Pra não dizer que não falei da Copa (e do Saramago)

E chegamos, então, ao perído de mais uma Copa do Mundo, e é claro que muitos esperam que eu venha falar algo a respeito, por ser um interessado algo mais que casual em futebol e até mesmo, nas suas devidas proporções, pesquisador acadêmico do assunto. Não posso decepcioná-los, é claro, e até me empolguei e acabei escrevendo um texto deveras, er… Longo, expondo algumas de minhas opiniões pessoais a respeito.

A verdade, que talvez seja uma surpresa para alguns, é que eu realmente não consigo me empolgar tanto com o futebol de seleções quanto me empolgo com o futebol de clubes. Não consigo deixar de ver nelas resquícios de uma das mais complicadas e, quero acreditar, anacrônicas instituições ocidentais, que é a nação moderna, e dos sentimentos de nacionalismo que já geraram tantas guerras e problemas. Quer dizer, não é à toa que a Copa do Mundo, por exemplo, passa a ser organizada a partir da década de 1930 – é justamente o período chamado por Eric Hobsbawn de “a era de ouro dos nacionalismos”, quando a construção das principais nações modernas estava consolidada, e os sentimentos de pertencimento inflamados buscavam formas de se expor e criar campos de conflito, fossem simbólicos (como o futebol e esportes em geral) ou reais (como as guerras mundiais).

É realmente curioso que, criada num contexto deste tipo, a Copa (e, em menor escala, as Olimpíadas) siga como um evento de tão grande porte, capaz de mobilizar e parar países inteiros para assisti-la, principalmente após algumas décadas em que tantos tentaram e outros lutaram para anunciar o fim iminente das fronteiras nacionais. É uma das provas, entre tantas outras, de que tais tentativas falharam em grande medida. Mesmo um jogador que passe quinze anos da sua vida viajando por diversos países europeus a cada quatro anos veste uma camisa com cores de uma bandeira latino-americana e se diz brasileiro, ou argentino, ou uruguaio. A globalização do esporte não mudou isso – certamente criou formas diferentes de como pode acontecer, como os jogadores filhos de imigrantes, nascidos em ex-colônias, ou mesmo os simplesmente naturalizados, mas essencialmente o que se tem ainda é um tipo de conflito de nações, ainda que simbólico e (teoricamente) pacífico.

Pessoalmente, acho que meu lado mais romântico gostaria de poder me anunciar como um cidadão do mundo, antes de brasileiro, ou gaúcho, ou porto alegrense (mas não antes de gremista). No fundo, claro, sei que isso não passa de um idealismo meu, inviável e impraticável na realidade, mas é por isso, provavelmente, que eu raramente me empolgue em de fato torcer pela seleção brasileira. Não interessa o fato de eu, por um acaso do destino, ter nascido em uma cidade que fica dentro de um estado que faz parte de um país chamado Brasil – isso me diz tanto sobre para quem eu devo torcer quanto quanto o fato de eu ser destro, ou branco, ou ter olhos verdes. Simplesmente não consigo me identificar com o Brasil da mesma forma que me identifico com o Grêmio, em parte justamente pelo fato de o segundo não necessitar que eu o vincule a qualquer outra entidade ou elemento que não as suas equipes de futebol. Mesmo o Grêmio enquanto representante do futebol gaúcho é uma vinculação relativa, já que o Internacional também a possui, e assim qualquer tipo de “nacionalismo gaudério” teoricamente me impediria de secá-lo contra times do centro ou de fora do país (coisa que avós e tias desentendidas do futebol vez por outra me cobram).

Isso não quer dizer, claro, que eu nunca torça para a seleção, ou que efetivamente torça contra ela. Em geral sou indiferente, mas em alguns momentos, devido a diversos fatores, eu posso tomar alguma posição. Em 2002, por exemplo, eu realmente torci pelo Brasil, em grande parte devido ao fator Felipão, pela sua identificação com o Grêmio – identificação esta que inclusive já me foi um tema de trabalho na faculdade. Já em 2006 eu não me empolguei, tanto que fui um dos poucos a adivinhar quem seria a campeã (sim, eu apostei na Itália).

E agora em 2010, eu casualmente me encontro torcendo novamente. Não tem nada a ver com o fato de o Dunga ser gaúcho – até porque seria um pouco contraditório de minha parte criticar os nacionalismos só pra cair em seguida nos regionalismos. Até acho essa história toda de bairrismo e tradicionalismo divertida enquanto brincadeira, mas não mais do que isso. Me considero um gremista antes de um gaúcho, e isso até me colocaria contra o Dunga, que, afinal, é identificado justamente com os meus rivais. Enfim, se não tenho dificuldade em torcer contra o Inter, certamente não teria também em torcer contra ele.

Por outro lado, no entanto, existe algo que me aborrece ainda mais do que todos estes ufanismos patrióticos no futebol, e da qual eu já falei anteriormente: é aquele meu velho ranço com o jornalismo e os jornalistas. O que me faz torcer pelo Dunga, antes de tudo, é a atitude que ele assume nas entrevistas com os órgãos de imprensa, não se furtando de provocar e expor aqueles que ainda o perseguem, mesmo após ele ter ganho praticamente tudo o que disputou nos último quatro anos. Não digo que seja uma atitude corajosa – muitas vezes ela se aproxima mais de ser uma paranoia mesmo -, mas é ótimo ver ele lembrando de comentários e afirmações de jornalistas de um ano ou dois atrás, que todos acreditavam (arrisco dizer até que esperavam) já estar esquecidas. E, convenhamos, boa parte desses jornalistas de fato merecem esse tratamento – acompanhando algumas entrevistas, como a que ele concedeu após a convocação final para a Copa, vi ele aceitando até bem algumas perguntas que deram vontade, a mim, de levantar e quebrar alguns narizes. Há um longo caminho da provocação até a falta de respeito pura e simples, e ele foi percorrido mais de uma vez nesses últimos seis meses.

Assim, se torço pela seleção este ano, isso não tem nada a ver com valores patrióticos, nacionalismos ufanistas ou o que for. Tem a ver, pura e simplesmente, com a minha vontade de ver o sorriso amarelo na cara de alguns comentaristas quando o Dunga descer do avião com a taça de campeão na mão.

Enfim. Alguns poderiam me perguntar, então, considerando que sou tão crítico assim dos nacionalismos esportivos, e que não consigo ver o mesmo sentido em torcer para uma seleção nacional que vejo quando torço para um clube de futebol, o que me faz assistir e me interessar pela Copa do Mundo. Quem me segue no twitter vê que eu acompanho a maioria dos jogos, e comento alguns deles quase em tempo real. Não estaria sendo contraditório?

Acho que, no fundo, eu não consigo escapar do fato de que, mais do que tudo, eu realmente gosto de futebol, e do esporte competitivo de maneira geral. Não que eu mesmo seja um grande esportista (muito pelo contrário), mas acho curioso observar todo este universo que existe em torno deles – como já destaquei em algum outro momento, ele tem muito de uma mitologia na sua composição, uma espécie de liturgia laica, criadora de heróis e epopéias, e é difícil para mim, enquanto pseudo-escritor de fantasia, não me interessar por isso. Assim, se não me interesso pelas seleções enquanto representações nacionais, não consigo deixar de me interessar por elas enquanto equipes de futebol, pura e simplesmente, com suas próprias histórias, dramas e enredos particulares.

Esta é uma das razões, aliás, pela qual eu geralmente acho difícil torcer pela seleção brasileira. O considerável sucesso do futebol nacional nos últimos anos – se não dos próprios clubes, dele enquanto paradigma, como também já destaquei em algum outro momento – parece ter dotado a seleção, bem como o país e os jornalistas esportivos, de uma certa soberba profundamente irritante, como se todas as partidas e competições, e principalmente a Copa do Mundo, já começassem ganhas, e, quando isso não se confirma, é muito mais porque não fomos capazes de atender às expectativas do que por algum mérito que os adversários, por qualquer motivo que seja, possam ter. Isso é facilmente observável quando analisamos as últimas decepções passadas pela seleção – o que causou a derrota na Copa de 1998, por exemplo? Foi o futebol elegante do Zidane, que depois seria três vezes o melhor jogador do mundo, ou o ataque epilético do Ronaldo antes do jogo decisivo? E na Copa de 2006, fomos eliminados por uma seleção que só perderia o título nos pênaltis e ainda teria o craque da Copa segundo os organizadores, ou pelo Roberto Carlos ajeitando as meias na cobrança da falta que resultou no gol? A história oficial certamente fez as suas opções. A soberba também explica, aliás, a razão pela qual torço pelo Dunga este ano – se não me importo de ter a soberba nacional satisfeita, é porque adoraria ver contradita a soberba dos jornalistas esportivos anteriormente referidos.

Isso nos leva, então, à questão de que outras seleções, além da brasileira, eu gostaria de ver campeã este ano. Acho que aquela que mais me agradaria é, provavelmente, a da Holanda. A equipe holandesa atual, com nomes como Robben, Sneijder e van Persie, é provavelmente a melhor do país desde a grande geração dos anos 1990, que tinha Frank de Boer, Seedorf e Bergkamp, e que foi vencida duas vezes pelo Brasil em jogos hoje considerados antológicos. Uma vitória da Holanda faria justiça não apenas àquela, mas também ao famoso Carrossel Holandês dos anos 1970.

Outra equipe me interessaria ver campeã é a Sérvia. Sim, a Sérvia – não seria nenhuma zebra, apesar de ser certamente pouco provável. Pelo que ando vendo, muitos tendem a subestimá-la, provavelmente por não lembrar de suas participações passadas, mas a verdade é que esta é a primeira vez em que ela participa, de fato, como Sérvia (descontando-se, talvez, 2006, quando representava a então recém-extinta nação de Sérvia e Montenegro). Na verdade, ela foi parte da hoje extinta Iugoslávia, que sempre foi uma seleção chata de se enfrentar, e tinha como base justamente os jogadores sérvios, junto a alguns croatas e não mais do que um ou dois de qualquer outra região. Assim, muitos ignoram a tradição do futebol sérvio, e nem se dão conta de que a equipe atual conta com jogadores como o meio-campista Stankovic, campeão europeu pela Inter de Milão, e os zagueiros Ivancovic e Vidic, que jogam no Chelsea e Manchester United, respectivamente.

Uma vitória da Sérvia, aliás, faria justiça não apenas à tradição futebolística da ex-Iugoslávia, como também da Europa oriental como um todo, que já teve grandes seleções e jogadores, da Hungria de Puskas à União Soviética de Yashin, que muitas vezes chegaram perto mas nunca conseguiram de fato se consagrar em uma Copa do Mundo. Talvez poucos percebam, mas, além de latino-americanos e africanos, é muito comum ver os grandes times da Europa ocidental buscando os jogadores dos países do leste, que ainda possuem economias frágeis após décadas sob regimes socialistas. Exemplos poderiam ser os próprios sérvios já citados, além de Shevchenko, Arshavin, Rosicky, Peter Cech… Historicamente, foi até comum que tentassem aliciar aqueles que cruzavam a Cortina de Ferro para fugir do mundo comunista – foi assim que Puskas, por exemplo, tornou-se ídolo do Real Madrid, e chegou mesmo a disputar a Copa de 1962 pela Espanha, numa época em que ainda era possível trocar de seleção. Outra equipe que, no caso de uma improvável vitória, estaria fazendo justiça a essa tradição é a Eslováquia, que pode reivindicar a memória da antiga Tchecoslováquia, duas vezes vice-campeã (desconfio, no entanto, que o lado forte no futebol nesse caso tenha ficado com a República Tcheca). E quanto à Eslovênia… Bem, é sempre bom lembrar que ela não é a Eslováquia.

Do resto da Europa, eu por algum motivo sempre simpatizo com os times da Alemanha. Talvez seja algum resquício dos meus antepassados, a minha ascendência germânica falando mais alto; ou talvez seja o próprio estilo tradicional do futebol alemão, de aplicação e disciplina, com jogadores apenas acima da média, raramente um ou dois fora de série, atingindo um nível maior pela entrega e participação. Em certo sentido, é a antítese daquela soberba brasileira que comentei anteriormente, que parece sempre acreditar que um passe de mágica inesperado, um deus ex machina em forma de drible, vai resolver tudo de uma hora para outra.

Como eu assisto bastante futebol inglês por influência do meu irmão, geralmente acabo conhecendo e gostando dos jogadores deste país também – especialmente, no time atual, o Rooney, que, acredito, mereceria a consagração de uma Copa do Mundo, se torcer pra Inglaterra de maneira geral não fosse tão… Nhé. Já a Espanha é um tradicional fogo de palha; é claro que eu também era um dos que me enganava e apostava no seu favoritismo antes da Copa, e certamente há muito tempo ainda para uma recuperação, mas, depois da estreia frustrante, não sei se me empolgaria tanto em vê-la campeã. Portugal teve a sua chance em 2006, com o Felipão. E a Itália geralmente também tem trajetórias interessantes, passando adiante contra todas as expctativas na base das gloriosas retrancas, até que, meio que sem ninguém perceber, já é uma tetracampeã. Mas eles são os atuais campeões, e acho que podem passar a vez.

Indo para outro continente, acho que seria muito bacana, também, termos um campeão africano como o primeiro não-europeu e não-americano, e justamente na Copa a ser disputada no continente. Certamente, no entanto, não acredito que os bafana bafana possam ser estes campeões – empolgação da torcida e apoio da imprensa à parte, a verdade é que a África do Sul simplesmente não é um time bom o bastante para isso, e é provável que sequer se classificaria se não fosse o país-sede. Até acho que, com alguma sorte e uma França abalada, possuem chances mínimas de ir até as oitavas-de-final, mas não devem ir muito além.

Acharia muito mais interessante, por outro lado, um título da Costa do Marfim. Seria a coroação do futebol africano que tem surpreendido o mundo desde as seleções clássicas da Nigéria e Camarões dos anos 1990, e também de uma ótima equipe, com jogadores titulares de grandes clubes europeus, e um grande personagem que é o Didier Drogba. Como segunda opção, talvez Gana pudesse suprir essa função, sendo a provável segunda melhor seleção do continente na competição. (E só não digo da África como um todo porque uma equipe pentacampeã continental como o Egito ficar de fora para dar lugar à Argélia é uma destas coisas que só o Nelson Rodrigues é capaz de explicar).

Vindo para os nossos hermanos, então, confesso que, regionalismos ufanistas à parte, eu realmente tenho uma certa simpatia pelas seleções gauchas, quais sejam, o Paraguai, o Uruguai e a Argentina. Sim, a Argentina – foda-se as pseudo-rivalidades, o fato é que, possivelmente por ser gremista, eu não acho difícil me empolgar com a tradicional garra e força de vontade castellanas. A seleção atual também tem uma das mais incríveis gerações de atacantes da história, apesar de nas outras posições poucos fazerem jus à ela. E digam o que quiserem, mas eu sou fã do Maradona – concordo plenamente que não foi melhor que o Pelé enquanto jogador, mas acho que, finda a carreira, demonstrou ter muito mais personalidade que o Edson. Ser polêmico é uma arte subestimada, e que ele domina como poucos; seria uma grande adição para o rol dos treinadores campeões.

Outra seleção que eu gostaria de ver com um bom resultado é o México, país que tem um povo muito apaixonado e empolgado com o futebol – como a própria seleção brasileira já teve a oportunidade de comprovar -, além de um campeonato nacional fortíssimo, com jogadores de todo o continente, mas que nunca conseguiu transformar isso em uma seleção de peso. A deste ano, no entanto, é muito boa, com jogadores como Rafa Marques e Giovani dos Santos, além do veterano Blanco. É claro que não acredito que possa ser realmente campeã, mas seria uma boa aposta para um terceiro ou quarto lugar, por exemplo.

E, por fim, temos as seleções da Oceania e da Ásia. A Oceania só está lá mesmo porque seria estranho fazer uma Copa dita do Mundo sem convidá-la. E da Ásia, a única seleção que me desperta algum interesse mínimo é a Coreia do Sul, que possui uma geração interessante de jogadores. Há também o Japão, claro, que tem desenvolvido um certo interesse pelo esporte já há quase duas décadas, além de ter um campeonato razoavelmente forte, com jogadores de toda a região. As suas principais contribuições para o futebol, no entanto, ainda são os jogos da série Winning Eleven e o anime Super Campeões.

Enfim, é claro que estes devaneios não se tratam de nenhum prognóstico, e não estou realmente querendo prever quem deve ser o campeão este ano. São apenas algumas reflexões sobre seleções que eu gostaria de ver vitoriosas, e por quê – digamos assim, são aquelas que renderiam bons capítulos em um futuro livro de História dos Campeões do Mundo. Em último caso, sempre seria divertido também termos uma zebra completa e inesperada, com alguma seleção como a Suíça de repente se vendo campeã, ganhando todos os jogos finais nos pênaltis após empatá-los em 0 a 0.

Saramago
E então chegamos ao outro assunto do fim de semana, a morte de José Saramago, primeiro (e acredito que até o momento único) escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de literatura. Confesso que nunca li realmente qualquer obra dele, embora haja algumas em particular que me interesse em conhecer – em especial, História do Cerco de Lisboa. Mas já li entrevistas e alguns ensaios curtos perdidos pela internet, e não posso dizer que não admirava algumas das suas ideias.

Saramago tinha 87 anos, e, portanto, já não era exatamente um jovem. Sua carreira como escritor já estava consagrada, inclusive com adaptações cinematográficas de algum sucesso, então podemos dizer que ele certamente já havia dado a sua contribuição para a vida cultural e intelectual do mundo. Há sempre aquela expectativa de que ele pudesse dar mais, é claro, sobretudo se lembrarmos que não muito tempo atrás ele estava lançando Caim, seu último romance. Mas pessoas também morrem todo dia, principalmente pessoas velhas – e, mesmo assim, não faltaram as viúvas inconformadas, se perguntando nos twitters da vida por que se vão os escritores bons quando a Stephanine Meyer continua por aí (acredito, mas posso estar errado, é claro, que a juventude dela possivelmente lhe dê uma saúde um pouco mais estável).

Acho que, no fundo, todos temos alguma esperança inconsciente de que o mérito possa vencer a morte. A mortalidade do homem sempre foi um mistério estranho – é um grande problema filosófico (como viver sabendo que irei morrer?), além de uma situação esquisita (como acordar um dia e de repente não encontrar mais alguém que sempre esteve com você?), e acho que todas as religiões sempre tentaram oferecer uma resposta, transformando-a na passagem para um plano superior ou uma nova vida em outra encarnação ou qualquer outra coisa que permita alguma possibilidade de fuga. Alguém já disse por aí que o que nos difere de um animal comum é justamente  essa consciência da morte, muito embora eu realmente não saiba como os cachorros e os gatos foram questionados sobre o assunto. Arrisco até a dizer que algumas das dificuldades da ciência em enfrentar as crenças religiosas têm a ver com isso – a ciência pode te explicar como o seu corpo funciona, mas não tem ainda uma boa resposta para por que (ou pra que) ele funciona, e nem por que ele deve morrer um dia.

Talvez por isso a morte de alguém como o Saramago cause este tipo de comoção, mesmo quando já estava em uma idade em que ela deixa de ser uma surpresa. Não nos apoiando mais na religião para entendê-la, afinal, o que nos resta? É mais fácil imaginar que as pessoas que nos interessam e que admiramos estarão sempre por aí, e não pensar sobre o que vai ser quando se forem. E, numa sociedade que tenta ser individualista e meritocrática, pode ser reconfortante acreditar que alguma entidade transcedental de justiça cósmica concederia a vida eterna a alguém que fizesse por merecer. Claro, há quem diga que as grandes obras sobrevivem ao seu autor, conferindo a ele algum grau de imortalidade, mas então eu rebato com aquela genial citação a Woody Allen: Eu não quero alcançar a imortalidade pela minha obra. Eu quero tornar-me imortal não morrendo.

Por acaso, estou lendo atualmente um livro chamado Singularity Sky, do escritor inglês Charles Stross. É uma ficção científica bastante interessante, que tenta especular sobre a sociedade e a tecnologia do futuro a partir de teses e idéias científicas mais contemporâneas, com direito a espaçonaves quânticas e uma extrapolação genial das ciências da informação. E uma das tecnologias maravilhosas do futuro criado pelo autor trata justamente de técnicas de rejuvenescimento, capazes de tornar um ser humano efetivamente imortal. No entanto, por todas os problemas sociais e ambientais que uma civilização de imortais traria, uma das poucas regras com que todas as nações da Terra concordam sem restrições é justamente a de limitar o acesso a tais tecnologias; assim, apenas se qualificam candidatos que tenham feito grandes contribuições para a humanidade, ou que por acaso tenham funções importantes a cumprir nos governos e organizações que têm acesso a elas. Não deixa de ser uma especulação interessante, a ideia do mérito capaz de vencer a morte.

Em todo caso, é também uma reflexão curiosa que se pode fazer.

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