A Vila e O Dragão

Havia muitas gerações que a pequena vila de Água Seca era assolada por um vil dragão. De tempos em tempos, sempre quando todos já acreditavam aliviados que o monstro não mais retornaria, ele surgia novamente no horizonte, e demandava que todas as crianças até uma determinada idade lhe fossem entregues. E assim foi por tanto tempo que mesmo os mais velhos já não eram capazes de lembrar da primeira vez em que ocorreu.

Certo dia, no entanto, já mais de quinze anos desde o último tributo, um jovem pastor de ovelhas chamado Tomás, enquanto realizava calmamente o seu trabalho, avistou uma bola de fogo surgindo do horizonte e explodindo no céu – era o sinal de que em uma semana o dragão retornaria, e o pagamento deveria começar a ser preparado. Tomás ficou preocupado, pois ele próprio possuía um casal de filhos na idade certa, e correu a avisar os anciãos da vila, que logo reuniram todos os habitantes em uma assembleia para decidir o que fazer.

– Temos que resistir! – dizia Tomás, resoluto, apoiado por aqueles que também possuíam filhos na idade exigida pelo dragão.

– Se resistirmos, ele se enfurecerá e matará a todos nós! – respondiam os demais.

Foi um longo e acalorado debate. Uns diziam que já há muito tempo era assim, todos estavam acostumados, e pelo menos as crianças mais velhas ficariam; os outros replicavam que isso não justificava a perda dos que iriam, e que se não tentassem enfrentá-lo é que estariam para sempre condenados. Uns perguntavam o quê, afinal, era feito das crianças que o dragão levava – talvez não fosse tão ruim, ele poderia cuidar delas bastante bem, e viveriam melhor do que é possível na vila; os outros respondiam que não havia como saber, e ele podia também utilizá-las para fins grotescos e impensáveis. Uns questionavam como, afinal, poderiam fazer frente a um dragão; os outros afirmavam que com arados e enxadas, se fosse necessário. Acusavam-se mutuamente de pensar apenas nas próprias famílias, e esquecer as dos colegas e companheiros. Amizades de décadas eram desfeitas, inimizades veladas eram expostas, e muitos saíram de lá com algo mais do que ferimentos leves.

Mas tomaram uma decisão, afinal: os que defendiam a resistência eram irredutíveis, e desafiariam o dragão com ou sem o apoio do demais. E assim foi feito, na data em que ele veio à vila buscar o seu tributo; um grupo de dezenas de fazendeiros, pastores e comerciantes se armou como podia, e foi para o local da entrega.

– Alto lá! – disse Tomás, nomeado líder, quando viu a criatura se aproximando. Ela pousou calmamente em frente ao grupo; sua sombra era o bastante para atingir mesmo o mais distante camponês posicionado na última fileira. – Não deixaremos que leve nossos filhos! – completou o pastor.

O monstro bufou uma nuvem de fumaça negra.

– Ousam me desafiar? – respondeu, com uma voz ressonante como um trovão. O seu olhar enfurecido caía como um meteoro sobre o amontoado de seres. Os que estavam mais distantes na formação já sentiam os joelhos tremerem, e começavam a formular a ideia de se virar e correr de volta à vila.

Tomás, no entanto, deu um passo à frente.

– Sim! – bradou, inflando os pulmões tanto quanto podia.

A criatura bufou novamente, e lançou-lhes outro olhar fulminante. Muitos baixaram as armas; a tremedeira se espalhava como uma onda pelo proto-exército, e se metade dele não fugiu naquele instante foi apenas porque o medo que possuíam era grande demais até para isso. Alguns poucos, no entanto, entre eles Tomás, permaneciam impassíveis, e encaravam seriamente as pupilas verticais do monstro cada vez que elas os encontravam.

O ar pesava como se fosse composto de chumbo. Bastaria um movimento em falso, um único piscar inesperado de olhos, e tudo explodiria em um combate generalizado, e provavelmente um massacre sangrento. Foi então que o dragão, em um movimento brusco que empalideceu de susto seus adversários, soltou um suspiro profundo, deu meia-volta e partiu para nunca mais voltar.

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@bschlatter

  • Faço greve há anos na educação pública, e é triste fazer uma greve que não afeta ninguém que importa pro jornal nacional. 9 hours ago
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  • No jornal do almoço: "a gente queria falar das razões da greve, mas como se tem gente prejudicada?" E por que não falar das duas coisas? 9 hours ago
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