Pygmy

Chuck Palahniuk é conhecido principalmente como o autor de Clube da Luta, o livro que deu origem ao filme estrelado por Brad Pitt e Edward Norton. Quem o assistiu já pode ter uma idéia geral do que esperar da sua obra: uma visão anárquica e ácida da sociedade norte-americana e os seus valores tradicionais, temperada por muito humor negro, violência e escatologia. Não são livros para puritanos; o tempo todo você encontra personagens niilistas e amorais, que tomam atitudes grotescas muitas vezes apenas para satisfazer os próprios egos, sem sequer terem um objetivo específico, além de cenas descritas nos mínimos detalhes capazes de fazer revirar estômagos mais fracos.

Pygmy, lançado em 2009, segue um caminho semelhante. O personagem-título é um jovem nascido em uma ditadura comunista do extremo oriente e enviado para uma cidadezinha do interior do Estados Unidos como aluno de intercâmbio, junto com um grupo de colegas da mesma idade. Em segredo, no entanto, sem que suas novas famílias saibam, todos eles foram instruídos para realizar um atentado terrorista disfarçado como projeto para a feira de ciências da escola, com o codinome de Operation Havoc.

E assim temos armada a desculpa para Palahniuk destilar a sua acidez, retratando o dia-a-dia da cidade cujo nome nunca descobrimos sob o ponto de vista de um completo estrangeiro. Cada capítulo é apresentado como um dos despachos do protagonista para os seus superiores, através dos quais ele narra suas experiências com a objetividade de um documentário sobre a vida selvagem, onde bailes estudantis se transformam em rituais de cópula e jogos de caçador (ou queimada, para os bárbaros que vivem ao norte do Mampituba) em disputas para impressionar as fêmeas de espécie. E a sátira também vai no sentido contrário, atingindo o próprio país de onde ele veio, apresentado como um pastiche de tudo o que há de mais estereotipado e vulgarizado a respeito de regimes totalitários históricos sob a ótica da xenofobia norte-americana recente.

Esse formato em que a obra é escrita é parte do que a torna divertida, mas também traz um ponto fraco sério. O inglês é propositalmente cheio de erros, como se fosse uma tradução malfeita do idioma original do personagem. Na linguagem em si até há pouco que atrapalhe a compreensão, apesar da leitura ficar um pouco truncada; o problema aparece mesmo na descrição de algumas cenas, especialmente as mais detalhadas, que recorrem muitas vezes a comparações e metáforas que requerem um pouco de imaginação do leitor para funcionarem.

Outro ponto fraco é o final, que acaba sendo um pouco sem graça e previsível. Alguém esperando uma reviravolta bombástica como em Clube da Luta pode ficar decepcionado. Isso contribui para a impressão final de que o livro é só mais uma daquelas sátiras-críticas-da-sociedade-norte-americana, na linha de um genérico de Os Simpsons ou South Park em prosa, o que já pode ser considerado quase um gênero em si.

Mas também não diminui o seu valor como leitura, é claro, já que, apesar dos pesares, Pygmy ainda é uma sátira bem feita, com muitos bons momentos pelo percurso, alguns poucos capazes até de gerar risadas em voz alta. Uma boa recomendação para quem quiser conhecer mais da obra de Palahniuk além do seu livro mais famoso.

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