O Criador

Perdido em meio ao vazio havia um galpão. Suas paredes eram feitas de madeiras velhas e úmidas formando um grande retângulo sob um telhado plano de zinco, circundado pelo nada em todas as direções. Não havia janelas ou aberturas exceto por um portão duplo que servia de entrada em um dos lados, com uma corrente de ferro e um cadeado enferrujado fazendo as vezes de fechadura. Seu interior era alto e espaçoso; um observador do lado de dentro poderia pensar mesmo que fosse infinito, pois, dependendo de quão próximo estivesse do centro, seria impossível enxergar os seus limites.

Um velho senhor caminhava apoiando-se pelas paredes. Vestia um macacão gasto e surrado, e tinha uma longa barba grisalha se arrastando pelo chão. Seguia devagar, as costas recurvadas pela idade, em direção a uma mesa de madeira coberta de papéis. Sentou-se com dificuldade em uma cadeira ao lado dela. Olhou para os planos e projetos na sua frente; pegou um lápis e rabiscou alguns cálculos, mediu algumas retas e formas com uma régua, fez anotações nos poucos espaços disponíveis.

Suspirou. Olhou para o lado, e viu o livro empoeirado de onde tirara as anotações iniciais do projeto. Quase riu ao lembrar do que dizia – sete dias! Terminaria em sete dias, e, com alguma sorte, ainda reservaria o último para descansar. Não, era impossível; aquele era o trabalho de uma vida inteira. Gastara a juventude fazendo planos e desenhos, a vida adulta trabalhando nas fundações, e agora a velhice cuidando dos últimos detalhes e fazendo os ajustes finais.

Pelo menos estava próximo de terminar. Levantou e retornou ao emaranhado de átomos e partículas; mediu algumas distâncias, trocou elétrons de lugar. Ajustou a posição de alguns neutrinos, mudou o diâmetro de feixes de fótons. Por fim, exausto, se afastou, e observou o resultado: estava pronto! Cada elemento em seu devido lugar, cada reação devidamente encaminhada. Um sorriso tímido se formou no canto da sua boca, oculto entre os fios grisalhos.

O velho abaixou-se com cuidado e empurrou a pequena partícula que daria início à reação em cadeia. Ela se movimentou e colidiu com outras partículas, que entraram em movimento e colodiram com outras, e assim sucessivamente. Em apenas alguns milhões de anos estrelas se formariam, e então planetas, rochas, bactérias, animais. Tudo começando com aquele pequeno empurrão.

Satisfeito, ele voltou à mesa de projetos, tomando todo o cuidado de não interferir com a sua obra. Sentou-se e observeu-a em movimento. Sorriu mais uma vez e inclinou-se para trás, e então fechou os olhos e adormeceu pela eternidade.

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2 Responses to “O Criador”


  1. 1 carol 10/02/2011 às 23:52

    você me lembra o cortazar.


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