Blues Creation & Carmen Maki

Eu sempre digo que a década de 1970, principalmente a primeira metade, foi como uma era dourada do rock, e em especial do rock pesado. Passados os anos iniciais, a invasão britânica e a fase da rebeldia engajada, o que restou então foi um momento de grande apuro técnico e criatividade musical, que ia de fato além das causas políticas e sociais. É o período do rock progressivo, por exemplo, que tinha uma abordagem quase erudita algumas vezes (e em outras era simplesmente chato mesmo), além do desenvolvimento das técnicas de distorção de instrumentos que se tornariam uma das marcas do heavy metal. Foi também um período de expansão do estilo pelo mundo – era uma época em que você encontrava boas bandas não apenas no mundo anglo-saxão, mas também em países que iam do Brasil (onde tínhamos os Mutantes, Bixo da Seda, O Peso e outros grupos esquecidos hoje em dia) até a Austrália (do clássico Jethro Tull).

E também havia bandas muito bacanas nessa época no Japão. Grupos como o Flower Travellin’ Band, entre outros, misturavam guitarras distorcidas com ritmos típicos do país, fazendo canções instrumentais que soavam quase como hinos budistas pós-modernos. Os meus preferidos, no entanto, acredito que sejam os caras do Creation, que não eram assim tão aprofundados na mistura dos ritmos, mas faziam um som pesado e muito bacana com influências do blues e do rock sessentista. Seu primeiro disco, de 1969, na época ainda com o nome de Blues Creation, era apenas um apanhado de covers e versões de clássicos do blues; e o segundo, de 1971, chamado Demon & Eleven Children, trazia já canções originais e muito interessantes, com uma pegada mais pesada e uma forte influência da situação do Japão pós-1945 nas letras. O meu preferido, no entanto, é o disco também de 1971 gravado em parceria com a cantora Carmen Maki, uma espécie de diva do rock pesado japonês.

E que diferença fez a miss Maki nos vocais! Alguns chegam a chamar de Janis Joplin nipônica, e, sinceramente, não acho que seja assim um exagero tão grande. A sua voz é bastante forte, certamente muito melhor que a voz masculina e cheia de sotauqe dos discos anteriores. Combinado com um instrumental de hard rock muito bem executado, repleto de solos e riffs de guitarra e baixo, tem-se um álbum repleto de canções muito bacanas, de Understand, que abre o disco com um petardo, com direito a um riff de guitarra grudento, até o blues pesado I Can’t Live For Today (e eu sou suspeito para falar de blues, como sempre). Outros destaques vão para a calminha And You e a versão pesadíssima do clássico negro spiritual Motherless Child. As faixas que roubam a cena, no entanto, são as baladas elétricas, como Lord I Can’t Be Going No More e, principalmente, Empty Heart, sublime ao ponto de me inspirar alguns devaneios pseudo-metafóricos.

É um disco muito bacana, enfim, facilmente entre os meus preferidos, apesar de ser um pouco difícil de encontrar mesmo para download por aí (os blogs onde eu os havia baixado originalmente não estão mais no ar; felizmente já tenho meus CDs gravados). Algumas versões vêm mesmo com algumas faixas extras, com gravações de rádio e apresentações ao vivo do grupo.

Recomendadíssimo para fãs de rock pesado e adeptos da antropologia musical em geral.

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