Nada de Novo no Front

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi provavelmente o mais marcante e paradigmático conflito armado da história contemporânea. Ela representou muito mais do que apenas um conflito de proporções continentais – trouxe consigo todo um novo jeito de guerrear para o qual os próprios exércitos não estavam plenamente preparados, fundamentada em táticas e técnicas que faziam uso das últimas tecnologias e descobertas científicas, e deixou marcas políticas, sociais e morais que levariam décadas para cicatrizar debilmente. Não é à toa que grandes historiadores como Eric Hobsbawn consideram o 28 de junho de 1914, data do assassinato do príncipe austro-húngaro Francisco Ferdinando, como o verdadeiro início do século XX. Tudo o que marcou o século começa ou de alguma forma se transforma a partir desse ponto, dos regimes nazi-fascistas que levaram à Segunda Guerra Mundial ao conflito ideológico entre capitalismo e socialismo que caracterizou a Guerra Fria.

Estas marcas são também facilmente perceptíveis quando se analisa a ficção nos anos que se seguiram ao conflito. Na ficção científica, por exemplo, é a partir do fim da Primeira Guerra Mundial que começam a proliferar as visões distópicas do futuro da humanidade, com uma impressão pessimista do avanço tecnológico, como as célebres obras de Aldous Huxley, George Orwell e Ray Bradbury, entre outras. E a representação da guerra, antes muitas vezes um pano de fundo para aventura e romantismo e vista às vezes como um desdobramento natural e aceitável da política internacional (vide Clausewitz), dá uma guinada radicalmente pacifista a partir deste ponto – a começar pelo clássico Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, considerado por muitos como o fundador dessa tradição na ficção ocidental contemporânea.

A obra, publicada pela primeira vez como um folhetim semanal na Alemanha, é baseada na experiência e nos traumas do autor como combatente no conflito – os esboços iniciais do romance, inclusive, eram suas próprias anotações e devaneios sobre as memórias do que viveu. Como seria de esperar, a guerra é mostrada de forma bastante crua e humanizada, sem qualquer tipo de romantismo. Os soldados são adolescentes neuróticos que perdem a juventude em meio às trincheiras, as batalhas são sufocantes e sujas, e o dia-a-dia no front por vezes se perde em uma rotina de indiferença e até tédio. O estilo incomoda um pouco no início – a narração em primeira pessoa no tempo presente, repleta de devaneios e divagações, é um pouco estranha, pelo menos para quem não está com romances em fluxo de consciência -, mas é simples e eficiente, e funciona bem com a proposta do livro; o resultado é uma prosa comovente e até um tanto assustadora, que transmite a sensação da guerra como algo absurdo como poucas obras conseguem ainda hoje.

Nada de Novo no Front, enfim, é facilmente um dos principais relatos que a ficção do século XX legou à posteridade. Uma leitura obrigatória, para dizer o mínimo.

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1 Response to “Nada de Novo no Front”


  1. 1 Dragão 22/07/2013 às 13:47

    Republicou isso em Dragão da Capadóciae comentado:
    Li um trecho deste livro e fiquei chocado. Na verdade, é esse o objetivo dele: mostrar a crueldade que foi a Primeira Guerra Mundial. Quero lê-lo todo.


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