Arquivo de maio \30\UTC 2011

The Atrocity Archives

Acho que poucos autores têm uma influência na literatura de massas contemporânea tão significativa como a de H. P. Lovecraft. O seu universo de males ancestrais, deuses alienígenas e ciências obscuras possui ecos em dezenas de autores de inúmeras mídias, da literatura em prosa aos videogames, passando pelos quadrinhos, o cinema e até a música. Sempre que você vir em uma história segredos enlouquecedores, monstros além da compreensão, e, é claro, tentáculos em profusão, é bem possível que esteja diante de uma das inúmeras homenagens à sua obra. E os seus próprios mitos já foram usados e reinterpretados à exaustão, seguindo a lógica do pastiche em histórias de ação, aventura, ficção científica, super-heróis, humor, etc.

Charles Stross, apesar de ser mais conhecido pelos seus trabalhos de ficção científica, é um dos autores que se aventurou neste campo, na sua série The Laundry Files. Nela conhecemos Bob Howard, agente da Laundry (ou Lavanderia), um setor secreto do governo britânico encarregado de lidar com ameaças sobrenaturais de diversos tipos – algo como um MI6 paranormal, digamos assim -, e suas missões para salvar o mundo de criaturas cósmicas em meio a reuniões, cortes de orçamento e formulários em três vias. The Atrocity Archives é o primeiro livro da série, contando como se deu a sua transformação em agente de campo; e as suas edições mais recentes trazem ainda a novela The Concrete Jungle, ganhadora do prêmio Hugo, que dá seqüência às suas aventuras.

O elemento que primeiro chama a atenção na série é como ela atualiza os temas e mitos de Lovecraft para o nosso tempo. É um cenário onde teoremas místicos viram fórmulas matemáticas, um PDA pode possuir programas de invocações arcanas, e mesmo entidades sobrenaturais são muitas vezes descritas com termos da tecnologia da informação – simplificando bastante, podemos dizer que é quase um cybercthulhu. Bob, o protagonista, não é apenas um agente de campo de um serviço secreto, mas também um técnico em informática capaz de literalmente hackear os rituais dos cultos que deve enfrentar. As referências históricas e políticas também estão bastante atualizadas, desde os onipresentes nazistas e suas experiências misteriosas com ciências ocultas, até as mais recentes redes de terrorismo árabes. O resultado é um universo bastante envolvente e criativo, pelo menos para quem souber reconhecer as referências, e muito interessante de se descobrir durante a leitura.

Para além das ameaças sobrenaturais e o horror cósmico, há também uma segunda dimensão muito divertida explorada na série, que é o universo da própria Laundry, descrita como um setor público com todas as suas virtudes e, principalmente, os seus vícios. Qualquer um que já tenha trabalhado em um, ou ao menos perdido horas ou dias correndo de um guichê a outro de atendimento ao público, sabe o filme de terror que eles podem ser – os tentáculos de deuses ancestrais pouco representam frente aos tentáculos da burocracia, e às vezes a missão para salvar o mundo pode ser mesmo menos importante do que a reunião que definirá os cortes do orçamento para o seu setor. As próprias disputas internas por verbas podem acabar pondo Londres, ou o universo inteiro, em perigo.

A edição pocket que eu adquiri, além das duas histórias, também continha um pequeno posfácio do autor, em que ele discute um pouco das referências usadas na concepção da série. É um texto muito interessante, pelo menos para quem gosta de se aventurar pelo universo da literatura fantástica, mostrando como referências aparentemente desconexas podem ser reunidos em uma obra única – da literatura de horror à de espionagem (em especial os livros de Len Deighton, em oposição ao muito mais popular Ian Flemming) ao universo dos hackers contemporâneos. Mesmo do ponto de vista crítico, ele possui também alguns insights bastante interessantes, como a sua descrição da literatura de espionagem como uma forma de terror durante a Guerra Fria, quando ameaças de holocausto nucleares eram mesmo plausíveis, bem como a sua descrição da obra de Lovecraft nos termos da literatura de espionagem.

No fim, The Atrocity Archives é uma leitura bastante divertida, com um universo envolvente e personagens interessantes, que eu recomendo para fãs de Lovecraft e literatura fantástica em geral.

Caixa Preta

Todos aguardavam ansiosos pelos resultados da perícia da caixa-preta. Muitos ainda tinham a tragédia gravada forte na memória – a aeronave fora de controle durante o pouso, batendo com força contra a torre de comando. Centenas de mortos, famílias desconsoladas, procissões durante os funerais. E agora, quase um ano depois, era hora de saber o que havia acontecido.

O anúncio seria feito ao vivo, às oito horas da noite em ponto, simultaneamente em todas as emissoras de rádio e televisão de sinal aberto. Todos olharam ansiosos quando a programação foi interrompida, e muitos mesmo ligaram seus aparelhos no horário apenas para ver o pronunciamento. Do outro lado da tela, um homem engravatado, vestindo um terno de linho escuro, respirava profundamente antes de começar a falar.

– Analisamos os dados da caixa preta de todas as formas possíveis. – ele falava em um tom sereno, com um ritmo cuidadoso. – Acreditamos saber, enfim, qual foi a causa do acidente.

Todos os que assistiam prenderam a respiração, aguardando o anúncio que viria a seguir.

– Parece que alguém esqueceu de retornar a poltrona para a posição vertical durante o pouso…

Quebra-Cabeça

A vida é um quebra-cabeças de duas peças, atiradas ao acaso pelo mundo. Sorte tem quem encontra o seu encaixe perfeito e pode ver a paisagem por inteiro.

Haicai Suspirante

Olhares transmitidos
Por nuvens wi-fi.
Ai, ai…

Comentário

– Ah, sim. “Matem o mensageiro!” Muito criativo. – disse o mosquito ao ver o cartaz da campanha de conscientização contra a dengue.

Hard-Boiled Wonderland and The End of the World

Existe um certo conflito no mercado literário entre o que se chama de literatura mainstream e a literatura dita de gênero. Diferentemente do que ocorre no mainstream e o underground na música, no entanto, esta não é uma divisão assim tão óbvia e ululante. A definição mais comum é a de que o mainstream seria a literatura da forma, onde o meio de se contar a história e o cuidado no trato com as palavras seria o fundamental; enquanto a literatura de gênero seria, ao contrário, a do conteúdo, do gênero propriamente dito, com foco na história em que se quer contar. Na prática, a divisão acaba sendo mais entre a literatura “séria”, aquela que as pessoas inteligentes e respeitáveis deveriam ler, e o “lixo literário”, digamos assim, com as histórias de fantasia, ficção científica, mistério e todo o resto que as pobres mentes não evoluídas consomem. E como acontece freqüentemente nesses casos, a classificação de uma obra em um ou outro grupo acaba sendo muito mais uma definição arbitrária do que propriamente um indicativo do seu conteúdo ou qualidade de fato.

Vejamos o caso do autor japonês Haruki Murakami, por exemplo. Tecnicamente, é um autor mainstream – é respeitado pela crítica literária, seus livros são recomendados por grandes revistas, e ele já chegou mesmo a ser indicado como um possível ganhador do prêmio Nobel. A maioria dos seus livros, no entanto, inclui diversos elementos fantasiosos, de mistério e outros flertes algo mais do que sutis com o que seria a literatura de gênero. Você vai encontrar lá animais que falam com humanos (e o contrário também, pessoas que falam com animais), prostitutas psíquicas, belas adormecidas… Tudo isso em meio a um ambiente quase realista, urbano, mas com uma aura de sonho pairando sempre sobre os personagens e os enredos. Acho que o seu livro que subverte mais profundamente essa divisão mainstream/gênero, ao menos entre os que eu já li, é Hard-Boiled Wonderland and The End of the World.

A narrativa é dividida em duas historias, Hard-Boiled Wonderland e The End of the World, contadas em capítulos alternados. O protagonista da primeira é um calcutec, uma espécie de programador/criptógrafo que utiliza o inconsciente para criptografar dados e assim protegê-los de hackers, em especial os semiotecs, calcutecs renegados trabalhando para um grupo conhecido como a Factory. No começo do livro ele está a caminho para um serviço pelo qual foi contratado, onde deve proteger os dados de um cientista misterioso realizando experimentos obscuros com redução sonora; e a partir daí, é claro, vai se envolvendo com enredos e conspirações crescentes a cada  capítulo. (Nenhum personagem em ambas as histórias, aliás, possui um nome próprio – o protagonista de cada uma narra os acontecimentos em primeira pessoa, enquanto os demais são referidos pela sua ocupação ou alguma característica marcante: o cientista, a garota de rosa, a bibliotecária, etc).

Já na segunda história o narrador é um recém-chegado à Cidade (ou Town), uma pequena vila cercada por um muro perfeito e intransponível que dizem ser localizada no fim do mundo, cujo mapa contendo os seus principais pontos abre o volume. Para ser aceito pelos seus habitantes ele deve primeiro abrir mão da sua sombra, que só pode viver do lado de fora, e então recebe a função a de ser um dreamreader, responsável por ler os sonhos contidos em um conjunto de crânios de unicórnios guardados na biblioteca local. E aos poucos, na medida em que avançam os capítulos, ele vai também encontrando e tentando desvendar os segredos deste lugar misterioso, bem como o destino a que condenou a sua sombra ao entrar na cidade.

Há uma ligação entre as duas histórias revelada próximo ao final, é claro, mas mesmo assim elas praticamente nunca se cruzam ou influem diretamente uma na outra. É um pouco como estar lendo dois romances simultaneamente, um mais puxado para a ficção científica, quase um cyberpunk não-futurista, e o outro uma fábula fantástica repleta de simbolismos e acontecimentos maravilhosos. E mesmo o primeiro, na verdade, conta ainda com diversos elementos fantásticos puros, de youkais comedores de humanos à própria pesquisa sobre redução sonora, que tem muito mais de imaginação do que propriamente especulação científica. Como acontece com freqüência na obra de Murakami, o foco das histórias está menos na sua conclusão, em buscar um desfecho que pode mesmo parecer inconclusivo e aberto demais, e mais no caminho realizado até lá, em sentir a história mais do que desvendá-la, e acompanhar o desenvolvimento dos personagens e as situações surreais pelas quais eles passam, sempre repletas de citações literárias e musicais.

No fim, Hard-Boiled Wonderland and The End of the World é um livro muito gostoso de se ler, com personagens cativantes e algumas passagens realmente memoráveis, em especial nos capítulos do The End of the World. Talvez alguns se decepcionem com a forma como acaba, um tanto abruptamente, como se deixasse espaço para uma continuação que nunca foi escrita, mas, pessoalmente, não acho que isso seja um defeito – o final em aberto está lá menos para nos deixar ávidos e curiosos e mais porque era, de fato, o fim do que havia para contar, e os mistérios sugeridos mas nunca resolvidos não são realmente tão fundamentais para os personagens. Não posso deixar de recomendar, mesmo que, até onde eu saiba, ainda não tenha sido publicada uma edição em português.

Transmetropolitan – De Volta às Ruas

Não preciso dizer muito do que eu penso sobre o jornalismo contemporâneo que eu já não tenha dito antes. Pode ser difícil para um leitor médio da Veja ou Carta Capital (pra ninguém dizer que eu estou sendo tendencioso) entender, mas jornalismo isento e imparcial é uma ficção (a menos que estejamos falando d’O Sensacionalista, é claro, o único jornal isento de verdade). Nada mais natural, portanto, que o seu maior baluarte seja de fato um jornalista fictício, o protagonista Spider Jerusalem da série Transmetropolitan, a magnum opus do roteirista britânico Warren Ellis.

Spider é obcecado por descobrir A Verdade, em letras maiúsculas mesmo, e relatá-la em suas colunas para o jornal A Palavra. É também usuário de mais drogas estimulantes e alucinógenas do que devem ser descobertas durante o próximo século, um fumante compulsivo que obriga até o seu gato de duas cabeças a segui-lo no vício, um bastardo sem consideração pelos sentimentos alheios, e uma figura de maneira geral imprevisível e perigosa de se ter ao redor, especialmente se estiver acompanhado do seu disruptor intestinal. Enfim, pode-se dizer que é uma versão cyberpunk de Hunter S. Thompson, o pai do jornalismo gonzo, conhecido por clássicos do jornalismo literário como Hell’s Angels e Medo e Delírio em Las Vegas; ao mesmo tempo, no entanto, é também um alter-ego do próprio Ellis, tendo muito da personalidade que ele expõe aos leitores do seu blog e twitter.

De Volta às Ruas, o primeiro volume encadernado lançado aqui pela Panini, conta a história de como ele, após cinco anos de reclusão nas montanhas, é obrigado a voltar à metrópole para cumprir um contrato de publicação firmado antes do isolamento. A Cidade, como é conhecida, é uma personagem à parte, praticamente um segundo protagonista da série, tão imprevisível e perigoso como o primeiro: um universo cyberpunk levado ao extremo, onde a tecnologia permite praticamente tudo, de latas de isolamento sonoro a bombas de publicidade, e mesmo a presidência dos Estados Unidos é quase uma propriedade particular. Spider a odeia com todas as suas forças; ao mesmo tempo, no entanto, entende bem que precisa dela, precisa sentir as suas ruas sob os seus pés e respirar o seu ar radioativo, ou é incapaz de escrever uma linha sequer. É esta relação de ódio e necessidade que dá a tônica destas primeiras histórias, enquanto somos apresentados ao ambiente e personagens que serão importantes nos arcos mais longos dos volumes seguintes.

Trata-se de uma série carregada no sarcasmo e no humor negro, do tipo que anda sempre na corda bamba entre a provocação e a ofensa pura. E isso é o que ela tem de melhor – não são histórias inofensivas, que você lê, ri e guarda inocentemente na prateleira, mas que constantemente questionam visões de mundo e opiniões formadas no senso comum. É o Warren Ellis no seu ápice: você pode perceber em cada quadro ou diálogo a paixão com que foram escritos, como se ele estivesse finalmente contando a história que realmente quer, depois dos anos preso nos roteiros de super-heróis que o lançaram no mercado.

Enfim, Transmetropolitan – De Volta às Ruas, bem como o resto da série toda se a editora não tiver ainda desistido da sua publicação, é uma diversão inteligente e provocante, como só certos autores de quadrinhos britânicos são capazes de fazer. Recomendo muito.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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