The Dark Tower

The Dark Tower (ou A Torre Negra, na versão nacional) é a über-saga do escritor norte-americano Stephen King, certamente o seu mais ambicioso e longo projeto, tendo levado quase trinta anos e sete livros para ser completada. Ela conta a história de Roland Deschain, o último pistoleiro da Afiliação, na sua busca pela mítica Torre Negra no centro do Mundo-Médio devastado, em uma aventura que mistura terror, ficção científica e fantasia de um jeito que não faria feio no currículo de qualquer escritor new weird da vida.

Bueno. Antes de seguir adiante, é importante deixar claro que eu não sou exatamente o maior dos fãs do trabalho do King. Não que ache ele um escritor ruim, muito pelo contrário – do pouco que havia lido antes da série, até achei coisas bem interessantes, e em geral acredito que ele tenha mais acertos do que erros. Apenas não é um autor que normalmente me chame a atenção, e, ainda que não pareça em um primeiro momento, isso faz bastante diferença para esta obra em especial. Além disso, explica também o fato de eu ter preferido ler os livros desta série em inglês, mesmo que existam edições nacionais relativamente recentes – por mais que eu tivesse curiosidade, ele simplesmente não é um autor que me faria pagar mais de 80 reais por um livro, ainda mais considerando que seria apenas um de sete. A faixa dos 15-25 reais por volume que eu paguei por cada um dos pockets importados, no entanto, está mais dentro do meu orçamento.

Enfim. A série abre com The Gunslinger (O Pistoleiro), que nos apresenta o protagonista e um pouco mundo fantástico que o cerca, em cinco pequenas novelas que, originalmente, foram publicadas separadas, antes de serem reunidas neste volume. Parece ser senso comum entre os fãs que este não é exatamente um grande livro, e que a história melhora nos volumes seguintes; pessoalmente, no entanto, eu achei ele o melhor dos sete. Por mais que seja bastante vago com respeito a própria busca principal, e realmente pareça um pouco devagar em acontecimentos quando se pensa na série completa, eu gostei da forma como ele se foca mais no clima e na ambientação, passando bem a desolação do Mundo-Médio devastado, sem contar naquela sensação de se estar lendo um spaghetti western dirigido pelo Sérgio Leone com o Clint Eastwood no papel principal – você quase consegue ouvir o Ennio Morricone regendo a trilha sonora. Ou, pensando em retrospecto, pode ter sido também o fato de ele ser apenas o primeiro livro, e a expectativa quanto às continuações ainda serem maiores que as possíveis decepções na leitura.

Em todo caso, The Drawing of the Three (A Escolha dos Três), o segundo livro, já começou me decepcionando um pouco pela forma como quebra esse clima que o primeiro criara tão bem, introduzindo novos personangens e abraçando de vez o tema das viagens dimensionais, que vai se tornar o grande mote da série. No fundo, no entanto, acho que era uma mudança inevitável – afinal, como escrever sete livros apenas sobre um homem atrás de uma torre? E conta a favor dele ainda o fato de que os novos personagens são interessantes e muito carismáticos, sendo um dos destaques da série a partir daí. The Waste Lands (As Terras Devastadas), o terceiro livro, é outro ponto alto, fechando o ka-tet de protagonistas com mais um personagem, além de apresentando mais detalhes do Mundo-Médio ao leitor.

Wizard and Glass (Mago e Vidro) é o quarto livro, e o ponto nodal da série por vários motivos. Primeiro porque apresenta, enfim, o passado de Roland, explicando como começou a sua busca pela Torre Negra; isso significa que, a partir daí, muito do ar misterioso que cercava o personagem se desfaz, acabando com um pouco do clima de O Estranho Sem Nome nos livros seguintes. A pausa para contar o seu passado até parece um desvio um pouco súbito, bem no momento em que a busca pela Torre deveria começar a esquentar, mas também era um pausa necessária, claro, e a história do jovem Roland é interessante (chegou mesmo a ser adaptada em uma história em quadrinhas da Marvel Comics, já lançada por aqui), apesar do ritmo lento e da justificativa final para a sua obsessão pela Torre ser um pouco capenga. Além disso, e talvez seja esse o ponto mais relevante, é aqui onde começam as chuvas de referências e auto-referências da série, que tomam de assalto os livros seguintes.

É no fim deste quarto volume, em especial, que a história começa a perder o rumo de vez, ao menos na minha opinião. Os três livros seguintes, Wolves of the Calla (Lobos de Calla), Song of Susannah (Canção de Susannah) e The Dark Tower (A Torre Negra), parecem ter sido escritos de um fôlego só, após o acidente que quase tirou a vida do autor (que chega mesmo a fazer parte da história do último volume, aliás), em uma corrida para terminar a série logo e tirar esse peso da consciência. O ritmo da história aumenta em velocidade e linearidade, com direito a cliffhangers sacanas no final de cada livro (incluindo até, pra quem quiser ser especialmente chato quanto a isso, o último). Ela ainda passa a ser repleta de desvios e pausas no enredo principal que parecem desnecessários, e você tem a impressão que a busca pela Torre levaria metade do tempo se a narrativa não tivesse que parar a cada meia-dúzia de capítulos para contar a história da infância de um novo personagem.

O que mais prejudica estes últimos livros, no entanto, é a forma como muitas situações têm desfechos realmente frustrantes, recorrendo quase o tempo todo à onipotência do ka (um conceito próprio do livro, que, em uma simplificação grosseira, pode-se dizer que é sinônimo a destino) para que tudo acabe bem, forçando bastante a boa vontade de quem lê. Algumas idéias e conflitos realmente bons acabam sendo desperdiçados dessa forma, e em um determinado momento a própria narrativa chega a anunciar: o Deus Ex-Machina está chegando!

Enfim, à parte de alguns defeitos bastante marcantes, não posso realmente dizer que a série seja abominável, e que ninguém deveria lê-la. Há muito o que gostar nela sim, dependendo do que se está procurando – todos os personagens principais são muito carismáticos, e a presença deles por vezes vale a leitura em momentos que poderiam ser descartáveis; além disso, para quem gosta de fantasia estranha e pastiches criativos, o que é bem o meu caso, há muitos elementos interessantes no cenário, uma espécie de faroeste pós-apocalíptico com temas arturianos. Fanboys e aficcionados em geral pelo trabalho do Stephen King, ainda, têm boas chances de terem orgasmos múltiplos durante a leitura, dada a quantidade de auto-referências e a forma como a obra tenta unir os livros dele em um mesmo universo. Apenas a história em si pode ser bastante frustrante algumas vezes, sobretudo na metade final, o que me impede de simplesmente recomendá-la para qualquer um.

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