Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário

steampunk_capa_frenteHá quem diga por aí que estamos vivendo um princípio de começo de uma pequena onda de literatura steampunk no Brasil. Claro, isso não significa que tenhamos grandes autores consagrados subitamente interessados no assunto, ou que qualquer lançamento do gênero rivalize em atenção com o último livro de Crepúsculo ou do Paulo Coelho, mas apenas que, dentro do público ativo de certos nichos literários, tem havido um interese crescente no tema. Honestamente falando, não me considero informado ou envolvido o suficiente para confirmar ou negar essa afirmação; mesmo assim, é sempre interessante ver bons lançamentos nacionais, independente do gênero, como é o caso da coletânea Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário.

Acho que cabem aqui alguns esclarecimentos, antes de seguir adiante. Ao contrário do que dirá o senso comum, steampunk não se refere necessariamente a histórias com tecnologias avançadas à vapor substituindo o desenvolvimento tecnológico histórico. Há muito disso no gênero, sem dúvida, ou o steam no nome estaria bastante fora de lugar; mas também há muito mais de brincar com o espírito de uma época, parodiando ou especulando em cima de costumes e idéias que eram comuns naquele período. Assim, não espere ver em todos os contos do livro máquinas impressionantes e industrialismo exacerbado – na verdade, a impressão que se tem é que os contos que seguem esse imaginário mais à risca são justamente os menos interessantes.

Esse é o caso, por exemplo, de O Assalto ao Trem Pagador, do organizador Gianpaolo Celli, que abre a coletânea. Não que seja uma história ruim, claro, mas acaba pesando contra ela o fato de parecer um pouco genérica e inespecífica demais, como um episódio piloto de uma série de aventura. Mais bem-sucedido nesse sentido é A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster, que retoma o personagem Adriano Monserrat apresentado em um projeto de série em quadrinhos para a internet anos atrás. Essa ascendência pode ser percebida facilmente no ritmo da história, que lembra um episódio de anime ou mangá; há ação, bons personagens, ciência exagerada, e um cenário bem construído no Brasil de meados do século XIX.

Aliás, é interessante notar como muitos autores, a despeito de escreverem em um gênero que invariavelmente remonta a um imaginário de origem européia, decidiram ambientar suas histórias no país, e em geral com bons resultados. A Flor de Estrume, de Antônio Luíz da Costa, mistura com bastante humor história alternativa e personagens machadianos clássicos, e foi um dos contos que mais me divertiu na coletânea. O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo, é também um bom conto, apesar do final inconclusivo, como se fosse apenas o primeiro capítulo de uma história maior (e não duvido que seja mesmo); mas, bem, é difícil falar mal de uma história que reúne piratas e combates aéreos, dois dos meus pontos fracos. Já Cidade Phantástica, de Romeu Martins, é outra história que tenta seguir o gênero mais à risca, com um resultado razoável – apenas achei o desenvolvimento dele um pouco apressado, embora a mistura de história alternativa com personagens de domínio público seja interesante.

Saindo da terra brasilis, temos Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes. Não é um conto ruim, mas o desenvolvimento dele é um pouco estranho – exceto no início e no final, quase não há personagens específicos, e a maior parte se dedica a narrar os acontecimentos que se seguem ao sucesso de uma certa invenção; a impressão que se tem é de estar lendo um livro de história, ou uma descrição de cenário de RPG. Mas não é uma história ruim, de qualquer forma, para quem gostar desse tipo de leitura. Já O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa, é o conto que mais destoa dos demais, por ter muito pouco de vapor e especulação científica de qualquer tipo. Mas também não é ruim por causa disso – é mais calcado no suspense, bebendo de fontes como Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, e é eficiente nessa proposta.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia, é provavelmente o conto mais estranho do livro, no bom sentido. Ele conta a história de um casal peculiar tentando sobreviver em meio a uma revolução política, misturando tecnologia à vapor, alta fantasia e folclore europeu em um grande caldeirão que acho que posso chamar com poucos riscos de erro de new weird – e o autor provavelmente concordaria, sendo um dos editores do finado projeto Terra Incognita (junto com o já mencionado Fábio Fernandes). Por Um Fio, de Flávio Medeiros, enfim, encerra o livro com chave de ouro, adiantando a corrida armamentista da guerra fria em mais de um século para descrever o embate entre duas tecnologias de guerra revolucionárias: o submarino e o aeróstato. O ritmo é cuidadoso e há algo de discurso filosófico na narrativa, além de uma ótima participação de dois personagens literários clássicos que só fica óbvia nos momentos finais; talvez seja mesmo o melhor conto do livro, ou ao menos o que mais me cativou.

De negativo, acho que não posso deixar de comentar a respeito do preço das edições da Tarja Editorial, que geralmente tendem a ficar um pouco caras em comparação com o tamanho dos livros. Não digo que não entendo as razões para isso, é claro – posso ser um leigo no assunto, mas tenho alguma noção das dificuldades de estabelecer uma boa tiragem para um lançamento de alcance restrito, entre outras razões que podem elevar o preço final -, mas é difícil não sentir uma certa ponta de hesitação quando se olha para os quarenta reais que ele custa. Acho que, não fossem as constantes promoções do site da editora, que colocam à venda pacotes de livros por preços especiais, eu não teria me animado a adquiri-lo.

De qualquer forma, para quem passar por essa barreira, não há muito o que se arrepender. É normal que coletâneas de contos, e em especial aquelas que reúnem vários autores, tenham os seus altos e baixos; e é bom notar que Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário tem muito mais dos primeiros do que dos segundos.

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8 Responses to “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário”


  1. 1 Richard Diegues 10/11/2009 às 07:42

    Bruno,

    Boa resenha. Honesta e direta, passando as suas impressões sem política, apenas com seus pitacos e gostos pessoais. Opiniões.

    Quanto ao valor do livro, realmente temos o problema de tiragens baixas na Tarja Editorial, mas isso vem sendo corrigido aos poucos, conforme ganhamos força.

    As distribuidoras ficam com 65% do preço de capa do livro. Então, de um livro vendido por R$ 10,00, depois de pagos impostos, custos de gráfica e direitos autorais, apenas R$ 0,85 fica com a editora… é duro, não?

    Mas no site da Tarja Livros (www.tarjalivros.com.br) o livro está por R$ 32,90. Além de sempre termos algumas promoções (como a que citou em sua resenha).

    Abração,

    Richard Diegues
    Tarja Editorial

  2. 2 Romeu Martins 10/11/2009 às 08:02

    Opa, bela resenha. Fiz um link para ela em meu blog, onde procuro compilar as críticas sobre o livro: http://cidadephantastica.blogspot.com/2009/11/torre-de-vigia-6.html

    Abraço

  3. 3 Bruno Accioly 10/11/2009 às 18:46

    Bem honestas e procedentes as colocações.

    Se quiser dê uma passada lá no http://www.steambook.com.br

  4. 4 Arquimago 12/11/2009 às 10:07

    Boa critica, também gostei do livro.

  5. 5 Flávio Medeiros 18/11/2009 às 00:12

    Muito boa resenha, Bruno.
    Grato pela crítica ao meu conto. Espero que muito em breve vejam a luz novidades literárias dentro do mesmo universo da “Guerra Fria Vitoriana” (que particlarmente estão me deixando muito empolgado…).
    Um abraço!


  1. 1 Novidades no mundo SteamLiterário | Observatório a Vapor Trackback em 16/11/2009 às 17:56
  2. 2 Retrospectiva Crítica – Antologias, Coletâneas e Ebooks (2) « Ficção Científica e Afins Trackback em 28/12/2009 às 13:40
  3. 3 Ficção Científica e Afins » O futuro do pretérito a vapor, um ano depois. Trackback em 25/07/2010 às 20:32

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