Estórias Gerais

Muitos mitos assombram os quadrinhos e, bem, toda a literatura de massas nacionais. Sem enrolar muito, vamos logo àquela da qual eu quero discorrer: a de que não é possível criar um ambiente de fantasia e aventura com temas nacionais sem cair naquele didatismo enfadonho e chato de livros educacionais. Nada mais longe da verdade, e qualquer um com um mínimo de conhecimento da história do país vai saber reconhecer todas as falácias e falta de informação envolvidas. Ela é cheia de tipos aventureiros e exóticos – bandeirantes, cangaceiros, gaudérios, e outros que não fariam feio em aventuras de RPG -, e repleta de lendas, fantasia e embates homéricos, do tipo que deixaria aquelas ordens de cavalaria européias encolhidas de vergonha em seus cantos; a bem da verdade, do século XVI, pelo menos, até nem tanto tempo atrás, qualquer europeu com espírito aventureiro e vontade de fazer fama e fortuna pensava, em primeiro lugar, na América, incluindo aí o Brasil.

Toda essa exuberância fantástica da história brasileira, no entanto, parece ser ignorada pelo público nacional adepto das histórias de aventura, que prefere ficar lá com as suas ordens de cavalaria, códigos de conduta e masmorras inexploradas. E acredito que ainda vão ser preciso muitas obras como Estórias Gerais para que esse tipo de pensamento sequer comece a ser mudado.

A HQ, escrita por Wellington Srbek e desenhada por Flávio Colin, retrata o sertão mineiro do início do século XX, um universo à parte dentro do cenário nacional, que pouco tinha (e, em certa medida, ainda tem) em comum com o ambiente das cidades. É lá que acompanhamos o embate entre dois grupos de bandoleiros e o exército nacional, visto pelos olhos de um jornalista enviado para apurar a história de um dos líderes bandoleiros que, segundo dizem, tem parte com o diabo. O próprio embate, no entanto, raramente fica em primeiro plano na narrativa, que na maior parte do tempo se desdobra em histórias menores contadas pelos personagens; é principalmente a partir destes pequenos contos que o cenário da história vai se construindo, confundindo fantasia e realidade, mitologia e história, faroeste e feijoada.

Claro, nada disso chega a ser de fato novidade. Pode-se reconhecer boa parte destes temas em obras como Grande Sertão Veredas, por exemplo, que chega mesmo a ser citado no prefácio do autor; para quem conhece, é impossível não ficar com uma certa sensação déjà-vu. Outro problema da história é que, ainda que a arte do mestre Flávio Colin seja ótima na maior parte do tempo, parece faltar alguma initimidade em trabalhar com a narrativa de cenas de ação, que são um tanto apressadas e não empolgam tanto quanto poderiam. Mas são falhas facilmente passáveis na maior parte do tempo – a primeira, pela pouca quantidade de boas obras que explorem esse lado épico da história nacional, e também por ser uma boa história mesmo quando perde em originalidade; e a segunda, pelo fato de que as próprias cenas de ação não são assim tão fundamentais para o desenvolvimento do enredo, apesar de estarem muito bem encaixadas nele.

No fim, Estórias Gerais deixa bem a lição de que é possível, sim, tratar de temas nacionais com tom de épico de aventura, sem cair necessariamente no didatismo enfadonho ou na paródia escancarada, como qualquer um que já tenha lido Grande Sertão Veredas ou O Continente já devia bem saber. E, à parte de tudo isso, continua sendo uma excelente obra, que contém uma boa história e cenário envolvente, e ainda com a virtude de ser relativamente barata para uma HQ lançada em formato para livarias.

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