A Moça da Mochila Amarela

Tomás não lembrava da primeira vez em que a tinha visto, e na verdade até preferia assim. Era como se não existisse antes daquele instante, como se fosse só então a gênese de todo o seu pequeno universo. Tudo o que importava para ele era sair do escritório no fim do expediente, ir até a parada de ônibus e esperar aqueles tensos minutos até ela aparecer, o corpo balançando com o andar vagaroso, como se soubesse que era observada e quisesse provocá-lo, os cabelos negros caindo como gotas de chuva sobre os ombros, e as costas retas carregando a sua mochila amarela.

Aquele era o momento em que valia a pena estar vivo: os poucos, tão poucos, instantes em que o seu cotidiano fazia sentido, apenas para estar com ela, olhar para ela, viver para ela. Que importava que acabariam logo que o ônibus chegasse e ela subisse, sem se despedir, sem olhar para ele? Bastava estar seguro de que ainda dividia o mundo com um aquele ser mágico e poderia voltar feliz para a casa, tomar banho, jantar, dormir. Sempre, é claro, pensando nela: a moça da mochila amarela.

Então acordava no dia seguinte, tomava café, banho, vestia-se e ia novamente para a jornada de trabalho. Contava uma a uma as horas que teimavam em não passar, corria pelo horário de almoço e o expediente da tarde, aguardando ansioso o instante em que poderia fugir e voar para o seu pequeno paraíso, os parcos minutos que dividia com o seu anjo pessoal.

Nunca soube o seu nome. Nunca ouviu o som da sua voz. Talvez fosse melhor assim: pensou muitas vezes em falar com ela, perguntar as horas, puxar um assunto, mas temia quebrar a mágica daquele rosto de merengue queimado. Melhor deixá-la lá, uma musa viciante, o totem místico que tornava o mundo suportável. E a proteger, de longe: barrava quem quer que ameaçasse cortar o seu caminho; jogava-se na frente de qualquer olhar suspeito que, por um segundo que fosse, ousava se voltar para ela. Era como um cavaleiro invisível, um protetor anônimo.

Um dia, no entanto, ela não apareceu para esperar o ônibus. Tomás voltou para casa triste, desencantado. Esperou no dia seguinte, mas ela também não apareceu. Passou a semana, e nada. Duas semanas, e ainda nada. No primeiro dia da terceira semana saiu mais cedo, esperando assim encontrá-la. Deixou passar o primeiro ônibus, e também o segundo, e o terceiro.

Nada.

Voltou para casa. Tomou banho. Jantou, sem fome. Dormiu. Acordou. Tomou um café. Tomou um banho. Vestiu-se. Foi para o escritório.

Ao meio-dia em ponto, os colegas de trabalho entraram na sua sala para fechar a janela que estava aberta. Olharam por ela e calaram-se, assustados: Tomás estava lá em baixo, na calçada, caído em meio a uma multidão que crescia ao seu redor. Então um deles olhou a sua mesa e encontrou um papel rabiscado com uma curta mensagem: minha vida pela moça da mochila amarela.

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