After Dark

A noite é um universo paralelo. Seja em casa ou na rua, em frente ao computador ou em uma casa noturna, é como estar em um mundo alternativo, com outras leis, outras regras. É interessante notar essa mudança: longe da luz do sol, fora das suas rotinas diurnas, as pessoas não são as mesmas, e mesmo o tempo às vezes parece correr de forma diferente.

After Dark (ou Após o Anoitecer, na edição nacional da Alfaguara Brasil), do escritor japonês Haruki Murakami, é um livro sobre a noite. A história toda transcorre em uma única madrugada; você pode mesmo acompanhar a passagem do tempo pelos títulos dos capítulos, que marcam a hora em que eles começam. E os seus personagens e situações são também aqueles que habitam o cenário noturno, esse mundo estranho que existe entre a meia-noite e o nascer do sol.

O roteiro acontece basicamente em duas frentes. Numa delas temos a história de Mari Asai, uma jovem que perdeu o último trem para casa e pretende passar a noite em um restaurante 24 horas de Tóquio lendo um livro. Eventualmente, claro, ela será abordada por um jovem rapaz, um músico que para no local para jantar no caminho para um ensaio, e isso mudará os seus planos para a madrugada.

Na outra frente conhecemos Eri Asai, a bela irmã de Mari, que dorme um sono “perfeito demais, puro demais” para ser normal – na verdade, ela está adormecida há dois meses. Nesta noite, no entanto, exatamente à meia-noite, eventos estranhos começam a acontecer no seu quarto, que poderão ou não enfim despertá-la.

Murakami tem um estilo interessante de escrever, narrando os acontecimentos a partir de uma espécie de câmera imaginária, descrevendo como ela se aproxima ou afasta dos personagens, foca determinados pontos do cenário, etc. É um pouco como se estivesse nos contando o roteiro de um filme. Somos transportados, assim, ao seu universo particular, repleto de acontecimentos oníricos que nos confundem sobre onde acaba a realidade e começa o sonho.

Não se trata de uma história muito convencional, no entanto, com um enredo que vai construindo tensão até chegar a um desfecho climático. A trama se desenvolve um pouco como um ensaio de jazz, com idas e vindas de personagens, e diálogos que ocorrem como improvisos instrumentais. O final é inconclusivo para quem espera resoluções para todas as situações; como prega a filosofia oriental de maneira geral, o caminho aqui é mais importante do que o destino, como a própria noite, que nem sempre espera pela melhor hora para acabar.

É um ótimo livro, enfim, de leitura gostosa e com personagens cativantes. Recomendo para qualquer um que já passou madrugadas em claro, na rua ou em casa, ou que já preferiu em algum momento os sonhos noturnos à claridade mundana do dia.

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@bschlatter

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