Game of Thrones

Voltemos a falar de Game of Thrones então, já que o assunto é popular e a minha auto-estima sinceramente poderia aproveitar um aumento nos pageviews. Para quem (ainda) não sabe, se trata de uma série de livros do autor norte-americano George R. R. Martin, cujo primeiro volume eu já resenhei anteriormente, e que agora foi transformada em uma série de televisão pela emissora HBO. Quem quiser saber mais sobre a série toda, no entanto, tanto a de livros como a televisiva, eu recomendo mesmo é visitar o blog Leitura Escrita, que tem como autora uma das maiores fás da série que você vai achar por aí, e por isso tem a sua dúzia de artigos sobre ela, incluindo comentários semanais a cada novo capítulo exibido aqui no Brasil.

Em todo caso, só para não deixar perdido quem tiver preguiça de clicar em todos estes links, o que você deve saber em primeiro lugar é que ela conta uma história épica de fantasia medieval. Esqueça o seu Senhor dos Anéis, no entanto, e as suas batalhas profetizadas entre o Bem e o Mal claramente definidos, onde todos os orcs são feios e todos os elfos são belos e loiros. A coisa aqui é bem mais complicada, os tons predominantes são os cinzentos, e aquele galã bonitão em uma armadura brilhante e cavalgando um cavalo branco pode muito bem ser um regicida cínico que come a própria irmã. As batalhas são sujas, as mortes são sangrentas, e os princípios em jogo nem sempre são os mais justos e honrados – bem pelo contrário, você se pega constantemente questionando as atitudes dos protagonistas, e tentando decidir quem, afinal, são os mocinhos e os vilões verdadeiros no fim das contas.

É uma série grande – até agora já foram lançados quatro livros (sendo os dois primeiros já publicados no Brasil pela editora Leya), um quinto recém foi terminado e deve ser lançado ainda este ano, e a previsão atual (que sempre pode ser alterada, para mais ou para menos) é de que tenha sete volumes ao todo. Mais do que isso, é também uma série grandiosa, com dezenas de personagens, grande cuidado na construção da ambientação, de forma a fazer inveja mesmo em muitos romances históricos, além de uma trama complexa repleta de reviravoltas e desenvolvimentos inesperados. Não é, enfim, o tipo de história que funcionaria em uma produção para o cinema, tendo que condensar por vezes mais de mil páginas em filmes de duas horas de duração, sem contar na dificuldade em encontrar atores decentes para todos os coadjuvantes.

O formato para televisão, por outro lado, permite contornar a maioria destes problemas, ainda mais com o apoio da HBO, uma das maiores redes de televisão pagas dos Estados Unidos, e que tem bala na agulha pra investir em séries assim, vide Roma (mas tenho que admitir que ainda estou curioso para ver como vão ficar algumas das cenas mais épicas das próximas temporadas). Foi possível investir pesado na pré-produção, com criação de cenários e inúmeros figurinos únicos, além de contratar bons atores até para papéis menores, inclusive porque muitos deles crescem em importância com o decorrer dos acontecimentos (e outros tantos morrem ainda na primeira temporada, o que significa espaço no orçamento para novos atores depois…). Tudo feito com o máximo de cuidado, para fã nenhum botar defeito.

Quanto à adaptação em si, é claro que eu não posso falar como alguém que só conhece a série televisiva, uma vez que já li os quatro primeiros livros em inglês há algum tempo e tenho roído as unhas e os dedos na espera pelo quinto desde então. O que posso dizer é que todas as principais cenas que podem ser adaptadas o foram, o que quer dizer que o cerne do enredo está todo lá; uma ou outra cena menor faz falta, mas nenhuma mais do que o espaço que há nos livros para monólogos internos e reflexões dos personagens. No que foi possível, em especial a respeito de flashbacks de acontecimentos que antecedem o enredo principal, eles foram transferidos para cenas novas, em que personagens secundários ou que não têm tanta importância na primeira temporada discutem a respeito destes eventos passados; outros tantos, no entanto, realmente se perderam, e fizeram falta sobretudo para a Daenerys Targaryen, que parece um tanto isolada e perdida dos outros protagonistas na sua linha narrativa.

Isso me remete a outro problema, aliás, que é o fato de que o número de personagens é grande demais, e não há tempo de tela suficiente para a maioria deles aparecer. Nos primeiros capítulos, em especial, é tamanha a quantidade de personagens a apresentar e conflitos a serem levantados que a ação pode parecer bastante lenta – mas na verdade isso é um problema do primeiro livro também, que leva centenas de páginas apresentando situações e conflitos antes que alguma coisa importante comece de fato a acontecer, então pode ser considerado até mesmo um ponto positivo na fidelidade da adaptação. Só que bastante se perde com isso também, especialmente na importância dos direwolves para os jovens Stark, que fica muito diminuída com a redução da sua presença nas cenas.

Quanto aos atores, não há muito o que reclamar. Acho que a Cersei Lannister talvez pudesse ser melhor escalada (e eu já disse quem seria a minha atriz perfeita para ela), e um ou outro personagem menor também, mas de maneira geral todos estão muito bem caracterizados nos seus papéis. Três deles merecem destaque especial: Peter Dinklage está perfeito como Tyrion Lannister, o Imp / Duende, roubando a cena sempre que aparece (e só imagino como será na segunda temporada, onde já no livro o personagem roubava a cena…); Maisie Williams é adorável demais como a tomboy Arya Stark, realmente um achado dos diretores de elenco, até por ser difícil encontrar atores mirins dessa qualidade; e Harry Lloyd quase nos faz desejar que a linha narrativa dos irmãos Targaryen tivesse o Viserys como protagonista, tão forte é a sua atuação. É interessante notar também como muitos personagens tem certos aspectos da sua personalidade que nos livros só são revelados em volumes posteriores já trabalhados desde a primeira temporada, em algumas cenas extras que os colocam em evidência um tanto mais cedo, nos fazendo questionar desde já as suas motivações e princípios, tanto para o bem como para o mal.

Em todo caso, mesmo com os problemas apontados, não posso deixar de recomendar Game of Thrones, tanto a série de televisão como a de livros, para qualquer fã sério de fantasia, romances históricos ou simplesmente boas histórias. Os visuais e o figurino são lindos, desde a própria vinheta de abertura, os personagens são cativantes e bem construídos, mesmo os (supostos) vilões são daqueles que nós temos gosto em odiar, e a história é complexa, envolvente e cheia de surpresas. É daquelas para ver episódio por episódio, e depois comprar os DVDs / Blu-Rays e colocá-los em posição de honra na estante.

6 Responses to “Game of Thrones”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 03/06/2011 às 23:06

    Concordo tanto que nem tem o que comentar. Onde posso assinar embaixo?

  2. 2 Comaru 04/06/2011 às 13:08

    Cara, concordo contigo em quase tudo, só tem uma coisa que me deixa encucado na série e que já comentei antes. O poder da TV de mostrar demais e dizer pouco.
    E a parte do mostrar demais pode realmente tirar o gosto da história, já que boa parte dela é cheia de mistérios como dá pra notar já no primeiro capítulo da série. Outra cena que envolve Arya nas catacumbas também perdeu muito quando mostrada na tela.
    Esse é o tipo de coisa que pode desestimular quem viu a série e depois foi procurar os livros, por isso aconselho muito que corram atrás dos livros primeiro.

  3. 3 montagens de fotos 13/06/2011 às 00:42

    a serie ta show mas o livro eh obrigatorio


  1. 1 A Dance With Dragons « Rodapé do Horizonte Trackback em 26/08/2011 às 15:11
  2. 2 Guerra dos Tronos RPG | Rodapé do Horizonte Trackback em 29/03/2013 às 11:12
  3. 3 O Cavaleiro dos Sete Reinos | Rodapé do Horizonte Trackback em 22/06/2014 às 00:30

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