Surfando Carmas & DNA

Carma (ou Karma), segundo a doutrina budista, é o conjunto de ações de um homem e suas conseqüência, a ideia de que qualquer coisa que você faça irá ter uma conseqüência nesta ou noutras vidas, e que nós somos o conjunto destas conseqüências. DNA (Deoxyribose Nucleic AcidÁcido Desoxiribonucléico) é a hereditariedade, aquilo que nós recebemos de nossos pais através dos genes e que molda o que nós somos. Ideias opostas, portanto: carma é aquilo que nós somos por nos fazer ser, DNA aquilo que nós somos sem ter opção.

Para dar um exemplo: o Ronaldinho Gaúcho é um grande jogador por ter aprendido a ser, ou por que ele simplesmente é um? Pela idéia do Carma, ele se tornou um grande jogador: treinava duro desde pequeno, em campos esburacados com os amigos, chutava bolas nas paredes para treinar o chute, etc; como conseqüência de todo esse esforço, desenvolveu uma técnica invejável e se tornou o melhor do mundo. A idéia do DNA é o oposto: os genes passados para ele e seu irmão (que  também foi um grande jogador do Grêmio no início dos anos 1990) simplesmente os dotaram de um talento natural para a prática do esporte, que eles no máximo desenvoveram.

Basicamente, é isso: carma é o que tu faz – estudo, logo, passo na prova -, DNA é o que tu é sem fazer nada – sou inteligente, logo, passo na prova. É uma discussão antiga: filhos de músicos costumam ser bons músicos por terem recebido deles os “genes da música”, ou por, devido aos seus pais, estarem inseridos em um ambiente musical desde muito cedo? Ou a velha dicotomia Batman / Super-Homem: o Batman não nasceu Batman, ele se tornou o Batman através de prática e treinamento – é o carma dos criminosos de Gotham City como conseqüência por terem matado os pais do jovem Bruce Wayne; o Super-Homem, no entanto, já nasceu Super-Homem – está no seu sangue, no seu DNA kryptoniano.

Esta dicotomia aplica-se também a uma outra ideia semelhante: até que ponto somos o que somos por ser essa a nossa “natureza”, ou por termos nos construído a partir dos hábitos e costumes da nossa sociedade? Uma boa discussão sobre isso se encontra na série de videogames Metal Gear Solid, da Konami. O mestre Hideo Kojima, na época do lançamento do segundo jogo (que na verdade era o quarto, mas isso é outra história), disse que Metal Gear Solid é sobre aquilo que recebemos dos nossos genes; MGS2 é sobre aquilo que não estão neles. E isso de fato se faz presente se analisarmos com cuidado o roteiro de cada um. (spoilers a seguir)

No primeiro jogo, descobrimos que o herói Solid Snake, bem como seu irmão Liquid Snake, é na verdade um clone: foi criado em um laboratório a partir dos genes de Big Boss, o maior soldado da história no universo do jogo. Estava no seu sangue, portanto, ser o grande soldado que se tornou e, assim, conseguir realizar todas as façanhas que realizou, como derrotar sozinho um tanque, um helicóptero militar e até mesmo um mecha bípede equipado com armas nucleares.

No segundo jogo, por outro, somos apresentados a um novo herói, Raiden. Ele não era um clone de algum grande soldado, como seu predecessor; conforme descobrimos durante o jogo, ele é apenas um guerrilheiro comum, que cresceu em meio a uma zona de guerra, chegando ao ponto de comer pólvora para se acostumar com ela, e assim desenvolveu toda a sua habilidade como soldado, a partir da sua vivência e história pessoal. Mais do que isso: toda a trama do jogo se concentra em uma espécie de exercício de simulação, que visa criar um “novo Solid Snake” ao colocar um soldado comum tendo que se virar frente à situações semelhantes às da primeira missão. Sugere-se também, assim, que o próprio protagonista do primeiro jogo não foi o grande soldado que era por isto estar no seu sangue, mas porque a situação exigiu isso dele; portanto, mesmo sendo um clone do maior soldado da história, ele também se tornou um grande soldado a partir das suas experiências pessoais.

Isso me lembra que, quando Albert Einstein morreu, seu cérebro foi cuidadosamente estudado por médicos e cientistas, pois acreditava-se haver algum tipo de explicação biológica para sua genialidade. Hoje muita gente acredita que tem a ver mais com a sua experiência pessoal: funcionário de um escritório de patentes responsável por conferir a autenticidade de fórmulas e gráficos complicados, simplesmente se acostumou com as ideias e teorias apresentadas, e passou a formular as suas.

Por fim, a oposição entre Carma e DNA também serve de alegoria para um outro siginificado – a dicotomia liberdade/destino. Afinal, somos realmente livres para fazer o que quisermos desde que estejemos dispostos a sofrer as conseqüências – pregação máxima do existencialismo de Sartre -, ou somos apenas robôs cumprindo o que nos foi pré-programado por um ser superior, pelos nossos genes ou o que for? Nascemos inocentes, capazes de fazer tanto o bem como o mal, como dizia Rousseou, ou está tudo tão determinado que podemos reconhecer um criminoso antes de este cometer um crime apenas a partir apenas de suas características físicas, como defendiam certos cientistas do século XIX? Se soubéssemos antes o que sabemos agora, iríamos embora antes do final ou erraríamos tudo exatamente igual? Será que podemos escolher? Ou inventamos nossa liberdade apenas na falta do que fazer, como disse Humberto Gessinger na música que dá o título deste texto?

Vai-se o devaneio, ficam as perguntas.

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