A Viagem de Chihiro

Todo mundo tem a sua sorte de contos de fada marcantes, aquelas histórias mágicas cuja simples menção nos fazem lembrar da época em que seguíamos rastros de coelhos que botavam ovos de chocolate, ou que esperávamos ansiosos para abrir aqueles pacotes embaixo do pinheiro ornamentado. Eu lembro de pelo menos cinco delas – e, vindo da geração TV, é claro que se tratam de filmes e desenhos animados. Uma delas era uma animação japonesa cujo nome eu não lembro, com um estilo muito parecido de O Pequeno Príncipe e o Dragão de 8 Cabeças, contando a história de uma princesa que irritava os deuses-dragões dos oceanos e depois precisava se sacrificar para aplacar a sua ira; poucas cenas ainda estão tão vivas na minha memória como a festa dos dragões no fundo do mar para comemorar a morte da sua inimiga (que depois retornava com armas mágicas e dava uma surra neles, mas aí é outra história). Outra dessas histórias foi Labirinto, aquele filme com a Jennifer Connely adolescente e o David Bowie – e um dos filmes mais assustadores de se assistir quando se tem 5 anos, acreditem em mim. Tem ainda um especial dos Ursinhos Carinhosos no mundo de Alice no País das Maravilhas, que sempre me lembram dos fins de semana chuvosos salvos pelo videocassete (e pelo bom e velho Master System), e dois clássicos da Disney – A Pequena Sereia, que marcou mais pela insistência, porque lembro de achar o filme um porre, mas era obrigado a assistir todo mês por influência de algumas primas e de uma irmã de criação; e A Bela Adormecida, aí já por méritos próprios mesmo, já que, romances açucarados à parte, ainda é um filme com dragões e bruxas, poxa! (Aliás, eu adorei poder dar uma surra na Maleficent no Kingdon Hearts). Isso, claro, só para tentar me manter entre os filmes que me lembram da minha infância mais remota, sem tentar entrar nos clássicos (um pouco) mais recentes como O Rei Leão ou Aladdim.

Bem, toda essa enrolação nostálgica e saudosista só pra dizer que eu sentia falta dessas histórias mágicas, onde a fantasia vence a realidade e o mais importante é deixar a imaginação livre. Sem tirar os méritos, é claro, de filmês bacanas como Os Incríveis ou Shrek, mas em ambos os casos se está falando de uma classe diferente de história, que envolve questões simbólicas bem diferentes (e tem o lado da nostalgia-totalmente-parcial também, mas não vou entrar nele). Enfim, ainda bem que existe gente como Hayao Miyazaki.

Pulando toda a filmografia do mestre para chegar diretamente ao filme em questão, A Viagem de Chihiro pode ser resumida justamente nisso – um filme onde a imaginação é mais importante que a verossimilhança, e a mágica é mais forte que a realidade. Um verdadeiro conto de fadas já clássico, contado sobre uma ótica contemporânea e para um público contemporâneo, sem cair na paródia ou na imitação. Uma obra-prima, pra dizer o mínimo, que ainda servirá de base para defender teses de que os filmes do futuro são menos mágicos que os filmes atuais, quando algum outro nostálgico chato daqui uns vinte anos estiver escrevendo sobre as histórias que marcaram a sua infância.

About these ads

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

@bschlatter

  • Fazer junto com o lendário restaurante monte-sua-pizza :p 3 hours ago
  • Empreendedorismo do dia: abrir um restaurante com degustação de refrigerantes. 3 hours ago
  • Minha mãe falando com a sobrinha no quarto do lado, e eu respondendo achando que era comigo... 3 hours ago
  • Dizer que escrever pra editora de RPG é ingrato, viu. Tu dá uma coisa, o público aparece pra pedir mais três. 3 hours ago
  • RT @juremirm: Passados 22 anos, o STF esclarece: Collor sempre foi inocente. Tudo já era culpa do PT. 4 hours ago

Estatísticas

  • 164,200 visitas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: