Arquivo para maio \31\UTC 2010

Bola 8 na Caçapa

Tac-tac-tac! As bolas batem-se, batem nas bordas de madeira e caem nas caçapas.

– Bela jogada. – a admiração era genuína: três bolas numa tacada só.

– Obrigado. – sabia que havia sido mais sorte do que técnica, mas apreciou o elogio.

Silêncio. Olharam a mesa, agora com mais calma.

– Tu encaçapou a bola preta.

– Pois é.

Silêncio, de novo.

– Perdeu.

– Pois é. – e uma vez mais, silêncio. – Vou lá pegar outra cerveja.

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Cara ou Coroa

– Cara eu, coroa você.

– Certo.

Jogou a moeda, que girou no ar uma, duas, três vezes. Apenas uns poucos segundos passaram, mas cada milésimo parecia conter um século inteiro.

Caiu, finalmente. Os dois se olharam longamente, um misto de ansiedade, medo e nojo refletido nos olhos, e se viraram para a moeda no chão.

Cara.

Ao menos já sabiam o que almoçar.

Des-encontros

O viajante se recostava sobre uma parede, esperando um momento passar, quando a viu outra vez: a sombra daquele passado perdido, que havia deixado para trás em outro devaneio qualquer sobre futuros inexistentes. Ela passou rapidamente pela sua frente, como se não o visse, ou não o reconhecesse.

Mas ele a reconheceu, e de súbito tudo aquilo que deveria estar afogado nas marés do inconsciente subiram novamente à superfície. Se viu outra vez confuso e perdido, enquanto sonhos havia tanto superados tornavam a atormentá-lo; quis alcançá-la, iluminá-la, agarrá-la, levá-la consigo – apenas não queria perdê-la outra vez.

Mas perdeu. Olhou-a uma última vez, virou para o caminho oposto e seguiu sua viagem sem rumo certo pelos cantos perdidos da consciência.

Fúria de Titãs

É um pouco engraçado, para quem já esteve em uma mesa de RPG ao menos uma vez, ver como essa onda recente de filmes épicos é tão descaradamente feita por nerds que passaram a adolescência rolando dados em masmorras imaginárias. Não digo nem a respeito dos temas – até porque em séries como Underworld e O Senhor dos Anéis a influência já é por demais óbvia -, mas na própria forma como eles são escritos e realizados. Pode parar pra reparar: os personagens principais sempre seguem os mesmos arquétipos – sempre há o rogue, o warrior, o sage… -, e o roteiro segue tão à risca a jornada do herói campbelliana que poderia ter saído de algum videogame japonês. O ponto extremo possivelmente seja, acredito, Rei Arthur, aquele com o Clive Owen e a Keira Knightley, em que até os combates parecem acontecer por turnos, com cada personagem tendo direito a exatamente um golpe em um inimigo antes de a câmera passar para o próximo. Isto é, pelo menos até o lançamento desta nova versão do Fúria de Titãs.

O filme, que resgata um daqueles velhos clássicos do Cinema em Casa do SBT, realmente eleva a idéia do “cinema de RPG” a um novo nível: você consegue imaginar até os jogadores por trás de cada personagem. Há lá o cara tímido que não fala muito e só quer rolar dados; o ex-jogador de Vampiro: A Máscara que escreveu um histórico de dez páginas mas não teve tempo de revelar nem metade; a única menina do grupo; até o par de malas que fizeram personagens totalmente fora do contexto e só querem fazer piadinhas em off sobre cavalgar escorpiões gigantes, além de faltarem nas últimas sessões pra jogar videogame, forçando o mestre a tirá-los da história com alguma desculpa esfarrapada qualquer. Mesmo os vilões e personagens secundários (vulgo NPCs) você consegue imaginar sendo interpretados por um mestre empolgado – pelo menos a voz rouca do Hades me lembrou muito bem as peripécias dramáticas de alguns com quem já joguei, eu mesmo entre eles.

Com tudo isso, é natural esperar que o roteiro não vá muito além do que se teria em uma aventura pronta genérica. Não espere aprender muito sobre mitologia grega – a versão contada da história de Perseu é bem livre e sincrética, com direito a krakens e djinns, como, aliás, já era no filme anterior. A motivação dos personagens passa por todos os clichês clássicos, da vingança ao salvamento da princesa, e na verdade só servem de desculpa para reuni-los e colocá-los em marcha pelo mundo (já que todo filme épico precisa de uma cena de viagem por um deserto, montanha ou geleira com trilha sonora incidental), enfrentando monstros e reunindo itens mágicos para a batalha final. Mas os monstros são legais – de escorpiões gigantes ao kraken, passando pela medusa e um Caronte que parece saído de um filme do Guillermo del Toro -, e rendem boas cenas de ação, apesar do excesso de câmera lenta obrigatório desde 300 incomodar. Os deuses também ficaram muito bacanas visualmente, com direito a homenagem aos Cavaleiros do Zodíaco.

Outro ponto importante de destacar é que o filme está disponível para ser visto em 3D. Pessoalmente, no entanto, não vi nada de muito impressionante neste aspecto que justifique a diferença de preço – não sei se sou eu que não consigo me enganar pela ilusão (também não vi muita diferença nos poucos outros filmes que assisti nesse formato, incluindo Avatar), ou se os filmes atuais ainda não conseguem aproveitar o recurso de forma adequada. A única cena que valeu o incômodo dos óculos foi a abertura, que conta a história dos deuses e da criação dos homens a partir das constelações, e ficou bastante bonita em três dimensões.

Em todo caso, para resumir a ópera toda, consigo imaginar muita gente ficando decepcionada com esta nova versão de Fúria de Titãs, então pense bem no que você quer ver antes de ir atrás; mas também pode ser um filme bem divertido para quem já rolou um d20 uma vez na vida e souber entrar no clima. Tudo bem, ele avacalha com toda mitologia grega pra contar uma historinha tosca de aventura de RPG, mas pelo menos tem uns monstros legais…

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

Entrei em contato pela primeira vez com o intrigante trabalho do Dr. Thackery T. Lambshead através de alguns escritos do Dr. China Miéville, onde constava o seu relato bastante curioso a respeito da Praga de Buscard, retirado do famoso Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Tendo meu interesse despertado, busquei saber mais a respeito, mas à época o volume era disponível apenas em poucas e esparsas cópias britânicas e norte-americanas, de forma que não obtive sucesso em adquiri-lo.

Recentemente, no entanto, através da intervenção de uma conhecida a quem sou por isso muito grato, soube que era iminente o lançamento de uma edição portuguesa da importante obra, de forma que fui atrás de informações. Descobrindo também que estavam atrás de relatos de terras lusófonas para adicionar ao material original, prontamente preparei um pequeno artigo a respeito do Cancro de Meme, esta odiosa doença que há anos tem ocupado minhas pesquisas. Para minha surpresa, o relato foi considerado digno de ser incluído junto aos demais, e assim me uni a nomes como o dos Drs. Alan Moore, Neil Gaiman, Michael Moorcock e outros nesta belíssima edição da editora lusitana Saída de Emergência.

Deixo, portanto, minhas sinceras recomendações a respeito deste lançamento, para aqueles que por ventura forem capazes de adquirir livros de além-mar.

Superman: Identidade Secreta

Existe uma certa tendência em histórias de super-heróis nos últimos 30 ou mais anos, que é de tentar mostar como seriam esses super-heróis se eles realmente existissem no nosso mundo. Apesar de essa permissa já ter nos dado algumas histórias ótimas, como a belíssima Marvels, também assinada por Kurt Busiek, a verdade é que na maioria das vezes isso se resume a aumentar o grau de violência dos roteiros e incluir alguns temas “adultos”, como uso de drogas ou aborto, geralmente sem resultados muito interessantes. É raro encontrarmos uma história realmente adulta, que surpreenda e emocione pela sua sensibilidade, como é o caso de Superman: Identidade Secreta, de longe a melhor história do Super-Homem que já li.

A mini-série de quatro edições começa nos mostrando a vida do jovem Clark Kent, um adolescente comum do Kansas com muito pouco em comum com o seu xará mais famoso, e que na verdade sofre bastante com as piadas de familiares e colegas de escola devido ao nome. Tudo muda, no entanto, quando descobre que possui mais em comum com ele do que o nome, o que faz a sua vida tomar alguns rumos inesperados, enquanto segue tentando ter uma vida normal.

O roteiro de Busiek é muito bem desenvolvido e de uma sensibilidade impressionante. A forma episódica como a série é dividida é perfeita: cada edição trata de um tema específico (a juventude, a família, etc), em uma história com início, meio e fim, que se completa no quadro maior quando lemos todas juntas. Assim, por trás das super-façanhas e conspirações governamentais, podemos ver no sub-texto toda a vida de um indivíduo especial tentando viver em meio às pessoas comuns – e tenho certeza que todo mundo já se sentiu (ou ainda se sente) de forma semelhante em algum momento da vida. E o final é realmente emocionante, como poucas histórias em quadrinhos, ainda mais de super-heróis, conseguem ser.

A arte de Stuart Immonen também não decepeciona. Em geral prefiro estilos mais caricatos à estilos fotográficos como o usado, mas deve-se considerar que, para o tema proposto, não havia como ser diferente. A narrativa gráfica é ótima, mantendo bem o ritmo da história; só o constante uso de quadrinhos de página inteira pode parecer exagerado algumas vezes, embora não chegue a incomodar.

Enfim, Superman: Identidade Secreta é uma ótima história, que consegue ser sensível e adulta sem precisar apelar pra violência ou erotismo. É o tipo de história que nos lembra de toda mágica que sentíamos quando tínhamos 8 anos e pensávamos que, ao amarrar um lençol nas costas como uma capa, poderíamos sair voando pela janela.

Noir

– Você é o detetive Philip Marlowe? – perguntou a voz ameaçadora ao telefone.

– Não. – respondi, antes de desligar e voltar para cama.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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