Sobre a Variabilidade Genética

Bueno, como alguns devem saber, sou historiador formado, de forma que a minha praia passa bem longe da biologia e da genética, assuntos que eu geralmente deixo para o meu amigo Maury. Mas isso não impede, é claro, que eu me aventure por esse campo vez por outra, ao menos lendo artigos de divulgação em Scientific Americans ou até, vá lá, Superinteressantes da vida. Um tema que eu acho bastante intrigante, por exemplo, é a questão da variabilidade genética, em especial a ideia de que ela tende a ser maior na região de origem de uma determinada espécie, ou ao menos é o que querem nos fazer acreditar os estudos científicos da área – assim, existem mais variedades de milho na América Central do que em todo o resto do mundo, bem como existem mais variedade de genes entre as raças de cachorros coreanos do que entre as demais. Da mesma forma, ao defender que o homem nasceu na África, se parte não apenas dos registros fósseis que apontam para isso, mas também do fato de que a população local realmente apresenta a maior variedade genética da humanidade, ao ponto de por vezes uma única tribo apresetar internamente mais variações do que todos os outros continentes reunidos.

Curioso, no entanto, é o fato de que, fazendo um paralelo com o meu campo de atuação, ao se analisar a história da humanidade é possível chegar a algumas conclusões bem parecidas. Continuando na África, por exemplo; se ela é o berço da humanidade, podemos colocá-la também como o berço de certas tradições políticas do homem, bem como da nossa própria vida social – se não das civilizações mais organizadas e complexas, ao menos na forma de tribos de nômades e caçadores. Talvez daí possamos tirar a origem de muitos dos problemas políticos do continente, como os confrontos étnicos e tribais que ainda hoje causam genocídios em alguns países (apesar de que, é claro, é muita ingenuidade querer reduzir os problemas políticos africanos apenas à questão étnica, pelo menos tanta quanto é ignorá-la).

Avançando agora alguns milênios de história humana, podemos dizer também que, apesar da nossa vida social ter origem na África, a forma corrente de organização política é, em realidade, européia. Como qualquer um com o ensino médio completo sabe (ou deveria saber), o Estado-Nação moderno surgiu na Europa no fim da Idade Média; pode-se imaginar, então, que a maior variedade destes estados se encontram no Velho Continente, certo? De fato, enquanto as Américas possuem gigantes como os Estados Unidos, México e Brasil, a Europa se vira com pequenos notáveis como a Suíça e a Bélgica, sem contar ainda os países menores que cidades, como Andorra e Mônaco. Mesmo os seus maiores representantes, como a França e a Espanha, muitas vezes são menores que alguns estados brasileiros.

Acho até que podemos afunilar ainda mais o tema, olhando apenas, por exemplo, o futebol. Quem realmente acha que o Brasil é o país do futebol muito provavelmente se surpreenderia ao analisar a relação de alguns outros povos com o esporte, como a Alemanha ou talvez mesmo a Argentina. E acredito que em nenhum deles ele seja tão diversificado e presente na vida das pessoas como no seu país de origem, a Inglaterra (e antes que perguntem, não, eu não sou adepto a balela oficial da FIFA que diz que o futebol surgiu na China) – é, de longe, o país com mais clubes por metro quadrado, com dúzias de ligas, copas e associações, não só de profissionais como mesmo de amadores, bastante organizados com suas próprias ligas e clubes. O futebol chega a ser mais importante que a religião, como se pode ver pela realização de jogos oficiais em datas como o Natal ou a Páscoa; pode-se dizer que ele é mesmo uma religião leiga da classe operária, como Eric Hobsbawn o chamou uma vez.

E o que podemos concluir disso? Não sei. Talvez possamos reduzir os fatos sociais a elementos fundamentais como os genes, de forma que se explicaria como eles podem ter comportamentos semelhantes – um pouco como Richard Dawkins fez no passado com as ideias, quando criou o termo meme. Ou talvez haja uma explicação matemática, alguma teoria que lide com a difusão de elementos por espaços geométricos, e explique porque a maior concentração deles tenda a ficar próxima ao ponto de origem (numerófilos de plantão?). Ou, ainda, eu posso estar forçando o raciocínio e ignorando alguma evidência contrária a estas constatações, o que é bem possível também.

Em todo caso, vale a digressão.

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