Arquivo de abril \17\UTC 2011

Pygmy

Chuck Palahniuk é conhecido principalmente como o autor de Clube da Luta, o livro que deu origem ao filme estrelado por Brad Pitt e Edward Norton. Quem o assistiu já pode ter uma idéia geral do que esperar da sua obra: uma visão anárquica e ácida da sociedade norte-americana e os seus valores tradicionais, temperada por muito humor negro, violência e escatologia. Não são livros para puritanos; o tempo todo você encontra personagens niilistas e amorais, que tomam atitudes grotescas muitas vezes apenas para satisfazer os próprios egos, sem sequer terem um objetivo específico, além de cenas descritas nos mínimos detalhes capazes de fazer revirar estômagos mais fracos.

Pygmy, lançado em 2009, segue um caminho semelhante. O personagem-título é um jovem nascido em uma ditadura comunista do extremo oriente e enviado para uma cidadezinha do interior do Estados Unidos como aluno de intercâmbio, junto com um grupo de colegas da mesma idade. Em segredo, no entanto, sem que suas novas famílias saibam, todos eles foram instruídos para realizar um atentado terrorista disfarçado como projeto para a feira de ciências da escola, com o codinome de Operation Havoc.

E assim temos armada a desculpa para Palahniuk destilar a sua acidez, retratando o dia-a-dia da cidade cujo nome nunca descobrimos sob o ponto de vista de um completo estrangeiro. Cada capítulo é apresentado como um dos despachos do protagonista para os seus superiores, através dos quais ele narra suas experiências com a objetividade de um documentário sobre a vida selvagem, onde bailes estudantis se transformam em rituais de cópula e jogos de caçador (ou queimada, para os bárbaros que vivem ao norte do Mampituba) em disputas para impressionar as fêmeas de espécie. E a sátira também vai no sentido contrário, atingindo o próprio país de onde ele veio, apresentado como um pastiche de tudo o que há de mais estereotipado e vulgarizado a respeito de regimes totalitários históricos sob a ótica da xenofobia norte-americana recente.

Esse formato em que a obra é escrita é parte do que a torna divertida, mas também traz um ponto fraco sério. O inglês é propositalmente cheio de erros, como se fosse uma tradução malfeita do idioma original do personagem. Na linguagem em si até há pouco que atrapalhe a compreensão, apesar da leitura ficar um pouco truncada; o problema aparece mesmo na descrição de algumas cenas, especialmente as mais detalhadas, que recorrem muitas vezes a comparações e metáforas que requerem um pouco de imaginação do leitor para funcionarem.

Outro ponto fraco é o final, que acaba sendo um pouco sem graça e previsível. Alguém esperando uma reviravolta bombástica como em Clube da Luta pode ficar decepcionado. Isso contribui para a impressão final de que o livro é só mais uma daquelas sátiras-críticas-da-sociedade-norte-americana, na linha de um genérico de Os Simpsons ou South Park em prosa, o que já pode ser considerado quase um gênero em si.

Mas também não diminui o seu valor como leitura, é claro, já que, apesar dos pesares, Pygmy ainda é uma sátira bem feita, com muitos bons momentos pelo percurso, alguns poucos capazes até de gerar risadas em voz alta. Uma boa recomendação para quem quiser conhecer mais da obra de Palahniuk além do seu livro mais famoso.

Ampliando a Visão

Lembro algum tempo atrás, quando Hideo Kojima (o japa aí do lado) declarou em alguma Tokyo Game Show que não pretendia mais trabalhar na série Metal Gear, trabalho que o consagrou, após Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots, o último lançado, deixando-a a cargo de algum outro produtor enquanto ele se dedicaria a projetos novos. Pessoalmente, vou me interessar muito mais por estes novos projetos de Kojima-sama do que pela continuidade de MG, mas isso é outra história. Quero, no entanto, comentar uma declaração que ele fez na dita conferência: a de que o que realmente queria fazer eram filmes e romances, e não videogames.

Quando li isso, imediatamente lembrei de um documentário que assisti tempos atrás sobre a indústria de videogames, que falava de um criador e jogos ainda mais célebre que Kojima, Shigeru Miyamoto. Também ele não pretendia realmente trabalhar com jogos, era mais um artista do que um programador, e quando conseguiu seu emprego pouco sabia sobre qualquer detalhe mais técnico a respeito da criação de um jogo eletrônico. Em uma das cenas, ele lembra de como os funcionários da empresa pediram a ele um conceito para um jogo, esperando alguma descrição de jogabilidade e aspectos mais formais, e ficaram surpresos quando ele lhes entregou uma pequena história em quadrinhos com o roteiro do primeiro Donkey Kong! E foi assim que criou Mário, Zelda e tantos outros que fizeram da Nintendo o ícone máximo de toda uma geração de jogadores.

Ou seja, temos dois ícones dos videogames, responsáveis por trabalhos divisores de águas dentro da mídia, que, sem interesse inicial, acabaram envolvidos com ela por acaso. Será coincidência?

Eu pessoalmente acho que não. Certamente o fato de ambos terem uma visão “de fora” sobre o meio deu a eles e aos seus jogos um diferencial com relação àqueles mais envolvidos com a criação e processos da criação de um jogo. Assim, não é difícil de imaginar, por exemplo, de onde Kojima retirou toda a linguagem narrativa que tornaram a série Metal Gear a referência em termos de enredo cinematográfico para videogames (Metal Gear Solid 3: Snake Eater tem até uma música tema no melhor estilo 007 de ser), e pela qual alguém que sempre quis criar jogos eletrônicos provavelmente não se interessaria.

Muitas vezes o não conhecimento de normas e convenções pode ser uma vantagem – e isso vale não apenas para a criação de jogos de videogame, mas para qualquer área que envolva uma boa dose de criatividade. A música, por exemplo. Os grandes artistas do rock, blues e tantos outros estilos são aqueles que aprenderam seu ofício sem as algemas do ensinamento tradicional.

Os Engenheiros do Hawaii, por exemplo, que é uma banda que eu gosto muito e conheço razoavelmente bem. O Humberto Gessinger sequer havia tocado em uma guitarra antes de começarem a ensaiar para o seu primeiro show. E quando assumiu o baixo para a gravação do segundo CD da banda, deixando a guitarra a cargo de Augusto Licks, tocava como se ainda estivesse tocando uma, que era, afinal, a experiência que tinha com instrumentos de cordas – e assim criou as linhas de baixo de Infinita Highway, Revolta dos Dândis, Refrão de um Bolero e tantas outras que o tornaram referência para baixistas de todo o país. (E se me permitem este parênteses para proferir a minha modesta opinião de guitarrista, o trabalho dele na época em que empunhava o baixo da banda é o melhor já feito no rock nacional, daquela época, de antes, e ainda de hoje).

Ou seja, o que eu quero dizer é não conheça aquilo que você quer fazer? Não, claro que não. Há uma razão pela qual estas pessoas, sem conhecimento técnico prévio sobre o seu meio, foram capazes de realizar trabalhos tão surpreendentes e significativos: mais do que apenas não conhecer o meio, também não conheciam seus paradigmas e limitações. Livre destes, foram capazes de enxergar além do que alguém com o aprendizado tradicional enxergaria ao tentar seguir as suas normas e convenções, e assim puderam tirar proveito de diversas possibilidades que o meio possuía mas ninguém mais percebia. É um efeito semelhante ao que diversos autores literários da primeira metade do século passado conseguiam ao utilizar substâncias tóxicas para escrever suas obras, assim como bandas de rock nos anos 1960, diretores de filmes nos anos 1970 e roteiristas de quadrinhos nos anos 1980: em meio às alucinações e transes sensoriais induzido pelas drogas, perdiam a capacidade de de discernimento sobre o que estavam fazendo, e assim se desprendiam de todo tipo de idéia pré-concebida que pudessem ter.

Logo, o desconhecimento e as drogas são a chave para o trabalho criativo? Não, também não. Livrar-se de preconceitos, paradigmas e idéias formadas que é. Não conhecer as normas da área em que se vai trabalhar ou usar substâncias tóxicas podem ser bons caminho para fazer algo inovador ou até revolucionário, mas também são grandes as chances de se fazer algo absolutamente ininteligível; simplesmente livrar-se deliberadamente de idéias pré-concebidas e formulações tradicionais pode ser uma garantia muito maior de sucesso. Will Eisner sabia muito bem o que fazia quando experimentava nas histórias em quadrinhos ângulos e técnicas narrativas cinematográficas, mesmo quando todos a sua volta riam da possibilidade das HQs serem vistas como literatura; assim como Marc Bloch e Lucien Febvre ao introduzir no estudo da história elementos de pesquisa sociológica, antropológica, econômica e de outras disciplinas, contrariando escolas de pesquisa mais metódicas e pretensamente objetivas que os precederam. E tanto os quadrinhos de Eisner como a École des Annales de Bloch e Febvre se tornaram referência em seus respectivos meios, trazendo inovações que ditariam os caminhos seguidos nas décadas seguintes.

Acima de tudo, o importante é ampliar a visão sobre o meio que trabalhamos, e enxergar além das possibilidades ditadas por normas e convenções tradicionais. Mais do que apenas repetir o que já foi feito e nos foi ensinado, é preciso saber colher em outros meios idéias, técnicas e possibilidades que possam ser aproveitadas, bem como ver onde é possível introduzir inovações. E isso vale para videogames, música, literatura, pintura, quadrinhos, RPG e qualquer outro meio que trabalhe com criatividade, e mesmo alguns que não a envolvem.

Na Intimidade

Todos passavam pela porta fechada do banheiro e olhavam para ela um pouco assustados e um pouco encabulados ao ouvir os gemidos e suspiros que vinham de dentro. Lá, de frente para o espelho, Paulo suava, a face vermelha de cansaço, movendo com força as mãos. Parou por alguns segundos, recuperou o fôlego em uma série de suspiros, e voltou ao trabalho. Repetiu a mesma sequência por vários minutos, tentando manter um certo ritmo, até que, enfim, veio o alívio: o fluído pegajoso saiu do corpo, deixando atrás de si um sorriso relaxado e a sensação de prazer com o objetivo atingido. Conseguira, finalmente, espremer a maldita espinha!

Lady Vingança

A vingança é angelical. Ou, pelo menos, é a impressão que fica ao assistir Lady Vingança, do coreano Park Chan-wook, que fecha a “trilogia da vingança” do diretor, da qual também fazem parte Senhor Vingança, que eu ainda não vi, e Old Boy, que já é um clássico cult da qual todos minimamente informados devem ao menos ter ouvido falar. A vingança da vez é a de Lee Geum-ja, uma jovem de dezenove anos presa por um crime hediondo cometido pelo namorado, que passou os treze anos de prisão planejando junto com companheiras de cela como devolver para ele tudo o que sofreu.

Não é um filme pra qualquer um, já é bom ir adiantando. A narrativa é bastante fragmentada, indo e vindo no tempo sem aviso, causando bastante confusão principalmente no início; o roteiro também é simples e direto ao ponto, sem aquelas reviravoltas inesperadas típicas do cinema americano pra prender a atenção, e com algumas cenas que se passam demais no simbolismo; e mesmo o dilema moral da redenção versus corrupção causada pela vingança é apresentado de forma bem mais fraca e superficial do que acontece, por exemplo, em Old Boy. O que o filme tem bastante, como os outros da trilogia, é brutalidade e crueza no retrato dos personagens e da ação – certamente não é um filme para a família -, e um humor negro impagável.

Mais do que todo o resto, no entanto, Lady Vingança é um exercício de estilo. Da trilha sonora incidental composta de música erudita, como grupos musicais de igrejas, até a fotografia colorida e berrante, quase alegre, do início do filme, que se transforma em sombria e fria à medida que vai chegando ao clímax inevitável, todos os elementos aludem a uma natureza divina da protagonista, como se ela fosse, mais do que uma mulher, um verdadeiro anjo da vingança, frio e inabalável, livre de paixões e sentimento até o fim, quando finalmente cumpre a sua missão. É esse virtuosismo do diretor, principalmente, que prende a atenção e faz valer a pena acompanhar o filme até o final, pelo menos para aqueles que conseguirem perceber essa beleza um tanto mórbida que ele evoca com muita eficiência.

Lady Vingança, enfim, pode ser um filme para poucos, mas do qual esses poucos certamente vão saber usufruir muito bem. De qualquer forma, eu sei que daqui pra frente vou pensar algumas vezes antes de magoar uma mulher coreana…

Blind Willow, Sleeping Woman

Haruki Murakami é, provavelmente, o mais influente e celebrado autor japonês contemporâneo. Livros como Norwegian Woods, Kafka à Beira-Mar, Minha Querida Sputnik e Após o Anoitecer venderam bem e foram elogiados pela crítica em todo mundo, e renderam mesmo uma indicação como um possível Nobel de literatura. Além destes, seu diário Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida também se tornou rapidamente um best-seller e referência literária. É um autor de peso, portanto, daqueles cujo nome muitas vezes aparece maior que o título do livro nas capas.

Blind Willow, Sleeping Woman é um livro de contos de sua autoria publicado em língua inglesa em 2006. Não se trata de uma versão de um obra original oriental, no entanto – os contos foram reunidos de diversas fontes, e incluem desde algumas das primeiras histórias do autor, escritas ainda na década de 1970 e revisadas para esta edição, até as que fizeram parte do livro de 2005 Tokyo Kitanshu (algo como Contos Estranhos de Tóquio), que foram publicadas em inglês pela primeira vez neste volume. Segundo confessa na introdução, algumas destas histórias foram até mesmo expandidas e tiveram trechos reaproveitados em alguns de seus romances mais conhecidos. Assim, o livro serve bem como um panorama geral da sua obra, fazendo um tour pelos seus principais temas e elementos recorrentes.

De maneira geral, são contos sobre o cotidiano, com personagens enfrentando problemas mundanos no Japão contemporâneo, lidando com a perda de entes queridos, a própria sexualidade, o medo de um terremoto como que aconteceu recentemente, ou o que quer que seja. Ao mesmo tempo, no entanto, a maioria deles não se tratam de histórias realistas no sentido estrito do termo – há geralmente algum elemento inesperado, um homem feito de gelo em uma história, um gênio que concede pedidos no último andar de um restaurante em outra, um macaco falante que rouba nomes em ainda outra, criando todo um universo muito semelhante ao nosso na aparência, mas com um tanto mais de magia e surrealismo no seu recheio. E mesmo nos casos mais mundanos, na verdade, há sempre uma certa tensão e estranhamento em cada parágrafo (o próprio autor se define como um escritor de “ficção estranha”, aliás), como se não fosse possível prever quando um elemento surreal dará as caras. Ler Murakami é como entrar em um estado de sonho em que você nunca sabe onde termina a realidade e começa a fantasia.

Como um músico amador frustrado, eu também acho interessante notar a constante presença da música nas histórias. Muitos personagens são músicos ou lidam com ela de alguma forma, sobretudo o jazz, uma vez que o próprio autor era dono de um bar dedicado ao estilo antes de passar a se dedicar exclusivamente à escrita. Há muitas referências a standards clássicos, e por vezes você quase consegue ouvir um piano solo no fundo, como se tocasse uma trilha sonora. Outro elemento constante são os personagens deslocados, em viagens de férias ou negócios, lidando com o estranhamento de estar em uma terra estranha, provavelmente ecos do período em que Murakami se auto-exilou do seu país natal.

O que nos leva, então, ao que seja talvez o tema mais marcante nestes contos: a solidão. É incrível notar como histórias escritas em um intervalo tão grande de tempo, chegando perto de trinta anos das mais antigas para as mais recentes, conseguem ser tão consistentes nesse ponto em especial. Mesmo quando não dizem com todas as letras, é fácil notar que a maioria dos personagens levam vidas solitárias, sem entes ou amigos próximos, muitas vezes porque de fato perderam aqueles que tinham e não foram capazes de encontrar novos. Assim, se agarram à música, a viagens ao exterior, ao sexo, ou mesmo a cangurus, como última âncora ao mundo em que viviam, exalando uma aura de melancolia a cada frase que os descreve ou diálogo de que participam. Houve um punhado de histórias em que, ao terminar, eu apenas larguei o livro de lado e fiquei parado, olhando para o teto, pensando sobre como o que eu acabara de ler refletia muito da minha própria vida.

Enfim, Blind Willow, Sleeping Woman é uma coletânea de contos bastante notável, de um dos principais nomes da literatura contemporânea. Nem todos os contos são muito leves ou de leitura fácil, mas mesmo assim são uma boa recomendação para qualquer apreciador de bons livros e boas histórias.

Emergência

O alarme da emergência tocou. Médicos, residentes e enfermeiros correram para o quarto do paciente, que estava tendo uma convulsão. Era um velho senhor de setenta anos, internado dias antes devido a uma forte gripe que o seu desgastado organismo não era mais capaz de vencer sozinho. O monitor cardíaco indicava uma parada; estavam a ponto de perdê-lo. Todos agiram com pressa – correram atrás de drogas analgésicas, prepararam as seringas e o soro, buscaram o desfibrilador. Subitamente, no entanto, a convulsão passou, e tudo voltou ao estado anterior, como se nunca tivesse acontecido.

Já mais calmo, mas ainda intrigado, o médico responsável retirou uma amostra de sangue do paciente e a enviou para o laboratório, para descobrir o que havia acontecido. Algumas horas depois, o residente responsável pelo exame o chamou até lá.

– Acho que você vai querer ver isso. – disse, traindo uma expressão de espanto.

O médico se aproximou do microscópio com relutância, observando o que ele revelava sobre a amostra em exame. Afastou o olho, sacodiu a cabeça, e olhou de novo; o afastou mais uma vez, esfregou-o bem com o peito da mão, e olhou ainda outra vez. E nas três vezes, viu exatamente a mesma cena: uma longa linha de vírus de gripe posicionados lado a lado, exibindo um cartaz montado com pedaços de glóbulos vermelhos e plaquetas, onde se liam as palavras Primeiro de Abril! Hahah!


Sob um céu de blues...

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