Never Let Me Go

Never Let Me Go (ou Não Me Abandone Jamais, na edição nacional da Cia. das Letras) abre com a narradora se apresentando como Kathy H., uma carer (ou cuidadora, em uma tradução livre), um tipo de enfermeira responsável por tomar conta de certos doadores de órgãos. Aos 31 anos, no entanto, ela está prestes a abandonar este trabalho para se tornar também uma doadora, o que a faz olhar para o passado e rever certos momentos que viveu. Em especial, ela busca lançar um novo olhar sobre a sua relação com Tommy e Ruth, dois amigos de infância de quem veio a cuidar quando se tornaram doadores.

Os três cresceram em Hailsham, uma espécie de internato na zona rural inglesa, onde passaram a infância e adolescência em um ambiente de sonho: uma escola fechada, protegida do mundo exterior, com grandes campos e paisagens naturais, onde tinham a criatividade estimulada por professores atenciosos e um sistema de ensino voltado para as artes. Um lugar especial, muito embora Kathy só viesse a perceber exatamente o quanto anos mais tarde, quando, revisitando suas memórias de então, pôde entender a razão oculta por trás da sua existência, e o que isso representava para os alunos que cresceram lá e a vida que teriam ao sair.

O livro de Kazuo Ishiguro (que, como o nome bem indica, nasceu no Japão, mas vive desde os cinco anos na Inglaterra) começa, assim, como uma típica história de nostalgia, dessas que os autores contemporâneos adoram escrever quando atingem uma certa idade. Os primeiros capítulos se passam com a narradora lembrando acontecimentos da infância e os primeiros anos da adolescência, momentos passados com os amigos nos intervalos das aulas, assistindo os colegas em partidas de futebol, esse tipo de coisa. Desde o início, no entanto, é possível perceber que há algo de diferente no ar, uma espécie de sombra que paira sobre os alunos e a escola, e que eventualmente se tornará determinante para os rumos que tomarão em suas vidas.

Então os anos passam, os personagens crescem e os seus relacionamentos se complicam, e aos poucos a nostalgia vai deixando o centro da narrativa, na medida em que todos saem de Hailsham e começam a cuidar da sua vida adulta. Uma atmosfera de melancolia está presente desde o primeiro parágrafo, mas ela se intensifica bastante ao longo dos capítulos, quando o destino do qual os protagonistas não podem escapar vai se revelando e aproximando. No fim, acaba como uma história sobre a saudade e o arrependimento, que nos faz refletir sobre oportunidades perdidas e a imutabilidade do passado.

É, enfim, um livro tocante e comovente, com uma pequena dose de ficção científica que só acentua a sua sensibilidade. Recomendo bastante, muito embora pessoas com tendência à melancolia ou que se deprimam com facilidade talvez devessem ter algum cuidado.

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2 Responses to “Never Let Me Go”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 09/03/2011 às 21:59

    E esse livro já virou filme, estreia (ou já estreiou) esse ano, com o nome de Não Me Abandone Jamais – cara, essa frase lembra videokê por alguma razão misteriosa.

    E esse autor foi o que escrever Reminiscências do Dia?


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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • Faltou o Douglas canastra suja pra resolver esses pênaltis. 3 hours ago
  • O narrador tinha até esquecido como gritava gol. 3 hours ago
  • Sigo um Portaluppista dos Últimos Dias convicto, mas sejamos sinceros com nós mesmos. 4 hours ago
  • Desde o primeiro jogo que escalou reserva e desistiu do outro campeonato. 4 hours ago
  • Pode rolar qualquer coisa, o time que fizer um gol mata esse jogo. Mas o Renato bem tá merecendo esse resultado há uns seis meses. 4 hours ago

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