Sobre a Origem das Coisas

(ou O Poder de um ‘Obrigado‘)

É curioso pensar às vezes sobre a origem das coisas, como aquelas práticas tão enraizadas e cotidianas ao ponto de serem automáticas, repetidas ou observadas quase sem se refletir a respeito. Quem foi a primeira pessoa que vestiu uma pele de leopardo para se proteger do frio? Ou que teve a idéia de usar um copo para beber água, ao invés de se molhar todo bebendo direto do riacho? E o primeiro cara que ordenhou uma vaca, o que raios ele tava tentando fazer?

Mesmo se avançarmos no tempo e procurarmos por costumes mais recentes, na nossa própria sociedade pós-moderna/digital/capitalista/etc, podemos reparar em algumas coisas bem estranhas. Por exemplo, quando vamos a uma loja para comprar alguma coisa, e, após pagarmos no caixa, o/a atendente nos diz: “obrigado”. O que ele está agradecendo, afinal? O que há de tão especial ali que mereça um agradecimento? Quem deveria estar agradecido somos nós, que saímos de lá com o produto de que precisávamos, e não ele, que levou apenas um pedaço de papel, ou talvez nem isso, com o “dinheiro de plástico” dos tempos contemporâneos!

Claro, nem é preciso pensar muito para entender o que aconteceu. Ele estava agradecendo pelo fato de termos comprado naquela loja, e não em qualquer outra onde poderíamos ter feito. É uma daquelas inversões de valores que só fazem sentido no sistema capitalista: quem deve um agradecimento não é o beneficiado pelo serviço ou produto, mas o fornecedor dele, que não só teve todo o trabalho de fazê-lo como ainda deve nos agradecer por darmos a ele essa oportunidade. Mas realmente não faz muito sentido, quando paramos para pensar a respeito.

Podemos imaginar como começou. Provavelmente houvessem dois trabalhadores concorrentes – digamos, dois ferreiros rivais em alguma cidade qualquer no fim da idade média -, um deles muito eficiente, tanto na qualidade do serviço como nos preços cobrados (pois era capaz de aproveitar melhor suas matérias-primas), e o outro um tanto menos que o primeiro. O resultado dessa concorrência é óbvio: o primeiro logo monopolizou os principais pedidos, enquanto o segundo vivia em miséria e dificuldade. Sempre que recebia algum serviço, assim, ele não podia fazer outra coisa senão agradecer – até por ter noção de que, muitas vezes, era de fato uma caridade. Mas a sua situação logo começaria a mudar.

Imaginemos um pequeno diálogo, que possivelmente tenha acontecido então.

– Ué, você vai comprar suas ferraduras aqui? O ferreiro do outro lado da rua faz um trabalho muito melhor, e geralmente por um preço menor.

– Eu sei, eu sei. Esse aqui faz um trabalho pior, e mais caro. Mas ele me agradece toda vez que eu o contrato, e isso faz eu me sentir tão bem!

– Hum, acho que vou experimentar também.

O simples “obrigado” ao comprador, assim, se tornou um valor agregado, além do mero trabalho que devia ser feito. Logo o segundo ferreiro, a despeito da sua pior qualidade, começou a ter a maioria dos serviços, e talvez tenha até aumentado ainda mais o preço cobrado, uma vez que podia se dar ao luxo de escolher os melhores pedidos.

O primeiro ferreiro, por outro lado, logo se viu obrigado (sem trocadilho) a agradecer também aqueles que o contratavam, para não perder toda a clientela. Mas não o fez sem conseqüências para a qualidade do trabalho que oferecia – afinal, dever agradecimentos aos próprios ingratos que o faziam trabalhar horas e horas todo o dia certamente diminuiu a sua motivação.

E assim a qualidade das ferrarias, como provavelmente a de outros serviços pegos no mesmo círculo vicioso de agradecimentos, caiu drasticamente nos anos seguintes, estando para sempre condenada a um patamar inferior ao que atingiria de outra forma. Tudo por causa de um “obrigado”!

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1 Response to “Sobre a Origem das Coisas”


  1. 1 Willy Barp 21/04/2010 às 12:54

    sabe que é mesmo!
    =D
    muito boa essa sua análise!


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