Stardust

Neil Gaiman é um autor um pouco complicado de resenhar, por causa de uma certa tendência que possui de formar aquele tipo de tiete chato que vai elogiar qualquer coisa que ele escreva antes mesmo de ler. Assim, se a resenha for positiva, pipocam comentários sobre como ele é o máximo e que sequer citam a obra que se está resenhando; e se for negativa, vai dar margem para começar uma daquelas discussões intermináveis de internet na qual nenhum dos lados está disposto a abrir mão do seu ponto de vista. Felizmente, no entanto, essa tietagem toda é justificada em boa parte dos casos, já que Gaiman é em geral um autor com mais acertos do que erros. No entanto, alguns de seus trabalhos, mesmo quando bons, acabam sendo valorizados um pouco além da conta. Stardust (que na edição nacional recebeu o subtítulo de O Mistério da Estrela) vai um pouco por este lado.

O livro narra as aventuras de Tristran Thorne, habitante de Wall, uma pequena vila inglesa de meados do século XIX, que parte em uma busca por uma estrela cadente para dar de presente à garota por quem ele nutre uma daquelas paixões platônicas típicas da adolescência, e acaba por isso indo parar em um mundo mágico repleto de seres maravilhosos. É uma história que se assume desde o princípio como juvenil, daquelas até um pouco bobinhas, do tipo em que um garoto aparentemente comum parte em uma jornada fantástica em direção, entre outras coisas, à maturidade – mas isso não chega a ser necessariamente um demérito, claro; apenas acho que seria uma história juvenil melhor não fosse o seu protagonista um personagem um tanto bobinho demais na maior parte do tempo, apesar de que isso também é um mal de heróis juvenis em geral.

Em todo caso, se a história em si deixa a desejar, o grande mérito do livro está no mundo fantástico que ele constrói como cenário. O ambiente de Stardust transborda magia e fantasia; é um mundo de contos de fadas completo, por vezes de forma bem exagerada e até cômica, onde todo animal é algum ser enfeitiçado e pequenas rimas infantis ganham status de informações privilegiadas. A própria leitura do livro lembra bastante certos filmes clássicos de fantasia dos anos 80, como Labirinto ou História Sem Fim, e não é por acaso que a versão cinematográfica da obra tenha sido bastante comparada a eles. É certo que algumas vezes esta magia toda parece passar do ponto, soando mais como desculpa para resolver situações em que o autor coloca os personagens e da qual não parece haver outra saída – o velho truque literário do deus ex machina; mas é justamente nas descrições deste ambiente fantástico, com suas bruxas ambiciosas e nobres traiçoeiros, que brilha a prosa de Gaiman, e justifica um pouco aquela tietagem toda que existe em cima dele.

Stardust é, enfim, um belo exemplar daquilo que os norte-americanos chamam de pageturner, ou vira-páginas, do tipo que você vai lendo página após página com tanta naturalidade que, quase sem perceber, já se vê chegando no final. Juvenil e bobinho que seja, até que é uma boa história juvenil e bobinha, que, acredito eu, tietes do Neil Gaiman e qualquer um com algum gosto pelo fantástico hão de achar no mínimo agradável.

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