Uma História de Deus

21312747_4É sempre polêmico falar de religião e religiosidade, ainda mais em tempos de avanços científicos e questionamentos éticos e morais que parecem colocá-los sempre em embate com a ciência e o espírito modernos – é muito fácil cair em algum tipo de extremismo, seja o fundamentalismo religioso, que nega qualquer tipo de teoria ou prova científica, ou então um certo tipo de fundamentalismo ateu, que não só nega a religião como ainda tenta desconsiderá-la e desmerecê-la por completo, ignorando que a sua função nunca foi a de apenas explicar o mundo. Por outro lado, é difícil achar algum tipo de meio-termo, não necessariamente de conteúdo, mas principalmente de abordagem; não falo de conciliar os dois lados do embate, mas simplesmente de entendê-los e respeitá-los simultaneamente. Pra mim, o caso mais emblemático que consegue esse feito é o de Joseph Campbell, que estudou a história das mitologias e da religião de um ponto de vista assumidamente ateu, mas nem por isso desprovido de espiritualidade; alguns mais religiosos que lêem sua obra chegam mesmo a dizer que ela foi capaz de reforçar e desenvolver sua fé ao invés de negá-la, como relatou Bill Moyers na famosa entrevista que deu origem ao livro e à série O Poder do Mito.

Karen Armostrong é outra estudiosa que segue pelo mesmo caminho, em grande medida influenciada pelo trabalho de Campbell. Essa abordagem é bem visível em Uma História de Deus, trabalho de pesquisa histórica em que ela analisa o desenvolvimento da idéia e do conceito de Deus nas três grandes religiões monoteístas, a partir de um estudo crítico e detalhado não só da Bíblia e do Corão, mas também das idéias e trabalhos dos grandes pensadores e teólogos judeus, cristãos e muçulmanos de diversas épocas. Desde o Deus-Céu dos povos primitivos até a anunciada morte de Deus no século XIX e ainda hoje, ela evidencia e avalia as diversas modificações e metamorfoses por que o conceito e a visão de Deus passou, constantemente se reinventando e adaptando a necessidades históricas bem mais mundanas do que alguns esperariam; como ela própria diz freqüentemente, uma idéia religiosa, para ter sucesso, precisa, antes de mais nada, funcionar para seus devotos em um determinado momento. E ainda que a sua própria visão da religiosidade fique bastante clara já na introdução da obra, em que relata as razões e o desencanto que a levaram a abandonar o convento onde estudava para se tornar freira, ela em momento algum chega a desprezar a visão religiosa – ao contrário, entendendo e tentando deixar claro que não se trata tanto de um capricho, mas sim de uma necessidade básica do homem, respeita esse culto ao espírito presente nas religiões corretamente concebidas, ainda que não deixe de criticá-las quando lhe parecem não cumprir adequadamente estas necessidades.

Enfim, a obra de Armstrong (e não só este livro), como a de Campbell, é fundamental para qualquer um que queira entender a lógica e o funcionamento do pensamento religioso, sem necessariamente desmerecê-lo. No fim, o grande questionamento que fica não é tanto se há um papel para a religião e a religiosidade no mundo moderno, mas sim que formas ela pode assumir para cumprir o seu papel social e, principalmente, psicológico no homem moderno, sem entrar em conflito com um pensamento científico que, por mais lógico, racional e irrefutável que pareça a muita gente, não consegue satisfazer plenamente a estas necessidades.

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1 Response to “Uma História de Deus”


  1. 1 Karen 27/10/2009 às 15:46

    Luiz Biajoni está dando um fórum sobre Joseph Campbell, algumas dessas idéias estão sendo debatidas, talvez lhe interesse…
    http://www.yubliss.com/forum/242
    🙂


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