Gerações

Montanhas Uivantes, ano 1401 do Calendário Élfico.

Era um dia frio. Sempre é assim nas Uivantes, pensava Gregor Toriam V enquanto circundava atento uma das montanhas, procurando uma entrada para o seu interior. Levara décadas para que seu pai descobrisse como vencer afinal Victor Gorgia, o lich que gerações inteiras da sua família falharam em destruir, e agora ele finalmente se aproximava do local onde o amuleto com a alma do inimigo estava guardado. Não foi difícil encontrar o lugar, apenas seguindo as histórias de fantasmas e mortos-vivos que normalmente não são comuns na região; restava apenas encontrar a entrada para a caverna.

Subitamente, dois esqueletos de mamute se levantaram de baixo da neve, preparando-se para atacá-lo. O tamanho dos animais assustaria alguns jovens inexperientes, mas não a Gregor, filho de um dos maiores guerreiros que o Reinado já conheceu. Manejando habilmente a espada mágica que pertenceu a seu bisavô, acertou dois golpes certeiros nos membros dianteiros dos inimigos, incapacitando os seus movimentos, e logo o combate terminou.

Era o sinal que o jovem procurava – apenas mais alguns metros e um gigantesco buraco nas montanhas anunciava a entrada para o esconderijo final do seu nêmesis. Tomando cuidado para evitar possíveis armadilhas, Gregor adentrou o local, e logo encontrou um pedestal de gelo onde repousava um amuleto brilhante.

– Finalmente, depois duzentos anos, o tormento da minha família chega ao fim. Pela justiça de Khalmyr, eu o esconjuro deste mundo, ser vil! – e desferiu um forte golpe no amuleto, ecoando por toda caverna.

O amuleto ainda permaneceu intacto, sem sequer um arranhão.

Gregor sorriu com o canto da boca. Puxou do pequeno saco preso na cintura um pergaminho preparado por Bardolph, e começou recitar as palavras contidas nele:

Eltov Á Amrof Edlimuh Euq Ecerem!

Após a última palavra o amuleto começou a brilhar intensamente. Uma forma etérea saiu de dentro dele e se desfez no ar, emitindo um grito ensurdecedor que pôde ser ouvido por toda a região.

Estava terminado.

Gregor tentou começar a gargalhar, mas a caverna começou a desmoronar. O guerreiro correu, a procura de uma saída – mas já era tarde; o local por onde entrara já estava bloqueado. Conformado, sentou-se no chão e esperou pelo fim. Não tivera tempo até então de constituir uma família, mas pelo menos sua missão secular estava cumprida. Sua linhagem acabava junto com seu grande inimigo.

***

Arredores de Gorendill, Deheon, 1376 CE.

Por pouco as pedras do desmoronamento não atingiram em cheio o velho Gregor Toriam IV. Sua capacidade física, no entanto, não era a mesma aos setentas anos que fora aos vinte, e ele não conseguiu evitar que o próximo ataque acertasse a perna direita. Caído, sem ação, nada podia fazer exceto esperar pelo cadáver andante que se aproximava.

– Idiota. Achou mesmo que eu seria estúpido o bastante para guardar o amuleto comigo, sabendo que viria atrás de mim?

– Ria enquanto pode, lich. Neste exato instante, o velho Bardolph está cuidando para que meu filho saiba exatamente o que deve fazer para destruí-lo. Em pouco tempo, Arton estará livre de sua presença!

– Pois que ele venha atrás de mim. Acaberei com ele da mesma forma que acabo com você agora, e que acabei com o seu pai antes de você, e com o pai dele antes dele. – com a mão estendida, o lich começou a preparar o feitiço que ceifaria seu inimigo.

– Está em suas mãos agora, filho. – o velho guerreiro fechou os olhos, esperando pelo seu destino. Seus últimos pensamentos estavam em Valkaria, onde um jovem garoto, sob a tutela de um velho mago, recebia a notícia de que seu pai acabara de ser morto.

***

Valkaria, capital de Deheon, 1310 CE.

– Sem dúvida é uma cidade impressionante esta Valkaria construída pelos exilados. Aliás, como é seu nome mesmo?

– Bardolph.

– Bardolph, isso. Sou Gregor Toriam III, muito prazer. Tenho certeza que esta cidade em algumas décadas será o centro do mundo, muito maior do que qualquer das cidades do sul. Não me surpreende que ele tenha vindo para cá.

– Perdõe-me se parecer rude… Mas porque está a procura de aventureiros para ir atrás desse tal lich? Parece-me algo arriscado demais para se fazer e abdicar de todo tesouro que encontrarmos.

O guerreiro suspirou.

– Está vendo esta espada? Foi forjada pelos melhores ferreiros de Lamnor, o continente ao sul daqui, e encantada pelos maiores magos de Lenórienn, o reino élfico. Seu simples toque em um morto-vivo queima e arde como poucas coisas são capazes de fazer a estas criaturas. Ela pertenceu ao meu pai.

– Seu pai?

– Sim. E nem ela impediu que ele fosse morto nas mãos desse lich que iremos caçar.

– Vingança, então?

– Mais do que isso. É uma missão de família. O pai do meu pai já havia jurado destruí-lo, cem anos atrás.

– Entendo. E por isso você abre mão de qualquer tesouro que encontrarmos com ele?

– Exatamente. Estou chegando na cidade agora, depois de uma viagem de vinte anos desde que parti da minha cidade natal em Cobar atrás do maldito, e não possuo no momento condições de contratar aventureiros. E também sei que certamente ninguém se arriscaria a enfrentar um lich sem ter ao menos uma boa recompensa como garantia. Ninguém seria tão idiota.

***

Tallba, pequeno vilarejo de Cobar, 1276 CE.

– Idiota! Você possui alguma idéia do que acabou de fazer?

– Sim! Estou vingando a morte de meu pai! – Gregor Toriam II mal conseguia falar enquanto se debatia no ar, preso pelo poderoso feitiço conjurado pelo lich.

– Mas ela não tinha qualquer coisa a ver com isso! Era apenas uma jovem que queria aprender magia! Talvez, se demonstrasse talento suficiente, eu pudesse transformá-la em uma lich, para compartilhar comigo a eternidade!

– E aumentar ainda mais essa praga de mortos-vivos que a sua magia trouxe ao mundo? Agora fico mais contente de tê-la matado!

– Cale-se! – em um ímpeto de fúria, o lich atirou o guerreiro contra a parede.

– Pois então me mate! Mesmo que faça isso, meu filho irá atrás de você! E o filho dele também! E se você eternamente caminhar por Arton, o clã dos Toriam esternamente o estará caçando! Seremos a sua sina para toda eternidade!

– Pois então eu matarei o seu filho! E o filho dele também! E assim será eternamente, ou até que o último dos Toriam encontre seu fim! – com um gesto simples, o corpo do guerreiro explodiu. O braço com a espada voou até um pequeno armário, de onde uma criança trêmula ouvia a tudo o que acontecia do lado de fora, ao mesmo tempo em que o lich, após descarregar a raova, se dirigia calmamente para fora da propriedade. – Eternamente… – murmurava para si, caminhando pela estrada de terra.

***

Tallba, Cobar, 1190 CE.

Duas crianças estavam sentadas na beira da estrada, conversando.

– …e é por isso que, quando eu crescer, eu quero ser um lich!

– Mas Victor, se você for um lich e eu for um paladino, eu vou ter que te matar! A gente não vai mais poder ser amigo!

– Burro! Não ouviu o que eu disse? Liches vivem pra sempre! Se você me matar, eu volto de novo depois!

– Mas então o meu filho vai ter que te matar! E o filho dele também!

– Mas…

– Victor! Está ficando tarde! Venha pra dentro!

– Ah, mãe…

– Vamos, filho. Tenho certeza que a Sra. Toriam deve estar preocupada com o Gregor também!

– Até amanhã, Gregor!

– Até amanhã!

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