Wizardry & Wild Romance

610F7VFXXXL._SS500_Existe uma praga na literatura fantástica, que atende pelo nome de John Ronald Reuel Tolkien. Não falo nem dos seus próprios méritos literários, com a sua über-saga que todo mundo deve saber qual é, mas principalmente do seu legado para a posteridade – os elfos, anões, dragões e batalhas ancestrais do Bem contra o Mal que permeiam e, a bem da verdade, infestam as obras daqueles que o seguiram. Muitos chegam a confundi-lo com o próprio gênero, especialmente aqui no Brasil, onde não há obras muito diversificadas disponíveis; já vi muitas afirmações mesmo de que ele o teria inventado, o que é, na melhor das hipóteses, um erro – só pra citar um exemplo que todos devem conhecer, os contos do Conan de Robert E. Howard já eram publicados uns bons quatro ou cinco anos antes do lançamento de O Hobbit e pelo menos vinte anos antes de A Sociedade do Anel, e já tinha entre os seus elementos as batalhas épicas, o mundo alternativo, os heróis arquetípicos e tudo aquilo que normalmente se associa a ele. E isso sem entrar ainda em todas as outras obras que influenciaram a própria criação do Tolkien e acabaram esquecidas na sua sombra, mas que seguiram inspirando autores posteriores que tentaram fugir da sua influência.

O resgate de algumas destas obras é em grande parte o que vale a leitura de Wizardry & Wild Romance, um pequeno conjunto de ensaios escritos por Michael Moorcock, ele próprio um severo crítico de Tolkien e seu legado, a respeito da fantasia épica na literatura. O livro busca as origens do gênero desde o romance de cavalaria decadente do século XVI, passando pelo romance gótico do século XVIII até os pulps do começo do XX, delineando seus elementos fundamentais e oferecendo uma vasta gama de exemplos e trechos comentados, o tempo todo apresentando e nos deixando mesmo um pouco envergonhados com toda a gama de obras e autores aparentemente importantes das quais nunca ouvimos falar. Muitas vezes somos ainda provocados com opiniões fortes a respeito daqueles autores que por algum acaso conhecemos, mas é verdade também que, mesmo quando discordamos delas, Moorcock argumenta bem em seu favor, e de alguma forma nos propõe a pensar e discutir essa discordância. Acho que apenas faz alguma falta comentários mais aprofundados sobre a New Wave do gênero dos anos 60 e 70, mas no fundo o próprio Moorcock seria meio suspeito para falar sobre ela, sendo um dos autores que a capitaneou com as histórias do Elric de Melniboné e outros dos seus Campeões Eternos.

Completam o livro ainda uma série de resenhas escritas por Moorcock para o jornal The Guardian, falando de livros dos principais autores de fantasia contemporâneos, com destaque para o já resenhado por aqui Perdido Street Station, de China Miéville, que, aliás, assina o prefácio da obra. No fim, além de um belo resgate histórico e um conjunto de ensaios críticos, Wizardry & Wild Romance acaba servindo também como um pequeno guia teórico para aqueles que gostam de se aventurar (e viva os trocadilhos infames /o/) pelo gênero fantástico, delimitando seus elementos fundamentais e oferecendo exemplos preciosos de estilo e narrativa. É uma pena que não se possa imaginar uma obra como essa sendo publicada por aqui, em língua portuguesa; faria um bem imenso, sem dúvida, ao mostrar que existe mais no gênero além de genéricos da Terra-Média e outros pseudo-medievalismos. Para aqueles que se interessarem pelo assunto e não tiverem problemas com o inglês, no entanto, é certamente uma leitura recomendada.

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