Lady Vingança

A vingança é angelical. Ou, pelo menos, é a impressão que fica ao assistir Lady Vingança, do coreano Park Chan-wook, que fecha a “trilogia da vingança” do diretor, da qual também fazem parte Senhor Vingança, que eu ainda não vi, e Old Boy, que já é um clássico cult da qual todos minimamente informados devem ao menos ter ouvido falar. A vingança da vez é a de Lee Geum-ja, uma jovem de dezenove anos presa por um crime hediondo cometido pelo namorado, que passou os treze anos de prisão planejando junto com companheiras de cela como devolver para ele tudo o que sofreu.

Não é um filme pra qualquer um, já é bom ir adiantando. A narrativa é bastante fragmentada, indo e vindo no tempo sem aviso, causando bastante confusão principalmente no início; o roteiro também é simples e direto ao ponto, sem aquelas reviravoltas inesperadas típicas do cinema americano pra prender a atenção, e com algumas cenas que se passam demais no simbolismo; e mesmo o dilema moral da redenção versus corrupção causada pela vingança é apresentado de forma bem mais fraca e superficial do que acontece, por exemplo, em Old Boy. O que o filme tem bastante, como os outros da trilogia, é brutalidade e crueza no retrato dos personagens e da ação – certamente não é um filme para a família -, e um humor negro impagável.

Mais do que todo o resto, no entanto, Lady Vingança é um exercício de estilo. Da trilha sonora incidental composta de música erudita, como grupos musicais de igrejas, até a fotografia colorida e berrante, quase alegre, do início do filme, que se transforma em sombria e fria à medida que vai chegando ao clímax inevitável, todos os elementos aludem a uma natureza divina da protagonista, como se ela fosse, mais do que uma mulher, um verdadeiro anjo da vingança, frio e inabalável, livre de paixões e sentimento até o fim, quando finalmente cumpre a sua missão. É esse virtuosismo do diretor, principalmente, que prende a atenção e faz valer a pena acompanhar o filme até o final, pelo menos para aqueles que conseguirem perceber essa beleza um tanto mórbida que ele evoca com muita eficiência.

Lady Vingança, enfim, pode ser um filme para poucos, mas do qual esses poucos certamente vão saber usufruir muito bem. De qualquer forma, eu sei que daqui pra frente vou pensar algumas vezes antes de magoar uma mulher coreana…

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