Amor de Verão

Savitri era uma moça muito bonita. Tinha a pele escura, quadris largos e um corpo redondo sustentado por pernas fortes como colunas gregas. Suas orelhas, quando estendidas, formavam um grande coração acizentado em torno do rosto, e de sua boca saíam um par de presas pequenas como dedais, uma em cada lado do longo nariz. Na jaula que dividia com as companheiras do circo onde morava, todas as outras elefantas a invejavam.

Mas Savitri era, também, muito infeliz. Olhava para fora, através das grades, e via um mundo imenso da qual nada conhecia. Observava as nuvens no céu, os pássaros voando, e sonhava em ser um dia como eles: correr livre pelos campos, fazendo a terra tremer a cada passada; conhecer lagos cristalinos e florestas verdes, repletas de árvores e flores. E suspirava, fazendo voar as cascas de amendoim caídas pelo chão.

Os anos passaram, mas ela continuava em seu cativeiro. Começou a achar que nunca realizaria seus sonhos de liberdade. Um dia, no entanto, sem que ela percebesse, um elefante selvagem a viu de longe e se encantou com o seu semblante triste e introspectivo. Seu nome era Kushna, e, durante vários dias seguintes, ele retornou ao mesmo lugar, de onde a observava em silêncio por horas e horas.

Logo chegou o momento em que não aguentava mais apenas olhar, e decidiu ir ao encontro da amada. Kushna se aproximou com cuidado durante a noite, em um momento em que a segurança estava desatenta, e se apresentou a Savitri. Era um elefante forte e robusto, e não teve dificuldades em destruir o cadeado da jaula e as correntes que a prendiam. Fugiram juntos sob o olhar atento da lua e das estrelas.

Correram a noite toda até que pararam para descansar na beira de um lago, centenas de metros distante da antiga prisão. Savitri era mais feliz do que jamais estivera: olhava para Kushna e o tocava com sua tromba, como para ter certeza de que era verdadeiro; ele se deixava tocar, e derramava sobre ela jatos de água que extraía do lago. Riam, e amavam-se.

Mas amanheceu, e os donos do circo notaram a fuga da elefanta. Preparam grupos de busca e saíram a sua procura: Savitri era um animal valioso, um investimento caro, e não podia ser perdido daquela forma. Levaram o dia todo, mas enfim acharam os dois na beira do lago e se prepararam para capturá-los.

Kushna quis fugir, mas Savitri estava muito cansada. Vá! Não deixe que eles acabem com a sua liberdade!, parecia dizer quando o olhava.

Eu não vou sem você!, ele respondia da mesma forma.

Eu não fui preparada para essa vida. Nasci no circo e nele fui criada desde pequena, não conseguiria sobreviver nesse mundo estranho que existe aqui fora.

Kushna virou-se para o lado, como que contrariado, sem saber o que responder. Enfim fugiu, deixando-a para ser capturada e levada de volta.

E assim Savitri voltou à sua rotina de artista enclausurada, com vigíla redobrada da segurança. Mas, no fundo, não mais se importava: pois agora, sempre que olhava para o céu em busca das nuvens, não eram mais os sonhos de liberdade que procurava e, sim, a lembrança dos momentos curtos mas felizes que nela vivera, e daquele com quem a dividira.

Baseado em fatos reais.

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