Da Literatura no Futebol

Ainda na Copa do Mundo do ano passado, escrevi um looooongo texto justificando a minha torcida pela seleção do Dunga. Como admiti lá, à parte pelas minhas razões bem específicas naquela situação, na maior parte do tempo eu acho jogos de seleções meio chatos, e os da seleção brasileira muito mais do que os das outras. Não sou nenhum patriota ufanista, e acho profundamente irritante a soberba que a equipe canarinho adquiriu em tempos recentes, não apenas os jogadores e comissão técnica, mas todo o universo de jornalistas e torcedores que a cercam – aquela coisa de achar que todo jogo ou campeonato começa ganho, e, se isso não acontece, é porque o time decepcionou, e não os adversários que, porventura, possam ter alguma qualidade. É, enfim, o culto ao deus ex machina esportivo.

Vocês sabem do que eu estou falando. Existe no Brasil uma certa cultura do deus ex machina, da força superior que, quando necessário, desce à terra resolve todos os problemas. Temos toda a nossa tradição política de paternalismo e “pais dos pobres” – e o que é o paternalismo se não um deus ex machina feito mundano? -, e ele existe também em outros aspectos da nossa sociedade, mas me refiro aqui especificamente à presença dele na nossa crônica esportiva e cultura do futebol – a idéia do “jogador diferenciado”, o craque que assume a responsabilidade de levar o time nas costas e decidir a partida em um lance de (vejam só que coisa) pura magia. O resto da partida é um enredo secundário, uma trama irrelevante que está lá apenas para aquele momento de epifania em que tudo se resolve.

O outro lado da moeda seria o futebol mecânico e bem armado que muitos associam a certos países europeus, em especial a Inglaterra e a Alemanha. É o futebol do realismo literário, em que cada trama se desenvolve sem pressa e se encaixa nas demais, até que se chegue ao desfecho desejado – no caso, o gol que definirá a vitória.

Claro, na prática, um bom time nunca pode depender unicamente de um destes estilos de jogar. Uma equipe “realista” pode virar previsível com alguma facilidade, na medida em que suas tramas se tornam conhecidas e contra-tramas passam a ser armadas pelos adversários. No outro caso, a equipe do deus ex machina será muito inconstante, pois nunca há como controlá-lo plenamente, e fazê-lo estar presente a todo momento – poderes superiores, afinal, tendem a ter suas próprias agendas e seguir seus próprios desígnios na hora de intervir em assuntos terrenos, e é por isso que sempre temos um punhado de guerreiros bem mundanos protegendo os clérigos e magos do grupo, para quando seus milagres e feitiços não funcionarem corretamente.

E assim voltamos à seleção, mais especificamente àquela que empatou neste fim de semana com o Paraguai pela Copa América na Argentina. O deus ex machina nacional claramente não está funcionando, ou eu provavelmente não estaria aqui comentando. Ainda assim, é a ele que todos recorrem – coloquem o Lucas Silva e tudo se resolve, dizem; tirem o Robinho, tirem o Pato, tirem o Daniel Alves. Na Copa do Mundo era o Neymar, o mesmo que hoje saiu vaiado de campo. Tudo sempre se resolvendo em um passe de mágica.

Claro, não se pode dizer que o Mano não tenha tido desta vez um bom deus ex machina a seu favor – foi o Jádson que ele escalou no lugar do Robinho que abriu o placar, e o Fred que ele colocou durante o jogo que empatou a partida no final. Mas mesmo de resto, o que ele fez de errado, exatamente? Pediram pra ele queimar o Robinho depois do último jogo, e ele queimou. Não me surpreenderei se Neymar ou Pato, ou mesmo os dois, forem queimados no próximo. Se o Dunga era todo cheio de convicções ao se bater com a imprensa, e apesar de tudo eu aprendi a admirar ele por isso, o Mano é 100% conivências – aceita tudo que sugerem, faz todas as mudanças. E até agora, o resultado não foi muito melhor.

Acho que a verdade mesmo é que os problemas da seleção passam muito pouco por ele ou qualquer escolha que ele faça. Não há muitas mais alterações que se possa fazer – já está lá o Ganso, o único deus ex machina em termos que tem se salvado, e a maioria das outras posições não estão exatamente mal escaladas (salvo aí a lateral esquerda, mas esse é problema crônico difícil de resolver mesmo). E do ponto de vista tático também há muito pouco o que se pode fazer – tanto já foi feito, copiado e refeito que a maioria das seleções mesmo tem poucas novidades, recorrendo aos mesmos esquemas e soluções, apenas adaptando-os aos jogadores disponíveis. Não vou dizer que simplesmente não há mais como reinventar a roda, mas fazê-lo de fato é tão improvável que na verdade já seria uma forma de deus ex machina – uma intervenção superior e imprevisível que mude a realidade.

A impressão que eu tive vendo este último jogo é que o que falta mesmo à seleção é um realismo mais cru e brutal, digamos que ao estilo Rubem Fonseca – um realismo físico mesmo. Se o deus ex machina é inconstante demais, e o realismo tático previsível demais, o que sobra é justamente o aspecto físico: os jogadores correrem atrás das bolas, forçarem nas divididas, se segurarem nas batidas. Muito se fala que o futebol atual é mais de 50% preparação física, e é justamente isso que tem faltado; se a maioria dos jogadores brasileiros parecia cansada depois de toda a temporada de campeonatos europeus, cedendo em quase todas as jogadas mais fortes, os paraguaios, com a força típica do futebol platino, foram superior nesse aspecto praticamente do início ao fim. Talvez algo parecido possa se aplicar também às seleções argentina e uruguaia, acho.

Enfim, é a impressão que tive assistindo à última partida da seleção brasileira. Sei que os comentários da crônica (sic/sci-fi) esportiva brasileira vão se resumir a quem deveria ter sido escalado no lugar de quem, quem deveria ter suado mais a camisa, e todos esses chavões típicos. Pessoalmente, no entanto, acho que boa parte deles passa longe mesmo do problema de verdade.

(P.S.: Num comentário final, pesquisando por imagens da seleção no Google, eu não consegui não usar essa foto pra ilustrar o texto… Explicações neste link).

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2 Responses to “Da Literatura no Futebol”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 10/07/2011 às 01:35

    Um grande – grandíssimo – problema do esporte nacional como um todo (e do qual o futebol até consegue escapar bem, mas talvez pela abundância de pés de obra) é que o que se espera e que se prega é que tudo se resolverá sozinho. Um grande atleta vai brotar do chão que nem cogumelo e tudo ficará tranquilo. Dom Sebastião vai aparecer calçando chuteiras e nos levando para a glória eterna, certamente.
    Só que o grande ponto dessa seleção (e não vejo muita graça na seleção brasileira em geral, tou acompanhando a Copa América por osmose ou falta do que melhor fazer – apesar de gostar do futebol de seleções) e que não vejo alívio na crítica é que um time não se faz sem entrosamento. O Barcelona não é “O” Barcelona porque colocaram onze craques juntos – ainda mais porque ali tem jogadores medianos, sim – mas porque a base daquele time joga junta há, no mínimo, seis anos, e a reposição de peças é gradual. Não é porque a fada madrinha abençoou Messi e guiou-os rumo ao caminho dourado da vitória, mas porque houve trabalho por trás.
    A Seleção escolheu renovar-se, o time atual não tem mais do que quatro ou cinco jogos juntos. COMO esperar que um jogador conheça o outro, saiba do outro, extraia o melhor do outro?
    Daí a imprensa brasileira cai de pau. Empatou o primeiro jogo? Tragédia. Sofreu pra empatar o segundo? O apocalipse ocorrerá amanhã. Só que não existe sucesso sem trabalho e muito menos sucesso automático. E a seleção brasileira não é invencível e intocável (que é também um pressuposto do qual jogadores parecem partir ao entrar em campo), ela pode perder, ainda mais num momento de renovação como o que se propôs.
    Estava pensando se essa é mesmo a melhor seleção possível. (até tou lembrando daquela discussão de que “por que os jogadores que mais se destacaram no Campeonato Brasileiro de 2010 foram os argentinos?” ou “Conca/Montillo (*-*) na seleção”) Até acho que com três ou quatro posições controversas (e que eu alteraria, André Santos não passaria na minha seleção nem para gandula), é a melhor seleção possível mesmo, ainda mais levando em consideração que o Mano não vai contrariar o senso comum jornalístico pátrio. Só que daí entra aquele problema da geração de entressafra – os últimos grandes se aposentaram e os próximos ou ainda são inexperientes demais, ou ainda não surgiram. E só surgirão se houver um ambiente onde eles possam surgir e se desenvolver. São como os talentos olímpicos também, ninguém parece querer entender que um atleta de alto rendimento só se faz se houver espaço para ele se desenvolver.
    Sei lá se já falei demais mas é isso por enquanto :P


  1. 1 A “magia” do futebol brasileiro | Rodapé do Horizonte Trackback em 22/12/2013 às 21:38

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