A Máquina

Augusto acordou no meio da noite, agitado. Aos poucos, lembrou do sonho que tivera: ele, deitado na cama, pensando em como as folhas de verão não eram tão bonitas como as do outono. Preciso comprar aquela máquina, refletiu em seguida, e voltou a dormir – mas não sem antes divagar sobre como algumas pessoas demoram a dormir mesmo quando estão tentando.

Acordou no dia seguinte, tomou café e foi para o escritório. No carro, lembrou das palavras do médico que visitara na semana anterior. O seu problema, dizia ele, é que você pensa demais. Que tipo de problema era aquele? E que tipo de pessoa tinha um problema desses?

O dia transcorreu sem muitas mudanças de rotina. Fez cálculos, durante os quais pensou no nível de abstração que é necessário para se criar um número. Atendeu telefonemas, e refletiu rapidamente sobre as relações entre pessoas que nunca se viram, concebendo entre as conversas uma pequena história em que são os números que se relacionam. No almoço, divagou sobre como algumas pessoas insistem em considerar que um x-salada não é uma refeição completa. Finalmente, ao fim do dia, saiu do escritório e foi até uma loja de eletrônicos.

Procurou com alguma pressa entre as prateleiras, pensando em como a pressa poderia estar atrapalhando a busca mais do que ajudando, até que encontrou a máquina que procurava. Era o último exemplar da loja: uma caixa cúbica branca, com o rosto estampado de uma bela moça de olhos azuis vestindo o aparelho. Olhou para o preço e achou um pouco caro, mas logo concluiu que era um valor justo para o que ele prometia fazer.

Foi até o caixa pagar, e reparou na atendente, uma jovem de cabelos escuros e olhos castanhos envoltos em um par de óculos de aro fino – e como ele era atraído por mulheres de óculos! Pensou rapidamente que talvez poderiam fazer alguma coisa juntos, e em como ela ficaria sem aquele uniforme. Talvez ele pudesse…

Não! Precisava parar. Pagou, correu para o carro e dirigiu até a casa, pensando no caminho sobre a doença de que sofria. Chegou no apartamento quase aos prantos, os olhos marejados já turvando a visão, sentou na poltrona, e abriu sem qualquer cuidado a embalagem. Deu uma olhada rápida sobre as instruções, ligou o aparelho na tomada, e vestiu a estranha tiara eletrônica; e então… Nada.

Vazio.

Tranqüilidade.

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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • Faltou o Douglas canastra suja pra resolver esses pênaltis. 3 hours ago
  • O narrador tinha até esquecido como gritava gol. 4 hours ago
  • Sigo um Portaluppista dos Últimos Dias convicto, mas sejamos sinceros com nós mesmos. 4 hours ago
  • Desde o primeiro jogo que escalou reserva e desistiu do outro campeonato. 4 hours ago
  • Pode rolar qualquer coisa, o time que fizer um gol mata esse jogo. Mas o Renato bem tá merecendo esse resultado há uns seis meses. 4 hours ago

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