Sombras de Lenórienn

Não há como dizer exatamente quanto tempo fiquei preso em Lenórienn. Meses? Anos? Para mim pareceram séculos. Mas isso não importa; quando se é prisioneiro de alguém que o odeia, e em especial quando esse sentimento é recíproco, o tempo passa devagar demais para que faça diferença contá-lo. Mas ainda lembro muito bem do que vi, mesmo quando preferia esquecer.

Vocês certamente já ouviram outros depoimentos de fugitivos, o que talvez ajude-os a ter uma idéia da situação da cidade. Mas podem ter certeza de que a realidade é muito pior. É preciso ver seus parentes e amigos morrendo todos os dias para entender o terror que se sente; é necessário ver os símbolos mais sagrados da sua deusa sendo profanados de todas as maneiras imagináveis para saber o que isso representa.

Não tentem mentir dizendo que entendem – vocês não entendem. As cicatrizes deixadas pela ocupação de Lenórienn não são do tipo que fecham com o tempo. Em algumas décadas talvez seus netos estejam ajudando a reerguê-la, mas nós ainda estaremos chorando a sua perda. E mesmo assim, aquilo que tenho mais claro em minha memória não são as marcas do que vivi neste período, mas sim o pouco que presenciei durante minha fuga.

***

Caso ainda lhes interesse saber, meu nome é Zairand Lhynfolan. Já fui um pequeno artista de Lenórienn, e um dos sobreviventes do massacre à cidade. Como outros que tiveram o mesmo azar, fui feito prisioneiro e escravo dos invasores.

O que vi e vivi a partir de então dificilmente será qualquer novidade para vocês: chacinas, trabalhos brutais, profanações de estátuas e templos… Fui obrigado a presenciar e – que a Deusa me perdoe – até a colaborar com tudo isso. Perdi a fé e a esperança muitas vezes. Teria nossa amada Glórienn nos abandonado?

Depois de pouco tempo, já era difícil acreditar que não. A tentação em me entregar, em apenas desistir de tudo, era muito forte. Valia a pena seguir adiante? Eu poderia facilmente acabar com o meu sofrimento me atirando em cima de um soldado qualquer, esperando ser empalado em sua lança; ele adoraria fazer isso. Se sobreviver era difícil, morrer seria muito fácil. Mas eu sobrevivi.

Minha chance de fugir apareceu quando, certo dia, foi levado até a minha cela um novo grupo de prisioneiros. Eram três humanos – um guerreiro cujo nome esqueci, um paladino de Tanna-Toh chamado Johran Ravyus, e uma clériga de Valkaria chamada Gil Gradian. Contaram-me que eram enviados dos reinos do norte com a missão de recuperar – entendam, saquear – os tesouros perdidos da capital élfica. Já haviam perdido alguns companheiros até serem pegos por uma patrulha ao tentar entrar na cidade.

Acho que agora posso entender porque foi justamente neste dia que recebemos a visita do estranho encapuzado. Havia dois servos de deuses no grupo, e estes eram o sacrifício preferido das divindades profanas a que os malditos adoravam. Assim, faz sentido que interessasse a ele vê-los livres, e acabassem libertando também quem estivesse com eles.

É claro que não tínhamos como saber disso na época, mas que outra escolha havia? Pode parecer estranho que tenhamos questionado pouco quando ele nos tirou da cela e nos deu mantos como o dele como disfarce prometendo nos levar para fora da cidade, mas não havia mais nada a fazer – o que quer que pretendesse, não seria pior do que parmanecer ali.

Assim, saímos da masmorra e seguimos em direção a Nyatar, a grande biblioteca. Segundo o nosso salvador, havia uma passagem secreta que terminava em um ponto distante da floresta de Myrvallar, de onde poderíamos facilmente achar o caminho até um dos grupos de guerrilha contra a Aliança Negra.

Foi um caminho tortuoso. A cada passo que dávamos meu coração se despedaçava mais profundamente ao ver o inferno em que Lenórienn havia se transformado – estátuas de Glórien mutiladas, estandartes ostentando crânios élficos como troféus, tropas de goblinóides portando armas e uniformes que pertenceram ao exército real. Aquela que já foi a mais bela cidade sobre a face de Arton era agora uma grande mancha negra em meio a floresta de Myrvallar; nenhum elfo mereceria ver isso.

Não tive medo de sermos descobertos. Acho que, naquele momento, eu realmente havia desistido – não havia mais nada a perder; ou sairia daquele inferno, ou morreria ali mesmo. Talvez por isso tenha começado a soluçar quando finalmente estávamos nos aproximando de nosso destino: o pesadelo estava finalmente chegando ao fim; mais alguns metros, e eu estaria livre!

***

Eu já podia ver a entrada de Nyatar, com as belas árvores em arco que formavam seus portões reduzidas a troncos retorcidos, quando Johran exclamou em voz alta o nome de sua deusa, chamando a atenção de todos. Me lembro bem da expressão de surpresa que havia em sua face, e não era um espanto infundado, como pude ver ao quase instintivamente olhar na mesma direção. Nada do que tenha vivido durante todos meus anos como prisioneiro poderia me preparar para aquela visão: dentro de uma casa élfica convertida em alojamento militar havia um hobgoblin…

Pintando!

Foram apenas alguns instantes, mas pude observar bem o trabalho dele. Em meio a um campo de batalha coberto por flechas incandescentes, uma jovem donzela élfica era agarrada por um soldado hobgoblin. Certamente uma imagem chocante para um elfo, mas havia algo mais naquela tela; o traço das figuras, a combinação de cores… Tudo lembrava muito um estilo artístico comum na época da invasão da cidade; era óbvio para mim que ele o havia aprendido ao observar obras de artistas élficos.

E não era apenas isso. A vivacidade da imagem era tal como poucos destes artistas, mesmo entre os mais célebres, jamais conseguiram imprimir em suas obras. O contraste entre a suavidade e a robustez dos dois personagens era expresso de forma fantástica. A expressão da elfa, um misto de pânico e gozo masoquista, era brilhantemente perturbadora, enquanto o sadismo era visível nos olhos do goblinóide. Por mais terrível que a cena pudesse parecer para um elfo, aquele trabalho não era menos do que uma obra-prima.

Infelizmente, não pude apreciar a beleza daquela imagem por muito tempo. A exclamação de surpresa do paladino havia alertado para a nossa presença uma patrulha de hobgoblins que agora vinha em nossa direção. Antes que eu pudesse perceber o que acontecia, o guerreiro humano já havia se atirado contra os inimigos com grande fúria, e quase tão rapidamente já estava empalado em uma das lanças que os soldados portavam. Pelo menos isso deu tempo suficiente para que nosso guia preparasse um feitiço, criando uma muralha de fogo que separou os dois lados da batalha e nos deu algum tempo para fugir.

Por sorte conseguimos entrar no prédio rapidamente, sem chamar muito mais atenção. No entanto, algo havia mudado: talvez fosse o impacto imediato da cena que acabara de presenciar, mas eu já não via destruição por todos os lados; passávamos por salas e mais salas e víamos sempre a mesma mesma paz e tranqüilidade que se esperaria em qualquer biblioteca. Nada de livros profanados, nem redutos de cultura transformados em alojamentos de soldados: apenas hobgoblins estudando os segredos de obras ancestrais.

Por mais incrível que pudesse parecer, a cultura élfica, ou ao menos uma parte dela, estava sendo preservada.

***

A passagem na biblioteca seguia por diversos túneis subterrâneos. Nosso guia parecia conhecer bem os caminhos – certamente não era a primeira vez que levava ex-prisioneiros através dele. Conseguimos chegar até a saída rapidamente e sem grandes incidentes.

Foi então que, após recebermos as últimas instruções de nosso misterioso salvador, perguntei sua identidade – e hoje não tenho certeza se realmente gostaria de saber. Talvez fosse melhor alimentar fantasias de que fosse um elfo idealista, bravamente conduzindo fugitivos para fora de um pesadelo, ou talvez até mesmo algum humano ou anão comovido com a situação dos prisioneiros da cidade. Mas não era nada disso, como descobri logo que vi a pele acizentada coberta de cicatrizes, os olhos vermelhos e as presas que saíam do lado inferior da boca.

O maldito era um hobgoblin.

Reagi a revelação com ingratidão, pulando sobre o desgraçado, agarrando-o pelo pescoço e jurando morte ao mesmo indivíduo que há pouco havia me salvado. Felizmente, Gil e Johran me impediram de cometer algo mais grave, me dando algum tempo para me recompor e ouvir a sua história.

Pelo que entendi, ele não via o que estava fazendo como uma traição ao seu povo – pelo contrário, para ele os traidores eram aqueles que tomaram a cidade, abandonando seu senhor verdadeiro por um deus alheio em troca de uma vitória fácil na guerra. Ele ainda promoteu que um dia ofereceria pessoalmente nossas vidas ao grande Hurlaagh antes de partir de volta pelos túneis.

Também seguimos nosso caminho, até chegarmos a este acampamento onde nos encontramos relatando esta história a vocês. Mas eu certamente não sou mais o mesmo depois de tudo o que vi; não consigo mais odiar os goblinóides como fazia antigamente. Se o contato com a cultura élfica os tornou capazes de criar obras tão sublimes, talvez os tenha mudado mais. Não me surpreenderia se, uma vez diminuídas as necessidades militares da ocupação, eles formassem uma civilização tão magnífica quanto a nossa já foi um dia.

O que digo pode parecer uma blasfêmia contra nosso povo e nossa Deusa, mas na verdade não é. Mesmo que tentassem vocês não poderiam entender, pois não viram o que eu vi – e mesmo que tivessem visto, dificilmente entenderiam. É necessário ter a sensibilidade de um elfo, de um artista elfo, para realmente entender o que aquilo siginifica, e o que pode representar.

Talvez Glórienn não tenha nos abandonado, afinal. Talvez esteja apenas nos ensinando uma lição. De forma dolorosa e traumática, é bem verdade, mas, vendo como éramos arrogantes e intolerantes antes da queda de Lenórienn, não posso deixar de pensar que talvez seja uma lição realmente necessária.

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