Bem-vindo à N.H.K.!

Existe um fenômeno recente no Japão (e por recente eu quero dizer de no mínimo uns dez ou quinze anos) que são os chamados hikikomoris, jovens desempregados e sem perspectivas que se isolam da sociedade se trancando em seus quartos ou casas, longe de qualquer contato humano fora dos meios virtuais. Ele se explica por vários fatores próprios da sociedade japonesa contemporêna, como a recessão econômica do país, que já dura cerca de duas décadas, bem como os seus valores tradicionais e orgulhosos, segundo os quais um fracasso pode ser visto às vezes como uma desonra pior do que a morte. Não quero entrar em detalhes por falta de conhecimento mais aprofundado, além de que tem gente por aí que discorre longamente sobre o assunto com muito mais propriedade do que eu jamais seria capaz. A questão é que o fenômeno já tomou algumas proporções preocupantes, atraindo mesmo a atenção do governo e de ONGs, e se tornou um traço recorrente em toda uma geração. Não deveria demorar, portanto, para que chegasse aos mangás e animes, a mais popular manifestação cultural japonesa atualmente.

Bem-vindo à N.H.K.! parte de uma brincadeira com a rede de televisão estatal japonesa, cuja sigla significa oficialmente Nihon Housou Kyoukai (ou Companhia Japonesa de Radiodifusão), mas que o protagonista, em um delírio ainda no primeiro volume, “descobre” ser na verdade a Nihon Hikikomori Kyoukai (ou a Companhia Japonesa dos Hikikomoris), uma conspiração governamental com o objetivo de transformar os jovens japoneses em hikikomori e responsável por tudo o que aconteceu de errado na sua vida até aquele momento. Com esse conhecimento em mãos, decide ir atrás de provas que revelem a verdade ao mundo, mas não contava com a aparição de Misaki-chan, uma perigosa assassina armada com uma inocente sombrinha, supostamente enviada para matá-lo. Só que ele não desistirá tão fácil, é claro, e seguirá até o fim em uma jornada épica de auto-conhecimento, repleta de ação, violência e lições edificantes sobre o poder do amor e da amizade.

Ok, eu me empolguei um pouco no fim do parágrafo anterior, mas ele serve bem para exemplificar o tom que a própria série assume ao falar de si mesma, visível já na sinopse presente na contra-capa. Ela possui todos os exageros típicos dos mangás, da narrativa que põe ação e linhas movimento mesmo nos momentos mais mundanos, até a caracterização dos personagens principais – Tatsuhiro Sato, o protagonista, não é um simples hikikomori, mas uma total negação no que se refere ao trato social, cujo simples pensamento de que algo pode dar errado, mesmo que da maneira mais absurda possível, já o faz surtar por completo; enquanto Yamazaki Kaoru, seu vizinho e melhor amigo, também não é simplesmente um fã de eroges (ou games eróticos), mas um completo viciado que conhece tudo o que há para saber sobre o assunto, e chega a preferir as garotas virtuais às reais. E não bastasse esse tom escancarado de caricatura, os autores ainda lotam cada página, desde as capas, de referências à cultura pop japonesa, do EVA-01 em um dos delírio de Sato até uma máscara do Kamen Rider usada por Kaoru em um festival.

Apesar disso, no entanto, o mangá consegue tratar do tema com bastante seriedade e realismo, não caindo em tantos clichês e estereótipos quanto se poderia esperar. Por trás dos exageros, os personagens não chegam a ser demonizados pela sua condição, mas são humanos como quaisquer outros, o que ajuda a criar empatia e a mostrar o que é ser, de fato, um hikikomori. Nisso é uma série até bastante dramática, e se você ri das fantasias mais absurdas de Sato não é sem uma ponta de remorso, por entender a gravidade da situação e talvez até reconhecer na caricatura alguns traços de conhecidos próximos, ou até de você mesmo.

Bem-vindo à N.H.K.!, enfim, é uma série muito interessante e atípica lançada por aqui, que eu recomendo ao menos uma olhada. Além de ser um trabalho de grande qualidade, ainda demonstra bem as possibilidades dos mangás, e mesmo dos quadrinhos em geral, de tratar de temas sérios e adultos, longe (mas nem tanto assim) das fantasias juvenis pelos quais são mais conhecidos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

  • @LionHeartRicard Tão dizendo que o Grêmio tá usando drones pra espionar os treinos adversários :P 3 hours ago
  • RT @ComoEuRealmente: Bebida indecisa, tem ou não tem fruta? HAHAHAH https://t.co/bNUrpXrHXT 3 hours ago
  • Drone pra quê se a gente tem o Geromel que pode sentir o poder de luta dos adversários. 3 hours ago
  • Eita, o tweet do Vonnegut deu 20 likes em tipo 3s. Eu devo ter acertado uma mina de bots hahah 4 hours ago
  • Kurt Vonnegut foi o cara que entendeu o mundo moderno. Mais gente devia ler ele, só faria o mundo melhor (e isso que bastante gente já lê). 4 hours ago

Estatísticas

  • 199,312 visitas

%d blogueiros gostam disto: