O Encontro

Júnior tremia enquanto esperava, sentado na mesa do restaurante no Mercado Público. Faziam doze anos que esperava por aquele momento – desde que pela primeira vez soube que era adotado. E agora estava lá, nervoso, esperando a chegada do pai biológico.

Havia tanto que queria saber! Quem era, o que fazia, como conheceu sua mãe… E, é claro, por que não quis ficar com ele. Já havia pensado muito sobre isso – talvez fosse muito jovem e irresponsável para cuidar de uma criança, ou apenas pobre demais. Talvez não quisesse filhos então… Talvez ainda não os quisesse. Podia ter atendido a esse encontro obrigado, ameaçado, sob liberdade condicional. Qualquer que fosse o caso, Júnior estava preparado: tinha já vinte e seis anos, o suficiente para não guardar rancor ou uma expectativa exagerados por alguém que sequer conhecia.

Só havia uma entre todas as possibilidades que o preocupava. De tudo que o seu pai biológico poderia ser – criminoso, foragido, endividado, deficiente -, uma coisa Júnior jamais poderia aceitar: ele não poderia ser… Não, era melhor nem pensar a respeito. Era uma possibilidade real – afinal, Júnior era o que era por influência familiar antes de tudo, principalmente de um certo tio com quem freqüentemente tinha contato -, mas preferia acreditar que o pai verdadeiro seria como ele. Precisava ser – não estaria disposto a aceitá-lo se não fosse.

O jovem tremia mais quando pensava a respeito. Valia a pena correr o risco? Não poderia ter esse desencanto – qualquer outro, mas não esse. Poderia viver bem com a ilusão, com a possibilidade de nunca saber, mas não com a decepção real. Talvez fosse melhor ir embora, deixá-lo esperando, e não dar mais notícias; sim, sem dúvida era melhor, pensou Júnior. Levantou e se preparou para sair, mas já era tarde: o pai estranho já o havia notado, e se dirigia para a sua mesa.

O medo de enfim conhecê-lo paralizou o rapaz: cada passo mais próximo que ele chegava parecia levar séculos para terminar. Gotas de suor frio escorriam pelo corpo, até que estavam próximos o bastante para que as três cores da camisa por baixo do abrigo dele fossem reconhecidas. Gremista!

Júnior suspirou aliviado, cumprimentou-o e sentou para conversar e conhecê-lo. Já não havia nada que pudesse sair errado.

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Sob um céu de blues...

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