Demon’s Souls

Talvez seja surpresa pra quem já cresceu em meio a Playstations e Wiis, mas houve uma época em que jogar videogames não era assim uma atividade tão popular. Não que eles não fossem legais, ou o sonho de consumo de muitas crianças no natal, mas de maneira geral eram só os mais interessados (ou impopulares) que realmente se enfurnavam em quartos escuros por dias a fio dedicados a terminar um jogo novo quando podiam muito bem sair na rua para jogar bola com os amigos, ou andar de bicicleta, ou realizar outras atividades saudáveis e produtivas para a sua vida social. Um sociólogo chato poderia enumerar diversas razões para isso – a relativa novidade do brinquedo, a familiaridade menor com produtos eletrônicos, a maior segurança das ruas… Pessoalmente, no entanto, acho que grande parte da questão era o fato de que os jogos daquela época eram, pura e simplesmente, muito difíceis.

Pois é, os jogos antigos eram muito mais difíceis e frustrantes. Se você tem qualquer dificuldade com os lançamentos de hoje, é bom nunca se aproximar dos primeiros Mega Man, Contra, Ninja Gaiden, Castlevania… Era preciso muita força de vontade para avançar aos trancos e barrancos até as últimas fases, chegar a poucos quadros do chefão final e então perder tudo por poucos milímetros mal calculados de um pulo entre plataformas móveis, quando você estava na última vida e sem nenhum continue sobrando. Sim, vidas e continuesmemory cards são para maricas!

Demon’s Souls é um jogo que recupera um pouco desse espírito, por que não?, nostálgico de dificuldade. Não que ele seja qualquer coisa próxima de um Ninja Gaiden II, claro, cujas fases ainda dão pesadelos a alguns gamers, mas, no mar de chantilly que é a maioria dos jogos de hoje, acredito que ele se destaque bastante. Mesmo os inimigos comuns não são exatamente fáceis, há muitas passagens e armadilhas sacanas, e eu já dou a dica de fugir sempre que ver um dragão vindo na sua direção. E tudo isso sem o alívio de encontrar um save point a cada esquina – se você morrer, deve recomeçar a fase praticamente do zero, e ainda perdendo todas as almas que acumulou até ali.

Mas comecemos do princípio. O jogo conta a história de algum reino medieval genérico ameaçado por um mal ancestral, e que por isso se transformou em ponto de encontro de heróis e aventureiros em busca de fama e fortuna – aquela coisa de sempre, enfim, que você pode ler com calma nas primeiras páginas do manual se estiver curioso. Para jogar você deverá criar um desses heróis e aventureiros, definindo nome, aparência, sexo, classe de personagem e etc., como em um RPG de mesa. O jogo lembra bastante Diablo nesse aspecto, aliás, não só pela criação de personagem, mas também porque a parte principal dele é a exploração de diversas masmorras, enfrentando monstros e coletando tesouros e equipamentos; apenas troque a visão 3/4 por uma em 3D típica dos jogos mais recentes, com controle de câmera e tudo mais.

Com o seu alter-ego pronto, você irá para a fase de tutorial, onde aprenderá os comandos básicos enfrentando alguns inimigos. Há sequências simples e golpes fortes, um botão para bloqueio, e você pode optar por segurar a arma com duas mãos também, dispensando um eventual escudo para causar maiores danos. O uso dos botões superiores (L/R) para atacar pode ser um pouco confuso para quem não está acostumado, mas este também já está se tornando um padrão nos jogos mais recentes. Não se trata de um jogo de ação, no entanto, com combos rápidos e dúzias de inimigos; os ataques são simples e diretos, e você deve usá-los com inteligência, aproveitando as características do cenário para cercar os inimigos e evitar os seus ataques.

Eventualmente, acontecerá o inevitável: você morrerá. Ao invés de uma tela de Game Over, no entanto, você será então transportado para o Nexus, um plano de existência alternativo onde estão alguns sobreviventes do reino, e onde você aprenderá sobre a real natureza da mal que o ameaça e do jogo em si. Acontece que vagam pelo reino não apenas os heróis que buscam salvá-lo, mas também os fantasmas daqueles que falharam na missão – e um deles é o seu próprio personagem, que agora pode retornar às fases em sua forma etérea. Na prática, é bem semelhante a estar vivo: você ainda pode atacar e ser atacado pelos inimigos, podendo até morrer novamente; há apenas algumas limitações, como uma barra de energia menor, além de formas diversas de recuperar o seu corpo físico ao longo das fases (bem como de perdê-lo outra vez na sua inevitável morte seguinte…).

Essa idéia do reino habitado por fantasmas também é responsável por uma das sacadas mais criativas do jogo. Tendo um console conectado à internet, ele será sempre jogado em rede, mesmo no modo single player. Você não interage diretamente com os outros jogadores, no entanto – apenas poderá vê-los zanzando pelas masmorras, como se fossem os fantasmas de outros heróis. Se um deles morrer, deixará uma mancha de sangue no chão, que você pode examinar para ver como aconteceu e assim ficar sabendo de algum inimigo ou armadilha; e é possível também deixar mensagens e avisos pelo caminho, recebendo alguns benefícios caso algum jogador as considere úteis. Por fim, é possível também “invadir” o jogo de outra pessoa conectada no momento, entrando em uma típica disputa de PvP.

Demon’s Souls, enfim, é um jogo muito bem feito, que não por acaso foi escolhido como um dos principais lançamentos de 2009. Recomendo principalmente para veteranos do RPG e jogadores de Dungeons & Dragons em geral, que se sentirão à vontade em meio às masmorras e monstros, além de terem possíveis orgasmos múltiplos com as possibilidades de customização e evolução do personagem. Apenas a dificuldade pode ser frustrante algumas vezes, embora também não seja nada que assuste alguém que cresceu em meio aos pesadelos dos 8 e 16 bits.

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