Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre o Mesmo Tema

Este é o momento em que eu abriria a resenha com um mea culpa, comentando sobre como, independente da opinião de críticos chatos e o proto-messianismo musical, eu continuo sendo fã dos Engenheiros do Hawaii, foda-se quem não gostar, e blá blá blá, etc e tal, por aí vai. Não vejo muita razão para fazer isso, no entanto – em primeiro lugar, porque já fiz antes; e, em segundo lugar, pois implicaria admitir que, apesar de tudo, eu ainda tenho alguma vergonha de admitir o meu gosto pessoal, e sinceramente tenho esperanças de que esses ecos reprimidos da minha adolescência estejam já há algum tempo superados. Em todo caso, o fato é que eu sou, sim, fã de EngHaw, que é provavelmente uma das bandas, junto com o Oasis, os bluesmen clássicos norte-americanos e os roqueiros esquecidos dos anos 70, que me definem enquanto musicófilo, e é simplesmente impossível me desligar disso enquanto avalio Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre o Mesmo Tema, livro de memórias do seu líder e frontman, Humberto Gessinger.

O livro em si é dividido em três partes, sendo que para o fã genérico é certamente a primeira, Pra Ser Sincero, a mais interessante – é o relato autobiográfico propriamente dito, revelando a visão pessoal do Gessinger sobre os mais de 25 anos de estrada da banda, praticamente ano a ano. Quem espera um relato denso, no entanto, repleto de revelações pessoais e confissões, como foi a autobiografia do Eric Clapton, por exemplo, pode se decepcionar: a sua visão sobre a própria carreira é bem simples e direta ao ponto, sem grandes revisões ou quadros gerais. Muitas das anedotas e curiosidades dos bastidores inclusive já devem ser conhecidas dos fãs mais dedicados, que acompanhem entrevistas e a história da banda há algum tempo; e mesmo os temas possivelmente polêmicos, como a saída do guitarrista Augusto Licks em meados dos anos 90, são um pouco escanteados, dispensados com pouco mais do que algum comentário rápido. No fim, o texto acaba parecendo mais um roteiro pronto de um episódio de Por Trás da Fama, com aquele viés oficialista e, em certo sentido, inofensivo.

Por outro lado, isso não chega também a diminuir a sua força, que consegue manter o tempo todo um tom bastante pessoal e sincero, ao menos na aparência. Isso é reforçado pela prosa do Gessinger, que é escrita quase como ele fala – não que seja repleto de erros de português ou coisa assim, mas digo principalmente pelo ritmo e estilo do texto, a forma como ele pega bem aquele jeito meio pós-hippie quarentão que quem vê as suas entrevistas certamente repara, colocando às vezes em um mesmo parágrafo comentários sobre futebol (em especial o Grêmio), um verso de uma música, uma divagação filosófica e uma citação a Albert Camus. Muitas das suas opiniões mais gerais, inclusive, são bem interessantes e até um pouco surpreendentes, tanto sobre o trabalho da banda como a indústria da música em geral – entre outras, destaco a sua revelação de que o !Tchau Radar!, um dos discos mais discriminados pelos fãs, é o trabalho dos EngHaw que ele próprio mais ouve, bem como a sua visão bastante positiva sobre o impacto da internet e do compartilhamento de arquivos sobre a música (como ele mesmo diz, tanto o videoclipe como o CD são mídias que já nasceram com data certa para morrer).

A segunda parte do livro, Pra Quem Gosta de Nós, é a que justifica o subtítulo, ao apresentar 123 letras selecionadas de músicas da banda. Aqui estamos no território dos fãs, que muito provavelmente já sabiam a maioria delas de cor de qualquer forma – eu, pelo menos, já sabia. O certo é que os críticos continuarão achando-as ruins e fracas, enquanto os fãs continuarão vendo nelas o sentido oculto da vida. Mas vale pelos comentários pessoais do Gessinger sobre algumas delas, bem como as caricaturas do Andrews & Bola retratando os diversos visuais do músico ao longo da carreira.

Por fim, a terceira parte, Pra Entender, apresenta um pequeno estudo crítico de autoria de Luís Augusto Fischer, um renomado professor e crítico literário de Porto Alegre, a respeito do trabalho poético do Humberto Gessinger. É um texto interessante, sem dúvida, embora eu tenha ficado com a impressão algumas vezes de que ele não gosta realmente das letras que analisou.

Todo o design, acabamento e trabalho gráfico do livro também são muito bem feitos. É um livro colorido, impresso em papel especial, e repleto de fotos da carreira da banda, retiradas de shows, bastidores, material de divulgação e arquivos pessoais. Destaco as fotos dos instrumentos usados pelo Gessinger, muitos dos quais ele próprio montou, e que possuem pintura e alguns detalhes visuais bem interessantes, deixando-os muito bonitos.

Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre o Mesmo Tema, enfim, é um livro escrito para os fãs, e é claro que não se pode julgá-lo de outra forma. Para quem não gosta de Engenheiros ou do Humberto Gessinger, não há nada aqui que vá mudar a sua opinião; quem já for fã, no entanto – o que é o meu caso, como deve ter ficado bem claro -, e souber o que esperar, também não há muito com o que se decepcionar.

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2 Responses to “Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre o Mesmo Tema”


  1. 1 Heleno 07/04/2010 às 17:24

    Também achei o livro um pouco superficial, porém gostei bastante. Como você comentou, eu esperava um texto mais profundo e com mais revelações, mais todos nós sabemos que a marca registrada de HG é ser “reservado”. Mesmo assim, não fiquei tranquilo enquanto não comprei o livro, e agora sinto-me orgulhoso de possuí-lo, e de ter lido até o nome da bibliotecária que o catalogou.

    Dou um destaque especial (para mim), o comentário que ele faz da música Infinita Higway, onde ele faz referência a música Longa Estrada da Vida de Milionário & José Rico, dupla sertaneja da “gema”, com 40 anos de estrada e que também gosto muito. Jamais imaginaria ver o nome deles no livro do dinossauro do Rock.

    Heleno Dozól Barabas
    Criciúma/SC

    • 2 Bruno 07/04/2010 às 17:55

      Pois é, isso é interessante, mas também é uma característica do Gessinger ser eclético assim. Afinal, não dá pra esquecer que ele já regravou Os Incríveis, Belchior e Tavinho Moura nos discos do EngHaw, entre outros.


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