Blind Willow, Sleeping Woman

Haruki Murakami é, provavelmente, o mais influente e celebrado autor japonês contemporâneo. Livros como Norwegian Woods, Kafka à Beira-Mar, Minha Querida Sputnik e Após o Anoitecer venderam bem e foram elogiados pela crítica em todo mundo, e renderam mesmo uma indicação como um possível Nobel de literatura. Além destes, seu diário Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida também se tornou rapidamente um best-seller e referência literária. É um autor de peso, portanto, daqueles cujo nome muitas vezes aparece maior que o título do livro nas capas.

Blind Willow, Sleeping Woman é um livro de contos de sua autoria publicado em língua inglesa em 2006. Não se trata de uma versão de um obra original oriental, no entanto – os contos foram reunidos de diversas fontes, e incluem desde algumas das primeiras histórias do autor, escritas ainda na década de 1970 e revisadas para esta edição, até as que fizeram parte do livro de 2005 Tokyo Kitanshu (algo como Contos Estranhos de Tóquio), que foram publicadas em inglês pela primeira vez neste volume. Segundo confessa na introdução, algumas destas histórias foram até mesmo expandidas e tiveram trechos reaproveitados em alguns de seus romances mais conhecidos. Assim, o livro serve bem como um panorama geral da sua obra, fazendo um tour pelos seus principais temas e elementos recorrentes.

De maneira geral, são contos sobre o cotidiano, com personagens enfrentando problemas mundanos no Japão contemporâneo, lidando com a perda de entes queridos, a própria sexualidade, o medo de um terremoto como que aconteceu recentemente, ou o que quer que seja. Ao mesmo tempo, no entanto, a maioria deles não se tratam de histórias realistas no sentido estrito do termo – há geralmente algum elemento inesperado, um homem feito de gelo em uma história, um gênio que concede pedidos no último andar de um restaurante em outra, um macaco falante que rouba nomes em ainda outra, criando todo um universo muito semelhante ao nosso na aparência, mas com um tanto mais de magia e surrealismo no seu recheio. E mesmo nos casos mais mundanos, na verdade, há sempre uma certa tensão e estranhamento em cada parágrafo (o próprio autor se define como um escritor de “ficção estranha”, aliás), como se não fosse possível prever quando um elemento surreal dará as caras. Ler Murakami é como entrar em um estado de sonho em que você nunca sabe onde termina a realidade e começa a fantasia.

Como um músico amador frustrado, eu também acho interessante notar a constante presença da música nas histórias. Muitos personagens são músicos ou lidam com ela de alguma forma, sobretudo o jazz, uma vez que o próprio autor era dono de um bar dedicado ao estilo antes de passar a se dedicar exclusivamente à escrita. Há muitas referências a standards clássicos, e por vezes você quase consegue ouvir um piano solo no fundo, como se tocasse uma trilha sonora. Outro elemento constante são os personagens deslocados, em viagens de férias ou negócios, lidando com o estranhamento de estar em uma terra estranha, provavelmente ecos do período em que Murakami se auto-exilou do seu país natal.

O que nos leva, então, ao que seja talvez o tema mais marcante nestes contos: a solidão. É incrível notar como histórias escritas em um intervalo tão grande de tempo, chegando perto de trinta anos das mais antigas para as mais recentes, conseguem ser tão consistentes nesse ponto em especial. Mesmo quando não dizem com todas as letras, é fácil notar que a maioria dos personagens levam vidas solitárias, sem entes ou amigos próximos, muitas vezes porque de fato perderam aqueles que tinham e não foram capazes de encontrar novos. Assim, se agarram à música, a viagens ao exterior, ao sexo, ou mesmo a cangurus, como última âncora ao mundo em que viviam, exalando uma aura de melancolia a cada frase que os descreve ou diálogo de que participam. Houve um punhado de histórias em que, ao terminar, eu apenas larguei o livro de lado e fiquei parado, olhando para o teto, pensando sobre como o que eu acabara de ler refletia muito da minha própria vida.

Enfim, Blind Willow, Sleeping Woman é uma coletânea de contos bastante notável, de um dos principais nomes da literatura contemporânea. Nem todos os contos são muito leves ou de leitura fácil, mas mesmo assim são uma boa recomendação para qualquer apreciador de bons livros e boas histórias.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 199,338 visitas

%d blogueiros gostam disto: