparentemente importantes das quais nunca ouvimos falar. Muitas vezes somos ainda provocados com opiniões fortes a respeito daqueles autores que por algum acaso conhecemos, mas é verdade também que, mesmo quando discordamos delas, Moorcock argumenta bem em seu favor, e de alguma forma nos propõe a pensar e discutir essa discordância. Acho que apenas faz alguma falta comentários mais aprofundados sobre a New Wave do gênero dos anos 60 e 70, mas no fundo o próprio Moorcock seria meio suspeito para falar sobre ela, sendo um dos autores que a capitaneou com as histórias do Elric de Melniboné e outros dos seus Campeões Eternos.

Completam o livro ainda uma série de resenhas escritas por Moorcock para o jornal The Guardian, falando de livros dos principais autores de fantasia contemporâneos, com destaque para o já resenhado por aqui Perdido Street Station, de China Miéville, que, aliás, assina o prefácio da obra. No fim, além de um belo resgate histórico e um conjunto de ensaios críticos, Wizardry & Wild Romance acaba servindo também como um pequeno guia teórico para aqueles que gostam de se aventurar (e viva os trocadilhos infames /o/) pelo gênero fantástico, delimitando seus elementos fundamentais e oferecendo exemplos preciosos de estilo e narrativa. É uma pena que não se possa imaginar uma obra como essa sendo publicada por aqui, em língua portuguesa; faria um bem imenso, sem dúvida, ao mostrar que existe mais no gênero além de genéricos da Terra-Média e outros pseudo-medievalismos. Para aqueles que se interessarem pelo assunto e não tiverem problemas com o inglês, no entanto, é certamente uma leitura recomendada.


Sob um céu de blues...

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