Luzes de Rarnaakk

O pó voou quando o grande tomo foi jogado por sobre a mesa, sujando ainda mais as vestes do jovem acólito que o retirara. Cuidadosamente, ele virou as páginas, olhando com calma todo o seu conteúdo. Faziam já vários meses que estava absorvido na pesquisa, sobre um tema que sempre fora de grande interesse seu.

Quase 300 anos haviam se passado desde o fim da Guerra das Alianças, como ficou conhecido o levante dos goblinóides sob o comando do herói bugbear Thwor Ironfist, e a situação era bem diferente – a maior prova disso era o próprio prédio onde o jovem pesquisava, o Segundo Templo de Tanna-Toh de Rarnaakk, casa dedicada à deusa humana do conhecimento na capital goblinóide. Depois das décadas de conflito, as novas nações do sul finalmente foram reconhecidas pelos reinos do norte, e ambos passaram a conviver em relativa pacificidade. Foram firmados acordos comerciais e diplomáticos entre os continentes, tendo como resultado um grande intercâmbio cultural e populacional. Diferente de séculos passados, naqueles dias um orc viajando pelas estradas de Deheon dificilmente seria tido como um assaltante.

Outro resultado do fim da guerra foi a reclusão da raça élfica, desencantada e indignada pela solução encontrada para a paz. Poucos foram os que aceitaram os novos reinos, ou que sua bela Lenórienn permanecesse como a suja Rarnaakk: iniciaram uma grande campanha de peregrinação para o norte, passando pelo Deserto da Perdição e pelas perigosas áreas de Tormenta da região, e soube-se décadas depois que um grande império havia sido erguido. Tentativas de estabelecer relações diplomáticas, no entanto, foram infrutíferas – longevos e rancorosos, ainda deve demorar muito para aceitarem o ocorrido, de forma que ainda então preferiam se manter isolados. Poucas as famílias élficas permaneciam no Reinado, e a quantidade diminuía a cada ano.

Se as conseqüências da guerra eram claras, no entanto, o mesmo não se podia dizer sobre o próprio conflito. Muitos de seus eventos e fatos estavam ainda envoltos em mistério e questionamentos, atiçando a curiosidade de pesquisadores como Barunam Skylatt, o acólito de Tanna-Toh que pesquisava os tomos do templo em Rarnaakk. Mais especificamente, sua pesquisa tratava da famosa profecia que previu a ascenção e a queda do general goblinóide:

Quando a sombra da morte passar pelo globo de luz
Trazendo ironicamente a vida que trará a morte
Terá surgido o emissário da dor
O Arauto da Destruição
Seu nome será cantado por uns
E amaldiçoado por outros
O sangue tingirá os campos de vermelho
Um rei partirá sua coroa em dois
E a guerra tomará a tudo e a todos
Até que a sombra da morte complete seu ciclo
E a flecha de fogo seja disparada
Rompendo o coração das Trevas*

Não havia dúvidas quanto ao cumprimento das primeiras partes da profecia. Thwor Ironfist nasceu, segundo todos os relatos existentes, durante um eclipse da lua – a “sombra da morte” que trouxe “ironicamente a vida que trará a morte”. Não há dúvidas também que tenha sido um legítimo emissário da dor e Arauto da Destruição – sob seu comando, formou-se a Aliança Negra, que gerou um dos maiores conflitos armados da história recente, tingindo grandes campos de batalha com o vermelho do sangue; e o “rei que partiu a coroa em dois” certamente fazia referência à divisão do Reinado e a formação do Império de Tauron, partindo em duas a coroa do antigo Imperador-Rei Thormy.

O fim da profecia, no entanto, era confuso e pouco conclusivo. Por muito tempo se acreditou, por exemplo, que o “fim do ciclo da morte” fosse um segundo eclipse lunar, e que Thwor Ironfist fosse aquele que teria seu coração de Trevas rompido pela flecha de fogo. No entanto, não se tinha notícia de outro eclipse até anos depois do fim da guerra. Sabe-se também que o general bugbear não morreu em batalha, vencido por algum adversário, mas sim na cama, vítima de uma doença comum em goblinóides de idade avançada. A guerra acabou pouco tempo depois, com um acordo de paz que garantiu aos goblins direitos sobre os territórios conquistados ao sul desde que desocupassem as terras do norte.

Era isso o que mais intrigava os estudiosos. O fim da guerra foi completamente diferente do que se esperava pela profecia – ou pelo menos do que se entendia dela. Se Thwor Ironfist não era o “coração das Trevas”, afinal, quem, ou o quê, seria? E a flecha de fogo? Essas perguntas foram repetidas por estudiosos e acadêmicos durante séculos. A melhor conclusão a que chegaram foi a de que o “fim do ciclo da morte” se referia simplesmente ao fim da guerra, e não a qualquer outro tipo de evento místico ou astrológico – mas restavam ainda as outras duas questões.

E eram essas as respostas que Barunam tentava descobrir. Pesquisando em diversos locais, encontrou alguns documentos bem interessantes; descobriu, por exemplo, que Yuden possuía à época da invasão de Tyrondir um plano virtualmente infalível para derrotar a Aliança Negra, que recebeu o nome de Operação Flecha de Fogo – mas provavelmente tenha sido o plano que fazia referência à profecia, e não o contrário. Outra descoberta interessante havia sido o relato de um artista elfo refugiado da antiga Lenórienn ocupada pelos hobgoblins, relatando sobre como ele havia recuperado a fé na sua deusa ao ver o trabalho de pintura de um soldado hobgoblin. Uma possibildade interessante havia passado pela mente do jovem acólito então – a de que o coração das Trevas seria, na verdade, o preconceito e a ignorância das outras raças ante os goblinóides, sentimentos destinados a ser vencidos pelas façanhas e a ameaça da Aliança Negra.

Era uma idéia bonita, poética até, mas jamais a levara muito a sério, até que, naquele momento, pesquisando no templo de Rarnaakk, ao olhar por sobre o tomo que examinava, se deparou com uma descoberta inesperada. Pendurado em uma parede, havia um quadro, datado, segundo a inscrição, aproximadamente da época da ocupação de Lenórienn, retratando um hobgoblin atacando uma elfa em meio a um campo de batalha. Era uma bela obra, tecnicamente perfeita. No entanto, um detalhe chamou a atenção do pesquisador, fazendo ele soltar uma grande gargalhada que ecoou por toda a sala.

Ao fundo, voando atrás dos personagens, estava uma flecha pegando fogo.

*Nota: a profecia é de autoria de J. M. Trevisan, e consta nos livros do cenário de RPG Tormenta. Todos os direitos reservados.

Anúncios

0 Responses to “Luzes de Rarnaakk”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 195,155 visitas

%d blogueiros gostam disto: