Transmetropolitan – De Volta às Ruas

Não preciso dizer muito do que eu penso sobre o jornalismo contemporâneo que eu já não tenha dito antes. Pode ser difícil para um leitor médio da Veja ou Carta Capital (pra ninguém dizer que eu estou sendo tendencioso) entender, mas jornalismo isento e imparcial é uma ficção (a menos que estejamos falando d’O Sensacionalista, é claro, o único jornal isento de verdade). Nada mais natural, portanto, que o seu maior baluarte seja de fato um jornalista fictício, o protagonista Spider Jerusalem da série Transmetropolitan, a magnum opus do roteirista britânico Warren Ellis.

Spider é obcecado por descobrir A Verdade, em letras maiúsculas mesmo, e relatá-la em suas colunas para o jornal A Palavra. É também usuário de mais drogas estimulantes e alucinógenas do que devem ser descobertas durante o próximo século, um fumante compulsivo que obriga até o seu gato de duas cabeças a segui-lo no vício, um bastardo sem consideração pelos sentimentos alheios, e uma figura de maneira geral imprevisível e perigosa de se ter ao redor, especialmente se estiver acompanhado do seu disruptor intestinal. Enfim, pode-se dizer que é uma versão cyberpunk de Hunter S. Thompson, o pai do jornalismo gonzo, conhecido por clássicos do jornalismo literário como Hell’s Angels e Medo e Delírio em Las Vegas; ao mesmo tempo, no entanto, é também um alter-ego do próprio Ellis, tendo muito da personalidade que ele expõe aos leitores do seu blog e twitter.

De Volta às Ruas, o primeiro volume encadernado lançado aqui pela Panini, conta a história de como ele, após cinco anos de reclusão nas montanhas, é obrigado a voltar à metrópole para cumprir um contrato de publicação firmado antes do isolamento. A Cidade, como é conhecida, é uma personagem à parte, praticamente um segundo protagonista da série, tão imprevisível e perigoso como o primeiro: um universo cyberpunk levado ao extremo, onde a tecnologia permite praticamente tudo, de latas de isolamento sonoro a bombas de publicidade, e mesmo a presidência dos Estados Unidos é quase uma propriedade particular. Spider a odeia com todas as suas forças; ao mesmo tempo, no entanto, entende bem que precisa dela, precisa sentir as suas ruas sob os seus pés e respirar o seu ar radioativo, ou é incapaz de escrever uma linha sequer. É esta relação de ódio e necessidade que dá a tônica destas primeiras histórias, enquanto somos apresentados ao ambiente e personagens que serão importantes nos arcos mais longos dos volumes seguintes.

Trata-se de uma série carregada no sarcasmo e no humor negro, do tipo que anda sempre na corda bamba entre a provocação e a ofensa pura. E isso é o que ela tem de melhor – não são histórias inofensivas, que você lê, ri e guarda inocentemente na prateleira, mas que constantemente questionam visões de mundo e opiniões formadas no senso comum. É o Warren Ellis no seu ápice: você pode perceber em cada quadro ou diálogo a paixão com que foram escritos, como se ele estivesse finalmente contando a história que realmente quer, depois dos anos preso nos roteiros de super-heróis que o lançaram no mercado.

Enfim, Transmetropolitan – De Volta às Ruas, bem como o resto da série toda se a editora não tiver ainda desistido da sua publicação, é uma diversão inteligente e provocante, como só certos autores de quadrinhos britânicos são capazes de fazer. Recomendo muito.

0 Responses to “Transmetropolitan – De Volta às Ruas”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 193,026 visitas

%d blogueiros gostam disto: